terça-feira, 11 de abril de 2017

Julgamento de Jesus foi político





Antônio de Paiva Moura

            A trajetória adulta de Jesus 

            O Evangelho segundo São João é uma narrativa minuciosa da vida social de Jesus: formação do elenco de discípulos; participação em festejo de núpcias; debatendo com Nicodemos; entre os discriminados samaritanos; infiltrando entre a multidão de doentes que procuravam cura na piscina de Besteda. Ai começa a tentativa de envolver Jesus em ações políticas. Não era permitida qualquer espécie de trabalho aos sábados e ele havia curado um doente antes de entrar na piscina. Em sua defesa Jesus diz que fazia o que seu Pai mandava e que como filho de Deus, ele tinha seu próprio arbítrio.
            Depois desse episódio, Jesus passou a percorrer a Galiléia, não podendo mais circular pela Judéia, porque os judeus queriam matá-lo. Aproximava-se o dia do início da tradicional festa das tendas em Jerusalém. Convidado a ir à referida festa, Jesus disse que ainda não havia chegado a hora de ir a Jerusalém. Mas depois resolveu ir de forma clandestina. Os judeus procuravam Jesus na multidão, mas ninguém informava. Assim foi até que Jesus foi ao templo e resolveu se expor ao público. Discutindo com os presentes, Jesus disse que estava sendo acusado de ter trabalhado em um sábado e que isso era um falso julgamento. Os fariseus eram uma facção de elite no interior da sociedade judaica, intransigente na defesa de seus interesses.
Ouvindo os comentários do povo sobre a sagrada missão de Jesus, os fariseus mandaram guardas prendê-lo. Mas ficaram comovidos com as suas palavras e não cumpriram a referida ordem. No dia seguinte Jesus voltou ao templo e conseguiu livrar uma mulher, acusada de adultério, de ser apedrejada. Esse ato serviu para demonstrar e ridicularizar o moralismo dos fariseus. Ainda no templo, em discussão com fariseus, estes evocavam sempre a memória de Abraão como patriarca dos judeus. Mas Jesus disse que como enviado de Deus, Ele precedia a Abraão. Antes que Abraão existisse, eu sou. Nesse momento, apanharam pedras para nele atirarem, mas Jesus escondeu-se.
            Jesus falava por metáforas ou parábolas, razão pela qual os adversários não entendiam. Não tinham capacidade de entender os atos simbólicos utilizados nas práticas catequéticas. Sujou de barro os olhos de um cego e mandou-o lavar-se na piscina e este passou a enxergar. Para São João (9.13) a cura do cego simbolizava o batismo. Em parábola Jesus diz que o verdadeiro pastor entra pela porta da frente e as ovelhas o ouvem. O ladrão salta o muro e tenta dominar as ovelhas, mas essas não obedecem. Os fariseus não compreenderam o que Ele havia dito.  Continuando a discussão, os fariseus tentaram classificar Jesus como blasfemo, por dizer que era Filho de Deus. Depois da ressurreição de Lázaro, ficou claro que os fariseus temiam que o crescimento do carisma e da popularidade de Jesus pudesse provocar uma reação de Roma e piorar a situação daquela elite. O sumo sacerdote Caifás, alegando interesse de toda a nação judaica, determinou o assassinato de Jesus.
            Embora estivesse refugiado, Jesus revolveu ir à festa de Páscoa em Jerusalém, correndo o risco de ser executado. Entrou na cidade montado em um jumentinho, acompanhado por grande quantidade de populares, empunhando ramos de palmeiras. Em termos modernos, era uma bela manifestação de pessoas humildes, em seu favor. Páscoa significa festa de passagem para os judeus, celebrando a passagem do Mar Vermelho, na qual os judeus se consideravam privilegiados por Deus. Mas Jesus celebrou sua própria passagem; preparou seus discípulos para continuarem sua missão. Lavar os pés de Pedro foi uma aula prática de amor e humildade. Ele sabia que Judas o trairia, pois este, como os fariseus, só tinha apego a bens e dinheiro. Permitiu que Pedro negasse que era seu amigo, para preservá-lo de perseguições. A última ceia é toda a simbologia da passagem de Cristo.
            Com auxílio de Judas os soldados do sumo sacerdote prenderam Jesus e o interrogaram. Como não podiam aplicar pena de morte, o sumo sacerdote o encaminhou a Pilatos. Depois de interrogar Jesus, Pilatos voltou aos judeus e disse que, de acordo com as leis de Roma, não havia encontrado nenhum motivo de condenação. Além disso, Pilatos perguntou aos sacerdotes e seus guardas se queriam que ele soltasse Jesus por ser tempo de páscoa. Estes preferiram que soltasse o bandido Barrabás e que mandasse crucificar Jesus. Os judeus tentaram persuadir Pilatos de que Jesus era um subversivo que queria tomar o lugar de César. Depois de muito relutar Pilatos entregou Jesus para que os judeus o crucificassem. 

            Pseudo julgamento

            Em 63 aC o general Pompeu conquistou a Judéia e anexou o território ao domínio romano. Quando Jesus nasceu o rei da Judéia era Herodes e Cláudio, o imperador de Roma. Herodes era muito ambíguo, pois se dizia seguidor das tradições judaicas, ao mesmo tempo em que defendia os interesses de Roma. Quando Jesus foi crucificado o governador era Pôncio Pilatos. O poder jurídico era delegado ao Governador por transmissão do Imperador. Jesus passou por dois julgamentos: um religioso, perante o Sinédrio, e outro político, frente a Pôncio Pilatos e Roma. As acusações religiosas no Direito Hebraico eram: blasfêmia, trabalhar no sábado e ser um falso profeta. Na verdade, o Sinédrio era um órgão de caráter legislativo e não tinha competência para julgar, mas via em Jesus uma ameaça política. Porém, estas de nada valiam perante Roma, visto que não violavam o direito romano. Ao levar Jesus para seu segundo julgamento, eram necessárias novas acusações. Acusações políticas: sedição, declarar-se rei e incitar o povo a não pagar impostos a César. Era necessário que algum judeu legítimo testemunhasse as falsas acusações contra Jesus. Resolveram, então, premiar o delator Judas. Os sumo sacerdotes, representantes das elites judaicas preferiam o fortalecimento do poder de Roma, a ver o crescimento do prestígio popular de Jesus. Ambos os julgamentos foram permeados de ilegalidades processuais. Na noite de seu julgamento, todo conhