terça-feira, 12 de julho de 2016

3º Simpósio Internacional de História Pública

As inscrições para apresentação de trabalhos no 3º Simpósio Internacional de História Pública: “História pública em debate” estão abertas. O evento, que será realizado de 28 a 30 de novembro de 2016 na Universidade Regional do Cariri, na cidade do Crato, Ceará, recebe propostas para apresentações até o dia 20 de agosto.
O simpósio visa reunir estudantes, professores, pesquisadores e profissionais de diversas proveniências cujas práticas e cujos interesses orbitem em torno do conceito da história pública. O tema aglutinador escolhido para o evento abre-se para um elenco de tópicos bastante instigante e variado, propiciando o cruzamento de fronteiras entre diversas áreas de conhecimento e atuação, acadêmicas e não acadêmicas.
As propostas para comunicações orais devem ser apresentadas em resumos contendo entre 2.000 e 2.800 caracteres, título e palavras-chaves, inseridas a um dos dez grupos de trabalho do evento. Elas poderão se referir a projetos individuais ou coletivos, em andamento ou concluídos, de profissionais, estudantes e pesquisadores, voltados à prática e/ou à reflexão sobre as diferentes relações entre história e público.
Entre as várias abordagens possíveis, estão: a difusão de conhecimento histórico para públicos mais amplos; a ampliação dos horizontes de atuação profissional para o historiador; a exploração de novas linguagens e recursos na produção historiográfica; o impacto social e público da produção acadêmica; os usos do passado; a função da história pública na divulgação e no gerenciamento do patrimônio material e imaterial; celebrações, comemorações e memoriais; cruzamentos com outras áreas de conhecimento aplicado, como o jornalismo, o turismo e a produção editorial; a relação entre história e literatura, em âmbitos variados como as biografias, os testemunhos, a ficção histórica; a história digital e as novas mídias; a produção colaborativa do conhecimento histórico.
Também estão abertas as inscrições para a Mostra Audiovisual (com obras como vídeo e áudio-documentários) e as sessões de lançamentos de livros e outros materiais..
Inscrições e mais informações:

Jogos Olímpicos carregados de tensão

Eric Nepomuceno, do Rio de Janeiro para o Página/12

Falta menos de um mês de distância no calendário para a sexta-feira 5 de agosto, quando os portões do mítico estádio do Maracanã se abrirão para a cerimônia do início dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Foram anunciadas maravilhas da mais alta tecnologia, capazes de multiplicar o brilho de dez mil figurantes cuidadosamente treinados para criar, na cerimônia de abertura, um espetáculo sem precedentes, algo absolutamente inesquecível.

Na última segunda-feira, dia 4 de julho, tivemos uma prévia do que será a participação de um dos atores de grande importância nestes Jogos Olímpicos, a Força de Segurança Nacional, integrada por policiais militarizados de todos os estados brasileiros, que chegou ao Rio, com uma recepção comme il faut: seus integrantes haviam acabado de entrar na área urbana e já se viram em meio a um tiroteio com um grupo narcotraficante, desses que controla as favelas que se distribuem por toda a cidade. Não houve sequer feridos, mas despertou temores. Um dos tiros disparados pela gangue acertou o espelho retrovisor de um veículo da Força de Segurança Nacional. É bastante simbólico o fato de que, ao chegar à cidade, o motorista desse veículo perdesse, mesmo que por alguns segundos, a possibilidade de olhar para trás, para saber de onde vinha.

Para os habitantes da que ainda é chamada de Cidade Maravilhosa, se trata de notícia cotidiana: aqui, tiros e balas perdidas fazem parte do dia a dia, e não tira das pessoas a ideia de que são privilegiadas por viver numa das paisagens urbanas mais belas do mundo.

Logo, voltemos ao tema principal: estamos falando dos Jogos Olímpicos, um evento que não é pouca coisa. Todos os números são astronômicos: 25 mil jornalistas credenciados (e se esperam mais 5 mil retardatários, como sempre), a estimativa de um público de cerca de cinco bilhões de espectadores em todo o mundo, que assistirá os mais de 10 mil atletas, de 206 diferentes nações, que participarão do evento.

Para os que gostam das comparações: em 2014, quando se disputou a Copa do Mundo de futebol no Brasil, 32 países enviaram 736 jogadores, que disputaram 64 partidos. Houve pouco menos de 19 mil jornalistas credenciados, e o número de espectadores foi de 3,2 bilhões.

Nos Jogos Olímpicos, serão 306 provas, em 42 modalidades esportivas. Foram colocados a venda mais de três milhões de entradas, e haverá uns 50 mil voluntários prestando sua gratuita colaboração para que tudo aconteça da forma mais cômoda possível para as delegações participantes.

Alguns cálculos indicam que haveria algo ao redor de 700 mil turistas nacionais e estrangeiros na cidade entre os dias 5 e 21 de agosto, dividindo o espaço com os demais 7 milhões de habitantes da capital fluminense. Se espera também a presença de 60 chefes de Estado ou de governo. A expectativa inicial era de cem, mas já se sabe que dificilmente será alcançada: o Brasil vive um conturbado momento político, em que um golpe institucional em curso coincide com a realização de um dos eventos mais importantes da história do país.

Ainda assim, o país anfitrião trabalha para que se chegue ao menos a esses 60 líderes mundiais, tendo a certeza de que pelo menos dois estarão. Um deles será Michel Temer, cujo título oficial é o de vice-presidente em exercício, mas que para efeitos concretos é o presidente. E também estará Dilma Rousseff, eleita por 54 milhões e 500 mil votos em 2014, mas que foi afastada temporariamente do poder graças aos votos de 55 senadores, que abriram um processo no Senado para destituí-la do cargo. Apesar do afastamento, ela não perdeu seu mandato. Exagerado como de costume, o Brasil levará dois presidentes à inauguração, algo inédito na história do evento.

Ao longo dos últimos seis anos, o Rio se preparou intensamente para a realização dos primeiros Jogos Olímpicos – o maior evento esportivo do mundo – na América do Sul. A cidade levantou instalações esportivas construídas ou reformadas, obras viarias que se multiplicaram, transformando o cotidiano dos habitantes num inferno, mas com a promessa de ser uma benéfica herança que contemplará a todos. Terminada a festa, veremos se tudo valeu a pena, como diziam as autoridades municipais. Entretanto, para que se alcance semelhante façanha, ainda há obstáculos, e não são poucos. O principal, como sabem todos, é a violência urbana.

Um estudo divulgado recentemente pela ONU mostra que a Polícia Militar do Rio de Janeiro, encarregada de patrulhar a cidade, é a mais letal do mundo, matando duas vezes mais que na África do Sul – país que se tornou famoso por ter uma das polícias mais fulminantes do mundo. A polícia carioca é dez vezes mais mortífera que as polícias dos Estados Unidos. No caso brasileiro, pode-se usar a palavra ‘letal’ sem medo de cometer injustiças, já que a polícia local está também entre as mais bestialmente truculentas e olimpicamente corruptas do mundo. Tudo isso torna inevitável que, às vésperas da inauguração do maior evento esportivo do mundo, o tema da violência urbana e da atuação das forças de segurança invada a agenda.

O espetáculo que será oferecido na Cidade Maravilhosa promete ser uma maravilha inesquecível. O problema é que a realidade ameaça ser outra coisa.

Tradução: Victor Farinelli

(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Jogos-Olimpicos-carregados-de-tensao/6/36418) 

sábado, 9 de julho de 2016

Ainda há esperança na juventude de hoje...



Honra ao mérito
O projeto 'Nossos Escritores' é desenvolvido nas aulas de História do 3º ano do Ensino Médio, Colégio Imaculada Conceição de Belo Horizonte. Em cada etapa, discussões são feitas em sala de aula a partir do conteúdo estudado e relações são estabelecidas com o cenário nacional e internacional. Um rico material é oferecido aos alunos para pesquisa, e o resultado é expresso através da produção de textos que levantam reflexões, apresentam propostas e proporcionam aos alunos a possibilidade de se expressarem diante de temas instigantes e relevantes. Confira abaixo a produção do aluno Lucas Abreu Moura Pereira, (1998) que se destacou na primeira etapa de 2016, com o texto abaixo.


Política, para não ser idiota

Lucas Abreu Moura Pereira


'           'A política é uma questão séria demais para ser deixada para os políticos'' - Charles de Gaulle,
Todo processo histórico é marcado por continuidades e mudanças, ou seja, podemos identificar transformações e permanências de um período para outro. Desse ponto de vista, a análise dos fatos históricos exige critérios teóricos e metodológicos, para que se possa ter uma melhor compreensão acerca do que aconteceu. O atual retrato político-partidário brasileiro não foge a essa perspectiva.
Ao longo do processo histórico de formação do Estado nacional brasileiro, do século XVI ao XXI, o nosso sistema político, isto é, o conjunto de instituições políticas por meio das quais um Estado se organiza a fim de exercer o seu poder sobre a sociedade, sofreu profundas mudanças até se transformar na República Federativa Presidencialista que se constitui hoje, o que foi obtido através da Proclamação da República, ocorrida em 15 de novembro de 1889.
É importante salientar que a proclamação da república não representou uma ruptura no processo histórico brasileiro, haja vista que foi uma realização essencialmente elitista, marcada pela ausência de participação popular. O artigo de Aristides Lobo, no Diário Popular de São Paulo, em 18 de novembro, no qual dizia: "O povo assistiu àquilo tudo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava." corroborou a frase do jornalista e escritor pré-modernista Lima Barreto "O Brasil não tem povo, tem público." sobre o movimento de 15 de novembro que não logrou mudanças significativas na vida do povo brasileiro. Destarte, a Proclamação da República foi um projeto feito pelas elites e para as elites e deu, assim, início ao atual retrato político-partidário brasileiro, marcado principalmente pela grande autonomia das elites em relação ao poder central devido ao amplo domínio das mesmas sobre os Estados, o que foi garantido através de uma política federalista.
Desse modo, os partidos políticos foram idealizados como um arranjo temporário para as oligarquias manipularem o Estado, o que foi fundamental para a consolidação do atual retrato político partidário do país, o qual é respaldado no jogo de interesses dessas elites dominantes. Assim sendo, não possuíam grandes divergências ideológicas, desejavam apenas o exercício do poder.
Até hoje, as elites governamentais perpetuam no poder através desses partidos políticos que recrutam candidatos e fazem campanhas para os elegerem a cargos públicos, mobilizando as pessoas para participarem na escolha dos governantes, tendo como objetivo ligá-las a seu governo. Segundo o ex-ministro do Supremo Tribunal de Justiça, Joaquim Barbosa, o que temos hoje são "partidos de mentirinha", uma vez que não possuem grande divergências ideológicas, querem o poder pelo poder. Daí aplica-se a velha frase utilizada durante o Segundo Reinado, quando liberais e conservadores se alternavam no poder: ?não há nada mais conservador do que um liberal no poder, não há nada mais liberal do que um conservador na oposição?.
É comum ouvirmos as pessoas dizerem que o que vivemos hoje no Brasil é uma democracia. Entretanto, uma democracia pressupõe não apenas o sufrágio universal, mas também uma igualdade jurídica e social, o que nitidamente não existe em nosso país hoje. Além disso, a existência de um grande número desses "partidos de mentirinha" faz com que as condições necessárias para o exercício da verdadeira democracia se tornem cada vez mais difícil, tendo em vista que não existe nenhuma base de sustentação popular dentro deles, o que permitiu que, ao transcorrer do tempo, a política - antes conhecida como a arte de servir ao povo - se transformasse na arte de se servir do povo. 
O melhor exemplo dessa transformação é a corrupção, a qual pode ser comparada a um parasita que tem no povo o seu hospedeiro. Todos os dias somos bombardeados com inúmeros escândalos de todas as espécies pela mídia; como uma ligação indecente entre homens públicos e grandes empresas do setor privado, para dilapidar o patrimônio público trocando privilégios políticos por enriquecimento ilícito. Isso não só contribui para aprofundar o descrédito da população na classe política, como também mostra que a corrupção é um problema das democracias, pois revela a fragilidade de um sistema em que o soberano, a população, é colocado facilmente no lugar de subalterno. Daí a importância do povo na hora de eleger seus representantes, pois como disse uma vez Abraham Lincoln "O voto é mais forte que a bala." 
Logo, a política de desvalorização do voto, iniciada durante a República Velha no Brasil e que perdura até hoje através de práticas semelhantes ao coronelismo e ao voto de cabresto - as quais tem por objetivo controlar as eleições distribuindo favores à população em troca de votos - mostram-se como um empecilho ao exercício da cidadania no Brasil, o que é passado de geração em geração, suscitando uma cultura ignorante onde o voto não é tratado com a seriedade que merece.
Atualmente, o Brasil passa pelo momento mais duro desde a sua redemocratização. A crise política e econômica faz com que lamentemos e choremos as práticas estabelecidas pela maioria. Isso porque a maioria de nosso país é representada pelos políticos. Deputados, senadores, governadores e a Presidência da República foram e são eleitos a partir da representação popular. Cada um destes supostamente mereceu a confiança de cada voto, inclusive a nossa presidente Dilma Rousseff que passa pelo processo de impedimento da continuidade de seu mandato, o chamado impeachment.
O processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff revela a polarização de uma sociedade alheada da realidade, a qual não consegue enxergar um palmo adiante do nariz. Segundo Ernesto Che Guevara, "um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la". A crise do sistema político brasileiro não é de hoje. Ela é uma construção que permeia todo o regime republicano brasileiro até os dias atuais. Portanto, o afastamento do PT do governo não seria a solução, e sim um paliativo, isto é, um procrastinador que adia uma crise sem, de fato, resolvê-la.  
Você, caro leitor, deve estar se perguntando agora: existe, então, uma solução definitiva para a crise política no Brasil.
Há dois mil e quinhentos anos, os gregos davam um nome apropriado a aquele que cuidasse da vida pública, da comunidade e que acreditasse que a mais nobre regra era "um por todos e todos por um": este era chamado de político. Por outro lado, esses mesmos gregos utilizavam o termo "idiótes" para designar aquele que só vivia a vida privada, que recusava a política, que dizia não à política. Em outras palavras, os gregos antigos denominavam idiota aquele que achava que a regra da vida era "cada um por si e Deus por todos." No cotidiano, o que se fez foi um sequestro semântico, uma inversão do que seria o sentido original de idiota e de político.
A palavra ''política'' provém do grego antigo ''politéia'' que, por sua vez, era usada para se referir a tudo relacionado à pólis (cidade-estado) e à vida em coletividade. Na Grécia Antiga,  entendia-se que todos e todas éramos e deveríamos ser políticos, a partir da noção de que pólis é a sociedade, comunidade, coletividade, e é nela, com ela e por ela que vivemos. Como diz o ditado, "nem tudo que é novo é necessariamente bom, e nem tudo que é velho deve ser descartado."

México: a rebelião que a mídia não vê


Greve dos professores contra privatização do Ensino desdobra-se em manifestações, bloqueios, comunas. Polícia reprime com violência e mortes, mas movimento não recua. Zapatistas podem envolver-se
Por Scott Campbell*, na ROAR Magazine | Tradução Democratize

Em um comunicado divulgado na sexta-feira, 17 de junho, os zapatistas colocaram as seguintes questões relacionadas com a greve em curso dos professores nacionais no México:
“Eles apanharam, jogaram gás neles, os prenderam, os ameaçaram, sofreram disparos, calúnia, com o governo declarando estado de emergência na Cidade do México. Qual é o próximo passo? Irão desaparecer com os professores? Será que vão matá-los? A reforma educacional vai nascer por cima do sangue e cadáveres dos professores?”
No domingo, 19 de junho, o Estado respondeu a estas perguntas com um enfático “Sim”. A resposta veio na forma de fogo de metralhadora da Polícia Federal dirigidas contra professores e moradores que defendem o bloqueio de uma estrada em Nochixtlán, uma cidade no sul do estado de Oaxaca.
Inicialmente, o ministério de Segurança Pública de Oaxaca afirmou que a Polícia Federal estava desarmada e “nem mesmo carregava bastões”. Após ampla evidência visual e uma contagem de corpos de manifestantes mortos no “confronto”, o Estado admitiu que policiais federais abriram fogo contra o bloqueio, matando seis. Enquanto isso, os médicos em Nochixtlán divulgaram uma lista de oito mortos, 45 feridos e 22 desaparecidos. Na segunda-feira, o Coordenador Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE), disse que dez foram mortos no domingo, incluindo nove de Nochixtlán.

Os professores pertencentes à CNTE, uma facção mais radical de cerca de 200 mil dentro dos 1,3 milhões do Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Educaçãpo (SNTE), o maior sindicato da América Latina, estão em greve por tempo indeterminado desde o dia 15 de maio. Sua demanda principal é a revogação da “Reforma Educacional”, iniciada pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto em 2013.
Um plano neoliberal baseado em um acordo de 2008 entre o México e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a reforma visa padronizar e privatizar o sistema de educação pública do México, bem como enfraquecer o poder do sindicato dos professores. Os professores também estão exigindo mais investimento em educação, liberdade para todos os presos políticos, além da verdade e justiça para os 43 desaparecidos de Ayotzinapa.

Um ataque tarde da noite no dia 11 de junho contra o acampamento dos professores em um bloqueio no Instituto de Educação Pública (IEEPO) concentrou mais de mil policiais, que moveram as barricadas e retiraram rapidamente os professores e moradores do local. Um dia depois, os dois principais líderes da CNTE em Oaxaca e Cidade do México foram presos, além de 24 mandados de prisão emitidos para as outras lideranças.

Dezenas de bloqueios foram feitos pela população até o dia 14 de junho, quando dezenas de milhares saíram às ruas para comemorar o aniversário da rebelião em Oaxaca feita em 2006, com a construção de uma comuna que durou cerca de cinco meses.

A CNTE controla 37 pontos críticos nas rodovias em todo o Estado, bloqueando com 50 caminhões-tanque expropriados. Os bloqueios foram tão eficazes que a ADO, uma grande linha de ônibus de primeira classe, cancelou indefinidamente todas as viagens da Cidade do México para Oaxaca, fazendo a Polícia Federal usar aviões para enviar reforços na cidade de Oaxaca, Huatulco (na costa) e Ciudad Ixtepec.

Domingo à noite, a policia começou a cortar a energia para vários setores da cidade, afetando o transporte público, e aumentando os temores de que as forças federais e estaduais tentassem tomar a cidade e o acampamento dos professores na praça principal (Zócalo).

Já na segunda-feira, pelo menos 40 mil pessoas marcharam em Oaxaca para protestar contra a violência do Estado no domingo. Oitenta grupos da sociedade civil emitiram um “alerta humanitário devido ao ataque do Estado armado contra a população civil”. O governador de Oaxaca, Gabino Cué, afirmou que os professores estão em minoria nos bloqueios — tentando deslegitimar a luta.

Na cidade de San Cristóbal de las Casas, integrantes do EZLN alertaram o ofensiva do governo mexicano contra os professores e a população de Oaxaca.

Em um comunicado oficial, o grupo zapatista diz “não tolerar a violência praticada de forma rotineira contra os educadores e os estudantes”, e que a cada vez que o conflito se aproxima de territórios ocupados pelo grupo, “maiores as chances de um eventual confronto para proteger a população civil contra o Estado assassino e policial”.

Oficialmente, o EZLN não pega em armas desde a metade dos anos 90, após uma ofensiva do grupo revolucionário em Chiapas. Desde lá, diversas tentativas de negociar um processo de paz foram esgotadas, por conta da pressão do exército nos arredores das cidades ocupadas pelo grupo.

Mesmo com a possibilidade de uma verdadeira revolução ocorrer no México, ainda mais urgente que a situação e os protestos na Venezuela, o assunto não virou manchete nos meios de comunicação do Brasil.
Para o ativista mexicano Pablo Barba, residente no Brasil desde 2007, isso ocorre pela semelhança entre o plano do governo mexicano para a Educação e os objetivos do atual governo interino. “A privatização em massa, o enfraquecimento dos sindicatos, isso tudo é debatido pelo atual governo de Michel Temer, é um velho sonho do PSDB. No México já estão fazendo isso, e agora chegou a reação. No Brasil não será diferente, principalmente se os educadores e os estudantes se inspirarem na mobilização mexicana contra esse plano absurdo do governo”, diz o ativista.

*Scott Campbell, tradutor que viveu em Oaxaca por sete anos,



Rumo a uma Era da Desintegração

No Oriente Médio, Estados independentes desmoronam. Guerras, políticas neoliberais e desigualdade extrema aceleram o processo. Mas e se o fenômeno tornar-se global?
Por Patrick Cockburn | Tradução: Cauê Seignemartin Ameni e Inês Castilho

Vivemos numa era de desintegração. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no Oriente Médio e na África. De lado a lado da vasta faixa de território entre o Paquistão e a Nigéria, há pelo menos sete guerras acontecendo – no Afeganistão, Iraque, Síria, Iêmen, Líbia, Somália e Sudão do Sul. Esses conflitos são extraordinariamente destrutivos. Despedaçam os países onde estão ocorrendo, a ponto que é de se duvidar se algum dia poderão recuperar-se. Cidades como Aleppo, na Síria; Ramadi, no Iraque; Taiz, no Iêmen; e Benghazi, na Líbia, foram reduzidas a ruínas, em parte ou totalmente. Há também pelo menos três outras sérias conflagrações: no sudeste da Turquia, onde as guerrilhas curdas estão combatendo o exército turco; na península do Sinai, no Egito, onde atua uma guerrilha pouco divulgada, porém feroz; e no nordeste da Nigéria e países vizinhos, onde o Boko Haram continua a fazer ataques assassinos.

Todos têm algumas coisas em comum: são intermináveis, e parecem nunca produzir vencedores ou perdedores definitivos. (O Afeganistão está em guerra desde 1979 e a Somália, desde 1991). Envolvem a destruição ou o desmembramento de nações unificadas, sua divisão de facto entre movimentos de massa da população e insurreições – bem divulgados no caso da Síria e do Iraque, e menos em lugares como o Sudão do Sul, onde mais de 2,4 milhões de pessoas foram deslocadas nos últimos anos.

Some-se a isso mais uma semelhança, não menos crucial, embora óbvia: na maioria desses países, nos quais o Islã é a religião dominante, movimentos salafistas extremistas, entre eles o Estado Islâmico (ISIS), a Al-Qaeda e o Talibã, são essencialmente os únicos canais disponíveis para protestos e rebeliões. No momento, substituíram inteiramente os movimentos socialistas e nacionalistas que predominaram no século 20. Os últimos anos viram um significativo retorno à identidade religiosa, étnica e tribal, por movimentos que buscam estabelecer seu próprio território exclusivo pela perseguição e expulsão de minorias.

No processo, e sob pressão de intervenção militar externa, uma vasta região do planeta parece estar sendo cindida. Há muito pouco entendimento desses processos em Washington. Um bom exemplo disso foi o recente protesto de 51 diplomatas do departamento de Estado, contrários à política do presidente Barack Obama para a Síria e a sugestão de que sejam lançados ataques aéreos contra as forças do regime sírio, acreditando que o presidente Bashar al-Assad iria assim cooperar com um cessar fogo. A abordagem dos diplomatas mantém-se tipicamente simplória, num conflito extremamente complexo, ao acreditar que o bombardeio de áreas civis e outros atos impiedosos do governo sírio são a “causa raiz da instabilidade que continua a sufocar a Síria e a região mais ampla”.

É como se a mente desses diplomatas estivesse ainda na era da Guera Fria, como se eles ainda estivessem lutando contra a União Soviética e seus aliados. Contra todas as evidências dos últimos cinco anos, assume-se que uma oposição síria moderada, que mal sobrevive, seria beneficiada pela queda de Assad. Falta entender que a oposição armada na Síria é inteiramente dominada pelos clones do Estado Islâmico e da al-Qaeda.

Embora admita-se amplamente, hoje, que a invasão do Iraque em 2003 foi um erro (mesmo por aqueles que a apoiaram à época), não se aprenderam as verdadeiras lições. Por que todas as intervenções militares, diretas ou indiretas, dos EUA e seus aliados no Oriente Médio, no último quarto de século, apenas exacerbaram a violência e aceleraram a falência do Estado?

Extinção em massa de estados independentes

O Estado Islâmico (ISIS), que acaba de comemorar seu segundo aniversário, é o resultado grotesco desta era de caos e conflitos. A simples existência dessa seita hedionda é um sintoma do profundo deslocamento sofrido pelas sociedades de toda a região, governada por elites corruptas e desacreditadas. O crescimento do ISIS – e o de vários clones do estilo Talibã e Al-Qaeda – é uma medida da fraqueza de seus opositores.
O exército e forças de segurança do Iraque, por exemplo, tinham 350 mil soldados e 660 mil policiais, segundo os registros, em junho de 2014, quando alguns poucos milhares de combatentes do Estado Islâmico capturaram Mossul, segunda maior cidade do país, que ainda dominam. Hoje, o exército iraquiano, os serviços de segurança e cerca de 20 mil paramilitares xiitas, apoiados pelo poder de fogo maciço dos Estados Unidos e forças aéreas aliadas, abriram caminho a bala até a cidade de Faluja, cerca de 60 quilômetros a oeste de Bagdá, contra a resistência de não mais que 900 combatentes do ISIS. No Afeganistão, o ressurgimento do Talibã, supostamente derrotado em definitivo em 2001, aconteceu menos em razão da popularidade do movimento do que pelo descaso com que os afegãos viam o governo corrupto de Cabul.

Os estados-nação estão depauperados ou desmoronando em todos os lugares, enquanto líderes autoritários lutam pela sobrevivência frente a crescentes pressões, externas e internas. Esse não é, de modo algum, o modo como se esperava que se desse o desenvolvimento da região. Os países que escaparam do domínio colonial na segunda metade do século 20, com o passar do tempo, deveriam tornar-se mais e não menos unificados.

Entre 1950 e 1975, líderes nacionalistas assumiram o poder em grande parte do mundo anteriormente colonizado. Prometeram alcançar autodeterminação nacional criando estados independentes poderosos, por meio da concentração de todos os recursos políticos, militares e econômicos disponíveis. Em vez disso, no decorrer das décadas muitos desses regimes transformaram-se em estados policiais controlados por um pequeno número de famílias surpreendentemente ricas, e uma camarilha de empresários dependentes de suas conexões com líderes como Hosni Mubarak, no Egito, ou Bashar al-Assad, na Síria.

Nos últimos anos, esses países foram também abertos ao furacão do neoliberalismo, que destruiu qualquer contrato social rudimentar que existia entre os governantes e os governados. Veja a Síria. Lá, vilas e cidades rurais que em algum momento apoiaram o regime do partido Baath da família al-Assad, porque proporcionou empregos e manteve baixos os preços dos produtos básicos, foram depois de 2000 abandonados às forças do mercado, distorcidas em favor daqueles que estão no poder. Esses lugares foram a espinha dorsal da rebelião pós 2011. Ao mesmo tempo, instituições como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que tanto fez para aumentar a riqueza e o poder dos produtores de petróleo da região nos anos 1970, perderam a capacidade de agir unificadamente.

A questão do momento é: por que uma “extinção em massa” de estados independentes está acontecendo no Oriente Médio, no Norte da África e região? Os políticos e a mídia ocidentais referem-se frequentemente a esses países como “estados fracassados”. O sentido que esse termo implica é que o processo é autodestrutivo. Mas vários estados agora rotulados de fracassados, como a Líbia, reduziram-se a isso somente depois que movimentos de oposição, apoiados pelo Ocidente, tomaram o poder com o apoio e a intervenção militar de Washington e da OTAN, e mostraram-se muito fracos para impor seus próprios governos centrais e o monopólio da violência no território nacional.

O processo começou, em vários sentidos, com a intervenção no Iraque pela coalizão liderada pelos EUA, em 2003, que levou à queda de Saddam Hussein, ao fechamento do Partido Baath e à dissolução de seu exército. Qualquer que sejam seus erros, Saddam e o autocrático governante da Líbia, Muammar Gaddafi, foram claramente demonizados e acusados pelas diferenças étnicas, sectárias e regionais dos países que governavam — forças estas que foram, na verdade, liberadas de modo cruel depois de suas mortes.

Há, contudo, uma pergunta que não quer calar: por que a oposição à autocracia e à intervenção do Ocidente assumiu a forma islâmica, e por que os movimentos islâmicos que acabaram por dominar a resistência armada no Iraque e na Síria, em particular, toram tão violentos, regressivos e sectários? Colocado de outra forma, como poderiam esses grupos encontrar tantas pessoas querendo morrer por suas causas, enquanto seus opositores encontraram tão poucas? Quando os grupos de combate do ISIS estavam varrendo o norte do Iraque, no verão de 2014, soldados que haviam jogado fora suas armas e uniformes, e desertaram daquelas cidades do norte do país, justificaram sua revoada dizendo com desdém: “Morrer pelo [então primeiro ministro Nouri] al-Maliki? Jamais!”

Uma explicação usual para o crescimento dos movimentos de resistência islâmica é que a oposição socialista, secular e nacionalista foi esmagada pelas forças de segurança dos velhos regimes, ao contrário dos islâmicos. Em países como a Líbia e a Síria, contudo, os islâmicos também foram perseguidos com selvageria, e apesar disso dominaram a oposição. Mesmo assim, embora esses movimentos religiosos tenham sido suficientemente fortes para opor-se aos governos, eles geralmente não se mostraram fortes o suficiente para substituí-los.

Muito fracos para vencer, muito fortes para perder

Embora haja, claramente, muitas razões para a desintegração atual dos estados, e elas sejam de alguma forma diferentes de lugar para lugar, uma coisa é certa: o fenômeno está se tornando uma regra em vastas regiões do planeta.

Se você está procurando as causas da falência do estado nos dias que correm, deve sem dúvida começar pelo fim da Guerra Fria, um quarto de século atrás. Uma vez encerrada, nem os EUA, nem a nova Rússia que emergiu da implosão da União Soviética tinham interesse significativo em continuar apoiando “estados fracassados”, como fizeram durante tanto tempo, por medo de que o superpoder rival e seus aliados locais pudessem, então, tomar o poder. Antes, líderes nacionais de regiões como o Oriente Médio eram capazes de manter seus países com certa independência, equilibrando-se entre Moscou e Washington. Com a dissolução da União Soviética, isso não foi mais possível.

Além disso, na esteira do colapso da União Soviética, o triunfo da economia neoliberal de livre mercado somou a esse mix um elemento crítico. O neoliberalismo iria se mostrar muito mais desestabilizador do que parecia à época.

Veja a Síria, de novo. A expansão do livre mercado, num país onde não havia nem legitimidade democrática, nem o domínio da lei, significou acima de tudo uma coisa: plutocratas ligados às famílias que governavam as nações tomaram para si tudo o que parecia potencialmente lucrativo. No processo, tornaram-se assustadoramente ricos, enquanto os habitantes empobrecidos das vilas, das cidades e das favelas urbanas, que antes contavam com o estado para conseguir emprego e comida barata, sofreram.

Ninguém deveria surpreender-se pelo fato de que esses lugares tenham se tornado redutos das rebeliões sírias, depois de 2011. Na capital, Damasco, à medida em que se expandia o reino do neoliberalismo, até mesmo os membros menos importantes do mukhabarat, a polícia secreta, passaram a viver com apenas 200 a 300 dólares mensais, enquanto o estado tornava-se uma máquina de ladrões.

Esse tipo de saque e leilão do patrimônio nacional espalhou-se por toda a região nestes anos. O novo governo egípcio, comandado pelo general Abdel Fattah al-Sisi, impiedoso em relação a qualquer sinal de dissidência interna, foi emblemático. Em um país que tinha sido referência para regimes nacionalistas em todo mundo, ele não hesitou, em abril deste ano, em abrir mão de duas ilhas no Mar Vermelho para Arábia Saudita, de cujo financiamento e “ajuda” seu regime é dependente. (Para a surpresa de todos, o Tribunal Superior do Egito suspendeu recentemente a decisão de Sisi).

Esse gesto, profundamente impopular entre egípcios cada vez mais pobres, foi o símbolo de uma mudança mais vasta  no equilíbrio do poder no Oriente Médio. Os estados mais poderosos da região – Egito, Síria e Iraque – eram regimes seculares nacionalistas, e foram um contrapeso genuino às monarquias da Arábia Saudita e do Golfo Pérsico. No momento em que o poder destas ditaduras seculares enfraqueceu, a influência das monarquias fundamentalistas sunitas só aumentou. Se em 2011 vimos a rebelião e revolução espalharem-se por todo Oriente Médio, com o breve florescimento da Primavera Árabe, também vimos a contrarrevolução ressurgir, financiada pelas milionárias petromonarquias do Golfo, que nunca tolerariam uma mudança para um regime democrático secular na Síria ou Líbia.

Adiciona-se a isso novos processos em curso que fragilizaram estes estados: a produção e venda de recursos naturais – petróleo, gás e minério – e a cleptomania que o acompanha. Esses países sofrem frequentemente com algo que se tornou conhecido como “a maldição dos recursos”: estados cada vez mais dependentes das receitas advindas da venda dos recursos naturais – o suficiente para fornecer para toda população, teoricamente, um patamar razoável de vida digna – tornando-se ditaduras grotescamente corruptas. Nelas, iates dos bilionários locais, com conexões cruciais para os regimes, vivem cercados por favelas com esgoto a céu aberto. Nesses países, a política tende a concentrar-se entre as elites, batalhando e manobrando para roubar as receitas do Estado e desviá-la o mais rápido possível para fora do país.

Este tem sindo o padrão da vida econômica e política em grande parte da África subsariana, de Angola à Nigéria. No Oriente Médio e África do Norte, no entanto, existe um sistema diferente, em geral mal entendido mundo afora. Há similarmente grandes desigualdades no Iraque ou na Arábia Saudita, com elites cleptocráticas semelhantes. Entretanto, eles governam seus estados com parte significativa da população, patrocinando oferta de trabalhos no setor público em troca da passividade política ou apoio a seus regimes cleptocráticos.

O Iraque tem uma população de 33 milhões de pessoas. No momento, nada menos que 7 milhões estão na folha de pagamento do governo, graças a salários e pensões que custam US$ 4 bilhões por mês. Esta forma rude de distribuir as receitas do petróleo à população sempre foi denunciada como corrupta pelos comentaristas e economistas ocidentais. Eles, por sua vez, geralmente recomendam o corte desses trabalhos, mas isso significaria que toda a receita advinda dos recursos naturais, em vez de uma parte, seria roubada pela elite. Isso, de fato, é cada vez mais o caso nessas terras, onde o preço do petróleo despenca e até mesmo a realeza saudita começa a cortar o suporte estatal para a população.

Por algum tempo, acreditou-se que o neoliberalismo seria o caminho para democracias seculares e economias de livre mercado. Na prática, tem sido tudo, menos isso. Ao contrário: junto com a maldição dos recursos naturais, e as repetidas intervenções militares de Washington e seus aliados, as economias do “livre” mercado desestabilizaram profundamente o Oriente Médio. Encorajado por Washington e Bruxelas [sede da União Europeia], o neoliberalismo do século 21 tem feito sociedade desiguais ainda mais desiguais e ajudado transformar regimes já corruptos em máquinas de saques. Esta é também, obviamente, a fórmula para o sucesso do Estado Islâmico ou qualquer alternativa radical para o status quo. Tais movimentos encontram facilmente apoio em regiões empobrecidas e negligenciadas, como o leste da Síria ou o leste da Líbia.

Note, contudo, que este processo de desestabilização não é uma peculiaridade do Oriente Médio e Norte da África. Estamos certamente na era da desestabilização, um fenômeno que está crescendo globalmente, espalhando-se para os Bálcãs e Leste Europeu (com a União Europeia cada vez menos capaz de influenciar os acontecimentos na região). Não se fala mais de integração europeia, mas de como prevenir a completa dissolução da União Europeia na esteira do supetão dado pelo Brexit na Inglaterra.

As razões pelas quais uma estreita maioria dos britânicos votou no Brexit tem paralelos com o Oriente Médio. As politicas econômicas de livre mercado perseguidas pelos governos, desde que Margaret Thatcher foi primeira-ministra, aprofundaram o fosso entre ricos e pobres e entre cidades ricas e boa parte do resto do país. A Grã-Bretanha pode estar indo bem, mas milhões de britânicos não compartilham da mesma prosperidade. O referendo sobre permanecer como membro da União Europeia, opção quase universalmente defendida pelo establishment britânico, tornou-se o catalisador para o protesto contra o status quo. A fúria dos que votaram a favor da saída tem muito em comum com a dos apoiadores do Donald Trump nos Estados Unidos.

Os EUA continuam a ser uma superpotência, mas já não são tão forte como antes. Eles, também, estão sentindo a tensão deste momento global, em que eles e seus aliados locais são suficientemente poderosos para imaginar que podem se livrar dos regimes de que não gostam — mesmo sem ter sucesso, como na Síria, ou tendo sucesso, mas sem poder substituir o que eles destruíram, como na Líbia. Um político iraquiano disse uma vez que o problema em seu país é que os partidos e movimentos eram “muito fracos para ganhar, mas muitos fortes para perder”. Este é cada vez mais o padrão de toda a região e está se espalhando para outros lugares. Isto traz consigo uma possibilidade de um ciclo interminável de guerras indecisas e uma era de instabilidade que já começou.

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/rumo-a-uma-era-da-desintegracao/)

sexta-feira, 8 de julho de 2016

“Escola sem partido”, escola silenciada


Como surgiram projetos que ameaçam professores até com prisão. Por que sua proposta, contrária a ideologias é primária, silenciadora de opiniões divergentes e, no fundo… profundamente ideológica

Por Cleo Manhas | Imagem: Adnan Yahya

O que seria a tão falada, e pouco explicada “escola sem partido”? Basicamente, trata-se de uma falsa dicotomia, pois não diz respeito à não partidarização das escolas, mas sim à retirada do pensamento crítico, da problematização e da possibilidade de se democratizar a escola, esse espaço de partilhas e aprendizados ainda tão fechado, que precisa de abertura e diálogo.

A pauta que precisamos debater é a da qualidade da educação, e não falácias ideológicas sobre a “não ideologização da escola”, algo que se vê até mesmo em alguns diálogos sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

O Plano Nacional de Educação foi aprovado há dois anos. Durante sua tramitação, uma das polêmicas suscitadas foi acerca da promoção das equidades de gênero, raça/etnia, regional, orientação sexual, que acabou excluída do texto do projeto. Por consequência, isso influenciou a tramitação dos planos estaduais e municipais, que também sucumbiram ao lobby conservador e refutaram qualquer menção a gênero, por exemplo, difundindo a falsa tese da aberração intitulada “ideologia de gênero”. Isso causou uma confusão deliberada entre uma categoria teórica e uma pretensa ideologia.

Marivete Gesser, do Laboratório de Psicologia Escolar e Educacional da Universidade Federal de Santa Catarina, explica que “gênero pode ser caracterizado como uma construção discursiva sobre nascer com um corpo com genitália masculina ou feminina” e, por meio de normas sobre masculinidade e feminilidade, vamos nos construindo como sujeitos “generificados”. O preconceito vem dos discursos que naturalizam os lugares sociais de homens e mulheres como únicas representações, e segregam qualquer outra forma de manifestação. Além disso, em pesquisa realizada por estudantes do ensino médio em Brasília, feita no âmbito do projeto Educação de Qualidade (Inesc/Unicef), constatamos que uma das razões do abandono escolar é a discriminação relativa ao público LGBTI. Razões mais do que suficientes para discutirmos gênero nas escolas.

Qual a ligação entre esses dois temas, “escola sem partido” e “ideologia de gênero”, em momentos tão distintos? O que parece ter diferentes motivações e origens resulta dos mesmos elementos: os fundamentalismos conservadores que tentam passar às pessoas suas ideologias e crenças. Afinal de contas, não são apenas os pensamentos marxistas que são ideológicos, como tentam fazer crer os defensores da “escola sem partido”. Sendo assim, o que significa ideologia então?

Um dos conceitos mais difundidos é o de Karl Marx em parceria com Friedrich Engels, na obra a Ideologia Alemã, em que afirmam ser a ideologia uma consciência falsa da realidade, importante para que determinada classe social exerça poder sobre a outra, bem como a necessidade de a classe dominante fazer com que a realidade seja vista a partir de seu enfoque.

O conceito, no entanto, sofreu inúmeras interpretações, como a de Lênin para a ideologia socialista, como forma de definir o próprio marxismo. Portanto, há ideologia nas diferentes formas de ver e conceber o mundo. Não existe neutralidade. Quando defendem a “não ideologização”, em nome dessa pretensa neutralidade, também estão impregnados de ideologia.

Os teóricos do projeto “escola sem partido” advogam a neutralidade e se dizem não partidários. No entanto, suas intenções são claras: a retroação dos avanços que tivemos nos últimos tempos, especialmente com relação aos direitos humanos. Por exemplo, quando dizem lutar contra a doutrinação, uma das situações apresentadas no site do movimento da “escola sem partido” é um seminário realizado pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados sobre direitos LGBTI e a política de educação. Eles citam esse caso como uma afronta ao artigo 12 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, afirmando que pais e seus filhos têm que ter uma educação moral de acordo com suas convicções. É uma deturpação do citado artigo, que diz respeito à liberdade religiosa que deve ser respeitada individualmente. Além disso, manipulam e fazem confusão deliberada com a discussão realizada no seminário, que reafirmou a importância de se debater questões de gênero e de sexualidade nas escolas, para que as diferenças não sejam transformadas em desigualdades.

Em outro momento, dizem que os alunos (a quem chamam de “vítimas”) acabam sofrendo de Síndrome de Estocolmo, ligando-se emocionalmente a seus algozes (“professores doutrinadores”). Nesse caso, os estudantes se recusariam a admitir que estão sendo manipulados por seus professores e sairiam furiosos em suas defesas. Para exemplificar, citam momentos identificados como “monstro totalitário arreganha os dentes” e chamam os estudantes de soldadinhos da guarda vermelha.

Em um dos livros desse movimento, é passada a noção de que o professor não é um educador, separando assim o ato de ensinar (passar conteúdos) e educar. O/A professor(a) deveria estar ali apenas para passar conteúdo sem crítica, problematização ou contextualização, em um ato mecânico. Paulo Freire é demonizado como o grande doutrinador – justo ele, que construiu uma obra toda para combater doutrinações.

Esse movimento da “escola sem partido” nasceu em 2004 e não gerou muitas preocupações, porque parecia muito absurdo e coisa pequena. No entanto, tem tomado corpo e crescido, na mesma toada de movimentos fascistas tais como ‘revoltados online’, responsável por apresentar recentemente a proposta da “escola sem partido” ao ministro da Educação do governo ilegítimo. Aliás, é bom dizer que foi a primeira audiência concedida pela pasta da Educação nesta gestão ilegítima. E em vídeo, os criadores da “escola sem partido” e do “revoltados online’ explicam que criaram tais coisas a partir de motivações pessoais. Ou seja, eles tentam impingir ao país projeto com base em impressões e vivências individuais.

A proposta foi apresentada em forma de projeto pela primeira vez no Estado do Rio de Janeiro, pelo deputado Flávio Bolsonaro. A segunda vez foi no Município do Rio de Janeiro, pelo vereador Carlos Bolsonaro – ambos filhos do deputado federal Jair Bolsonaro. E tal proposta já se espalhou por diversas câmaras municipais e assembleias legislativas. Em âmbito nacional, o deputado Izalci (PSDB/DF) apresentou o PL 867/2015 à Câmara Federal, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Dentre várias questões, o artigo 3º do referido projeto diz o seguinte: “Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes.” O que viola tais convicções provavelmente será julgado de acordo com o que e com quem quiserem criminalizar. O projeto ainda levanta uma polêmica do século XIX quando se discutia a dicotomia família e escola, o que deveria estar superado no século XXI.

Há vários projetos tramitando apensados a esse, ainda mais perversos. Um deles, do deputado Victório Galli, do PSC/MT, proíbe a distribuição de livros didáticos que falem de diversidade sexual. E há ainda o projeto de lei 1411/2015, do deputado Rogério Marinho PSDB/RN, cujo relator é o mesmo deputado Izalci. Esse projeto tipifica o crime de assédio ideológico, que, de acordo com o projeto, significa: “toda prática que condicione o aluno a adotar determinado posicionamento político, partidário, ideológico ou qualquer tipo de constrangimento causado por outrem ao aluno por adotar posicionamento diverso do seu, independente de quem seja o agente.” E diz ainda que o professor, orientador, coordenador que o praticar dentro do estabelecimento de ensino terá a pena acrescida de um terço. Ou seja, as opiniões fora da escola, tais como nas redes sociais, poderão penalizar o profissional da educação também.

O movimento criou recentemente uma “associação escola sem partido” para ter uma entidade com a qual pudesse recorrer à Justiça em casos que julgasse relevantes. E a primeira ação por eles promovida foi contra o INEP, devido ao tema da redação do Enem de 2015, que tratava de violência contra as mulheres, tema que julgaram doutrinador e partidário. A violência contra as mulheres é reconhecida como grave problema em diversos tratados internacionais de direitos humanos, como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), aprovada pela ONU em 1979, e outros que a seguiram. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher dá entrada no SUS por ter sofrido violência física, e 13 mulheres são assassinadas a cada dia – uma a cada 1 hora e 50 minutos. A violência está inclusive nas próprias escolas, como demonstrou a iniciativa “Meu professor abusador”.

Há vários ovos de serpente chocando no momento, em diversos locais, seja no âmbito dos legislativos municipais, estaduais ou nacional, e mesmo nos Executivos, e não temos garantias de que o Judiciário irá barrar tais aberrações. Portanto, nossa única arma é a manifestação, a nossa presença nas ruas e a disseminação de informações a um público maior possível, já que é na internet e em redes como whatsapp que esses grupos têm angariado seguidores, muitos deles muito jovens. É preciso promover debates que esclareçam essas situações que estão amadurecendo na surdina, com pessoas que não nos representam, mas estão em cadeiras que permitem tais movimentos.
(fonte: http://outraspalavras.net/brasil/escola-sem-partido-escola-silenciada/)

Graeber: assim multiplicam-se trabalhos estúpidos

Que dizer de uma sociedade que demanda cada vez menos músicos e poetas, enquanto multiplica legiões de advogados corporativos, contadores e operadores de telemarketing? Por que o capitalismo dominado pelas finanças produz este monstrengo?
Por David Graeber, no Vertigens | Tradução: Ivan LP 

Em 1930, John Maynard Keynes previu que até o final do século a tecnologia teria avançado o suficiente, para que países como a Grã-Bretanha ou os Estados Unidos implementassem a semana de trabalho de 15 horas. Existem muitas razões para acreditar que ele estava certo e no entanto isso não aconteceu. Ao contrário, a tecnologia foi sendo configurada de maneira a nos fazer trabalhar mais. No intuito de alcançar este objetivo, trabalhos efetivamente inúteis tiveram de ser criados. Exércitos de pessoas, na Europa e na América do Norte em particular, passaram vidas inteiras realizando tarefas que eles no fundo acreditavam serem desnecessárias. O dano moral e espiritual deste fato é profundo. É uma marca em nossa alma coletiva. No entanto, quase ninguém fala sobre isso.

Por que a utopia prometida por Keynes nunca se materializou? A resposta mais comum hoje é que ele não visualizou o aumento maciço do consumismo. Dada a escolha entre menos horas de trabalho ou mais brinquedos e prazeres, escolhemos os últimos. Isto pode parecer um bom conto moralista, mas um pouco de reflexão nos revela que não é bem assim. Sim, nós temos testemunhado a criação de uma variedade infinita de novos empregos e de novas indústrias desde os anos 1920, mas muito poucas não têm a ver com a produção e distribuição de sushi, iPhones ou tênis extravagantes.

Quais são esses novos postos de trabalho precisamente? Um relatório recente comparando o emprego nos Estados Unidos entre 1910 e 2000, nos dá uma boa ideia. No decorrer do último século, o número de “trabalhadores braçais” na indústria e no setor agrícola diminuiu drasticamente. Ao mesmo tempo, empregos como de gerentes, assistentes, vendedores e outros cresceram de um quarto para três quartos do emprego total. Em outras palavras, trabalhos produtivos foram largamente automatizados como previsto (ainda que você leve em consideração os trabalhadores da industria de maneira global, incluindo China e Índia, a porcentagem é muito menor do que costumava ser).

Mas em vez de permitir uma redução maciça da jornada de trabalho, para que a população mundial tivesse a oportunidade de correr atrás seus próprios projetos, prazeres, visões e ideias, temos visto um crescimento não só do setor de “serviços”, como do setor administrativo, incluindo a criação de novos ramos como o de serviços financeiros ou telemarketing, ou a expansão sem precedentes de setores como direito corporativo, administração da saúde e acadêmica, recursos humanos e relações públicas. Esses números ainda não são suficientes para refletir esse contingente de pessoas cujo trabalho é prover apoio administrativo, técnico ou de segurança, pois existe toda uma cadeia de ramos auxiliares (de petshops a pizzarias 24h) que só existem porque todo mundo está gastando muito tempo trabalhando nessa “nova” atividade.

Estes são os que proponho chamar de “empregos de merda.”
É como se alguém estivesse criando empregos inúteis apenas para nos manter trabalhando. Aqui precisamente reside o mistério. No capitalismo, isto é exatamente o que não deveria acontecer. Certamente foi o que aconteceu nos velhos e ineficientes estados socialistas da União Soviética – pois o emprego era considerado tanto um direito quanto um dever sagrado. O próprio sistema criou tantos empregos quanto considerava necessário (razão pela qual as lojas de departamento na União Soviética tinham até três funcionários para vender um pedaço de carne). Supostamente esse é um problema que a competição no mercado deveria corrigir. Pelo menos de acordo com a teoria econômica, a última coisa que uma empresa com fins lucrativos deveria fazer seria gastar dinheiro com trabalhadores que elas não precisam empregar. Ainda assim, de alguma forma isso acontece.

Se por um lado as corporações podem, de tempos em tempos, diminuir de tamanho drasticamente, os cortes e demissões normalmente recaem sobre aqueles que estão efetivamente se mexendo, ajustando, pensando e fazendo o negócio girar; através de uma estranha alquimia que ninguém pode explicar, o número de burocratas assalariados está se expandindo e um número cada vez maior de empregados encontra-se, não como os trabalhadores da União Soviética, é claro, trabalhando 40 ou 50 horas por semana, mas efetivamente 15 horas como Keynes havia previsto, desde que passem o resto da semana assistindo, organizando e participando de seminários motivacionais, atualizando seus perfis no Facebook, ou fazendo downloads de séries.

A resposta claramente não é econômica: é moral e política. A classe dominante descobriu que uma população feliz, produtiva e com tempo livre disponível é um perigo mortal (pense no que ocorreu quando esse sonho se tornou possível nos anos 1960). Por outro lado, o sentimento de que o trabalho é um valor moral em si, e de que qualquer um que não esteja disposto a se submeter a uma intensa disciplina de trabalho não merece nada, é extremamente conveniente.

Observando o crescimento aparentemente interminável das responsabilidades administrativas dos departamentos acadêmicos ingleses, eu tive uma possível visão do inferno. O inferno é um conjunto de indivíduos, que estão gastando a maior parte de seu tempo trabalhando em uma tarefa de que eles não gostam e em que não se dão bem. Digamos que foram contratados porque eram excelentes marceneiros, mas depois chegou-se à conclusão de que na verdade boa parte deles deveria passar a maior parte do tempo fritando peixe. Os empregados então se tornam obcecados e ressentidos ao pensar que alguns de seus colegas de trabalho possam estar gastando mais tempo fazendo armários e não compartilhando a justa responsabilidade de fritar peixes. Em pouco tempo, pilhas de peixe frito ruim se acumulam e isso é tudo o que eles realmente fazem.

Todos os argumentos que eu venha a usar vão suscitar imediatamente as seguintes objeções: “quem é você para dizer quais trabalhos são realmente ‘necessários’? O que é ‘necessário’ afinal? Você é um professor de antropologia, qual a ‘necessidade’ disso? (leitores de tabloides certamente caracterizariam o meu trabalho como a definição de desperdício de gastos sociais). Em algum nível, isso obviamente é verdade. Não deve existir nenhuma métrica objetiva de valor social.

Eu não me atreveria a convencer alguém que acredita que está fazendo uma contribuição importante para o mundo do contrário. Sobre as pessoas que estão convencidas de que seus trabalhos não fazem sentido, o que podemos dizer? Não faz muito tempo, voltei a ter contato com um amigo do colégio que não via desde os doze anos. Fiquei encantado em descobrir que nesse tempo ele se tornou um grande poeta e vocalista de uma banda de indie rock. Eu já tinha ouvido algumas de suas músicas no rádio sem saber que o conhecia. Ele era obviamente brilhante, inovador, e seu trabalho tinha sem dúvida iluminado e melhorado a vida de muitas pessoas. No entanto, depois de dois álbuns que não tiveram sucesso, ele perdeu o contrato. Atormentado com dívidas e um filho recém-nascido, acabou “escolhendo a opção de muitos que não sabem o que fazer da vida: Direito”. Agora ele é um advogado corporativo que trabalha em uma firma proeminente em Nova York. Admitiu que seu trabalho é totalmente sem sentido, que não contribui em nada para o mundo e em sua própria avaliação não deveria existir.

Este fato estimula a propor inúmeras questões. Por exemplo: o que dizer de uma sociedade que parece ter uma demanda extremamente limitada por músicos-poetas, mas aparentemente uma demanda infinita por especialistas em leis corporativas? (Resposta: se 1% da população controla a maior parte da riqueza disponível, o que nós chamamos de “mercado” reflete o que eles — não qualquer outra pessoa — acha útil). Isso mostra que a maioria das pessoas que ocupam esses cargos, estão em última análise cientes disso. De fato, eu não me lembro de ter conhecido um advogado corporativo que não considere seu trabalho um trabalho de merda. O mesmo vale para quase todas as novas atividades citadas acima. Existe toda uma classe de assalariados que você irá encontrar em festas. Diga que você faz um trabalho interessante (um antropólogo, por exemplo). Eles vão evitar falar sobre seus próprios trabalhos. Ofereça alguns drinks e em pouco tempo eles farão discursos sobre como seus trabalhos são estúpidos e inúteis.

Temos aqui uma violência psicológica profunda. Como alguém pode sequer começar a falar sobre dignidade no trabalho quando se pensa que o emprego do outro não deveria existir? Como isso pode não criar uma profunda sensação de raiva e ressentimento? No entanto, essa é a genialidade um tanto peculiar da nossa sociedade, onde os que ditam as regras descobriram uma maneira, no caso dos fritadores de peixe, de se certificarem de que essa raiva fosse direcionada diretamente para aqueles que fazem o trabalho que importa. Por exemplo: em nossa sociedade parece existir uma regra geral onde quanto mais o seu trabalho beneficia outras pessoas, menos remuneração você receberá. De novo, uma medida objetiva é difícil de encontrar, mas para entender basta perguntar: o que aconteceria se toda essa classe de pessoas simplesmente desaparecesse? Diga o que quiser sobre enfermeiras, catadores de lixo, mecânicos, mas se eles desaparecessem do nada, os resultados seriam imediatamente catastróficos. Um mundo sem professores ou estivadores estaria em apuros, e mesmo um mundo sem escritores de ficção científica ou sem músicos seria certamente um mundo pior. Não está exatamente claro que tipo de problema a sociedade teria se todos os executivos-chefes, lobistas, pesquisadores de relações públicas, contadores, operadores de telemarketing, oficiais de justiça ou consultores jurídicos desaparecessem. (Muitos suspeitam que poderia melhorar muito). Tirando alguma exceções (como por exemplo médicos), a regra parece fazer sentido.

De maneira ainda mais perversa, parece existir um consenso de que é assim que as coisas devem ser. Esse é um dos pontos fortes do populismo de direita. Perceba como os tabloides mostram os dentes quando funcionários do metrô param Londres por conta de negociações salariais: eles param Londres porque seu ofícios são necessários, mas isso parece incomodar as pessoas. Isto é ainda mais claro nos Estados Unidos, onde os republicanos tiveram sucesso notável na tarefa de mobilizar o ressentimento contra os professores, trabalhadores da indústria automobilística (mas não contra os administradores das escolas ou gerentes das indústrias automobilísticas, que de fato parecem ser a fonte dos problemas) por causa de seus salários e benefícios supostamente elevados. Como se eles estivessem dizendo “mas vocês são professores! Ou fazem carros! Precisam arrumar empregos de verdade! Vocês esperam aposentadoria e planos de saúde de classe média?”

Se alguém tivesse inventado um regime de trabalho perfeitamente adequado à manutenção do poder do capital financeiro, dificilmente conseguiria obter um maior êxito. Os trabalhadores “reais” e produtivos são implacavelmente explorados. O restante está dividido entre uma porção aterrorizada (universalmente demonizada) de desempregados e uma outra que é basicamente paga para não fazer nada, em postos de trabalho criados para a identificação com as perspectivas e sensibilidades da classe dominante (gerentes, administradores, etc) — e particularmente com seus avatares financeiros — mas, ao mesmo tempo, promovem um ressentimento feroz contra aqueles que realizam um trabalho que tem inegavelmente um valor social. Obviamente, o sistema nunca foi conscientemente construído. Ele emergiu de quase um século de tentativa e erro, mas é a única explicação que encontrei, pela qual a despeito de nossas capacidades tecnológicas, nós não estamos trabalhado 3 ou 4 horas por dia.

David Graeber é professor de antropologia da London School of Economics. Tradução livre de Ivan LP. Artigo publicado originalmente na revista Strike.

(fonte: http://outras-palavras.net/outrasmidias/?p=329867)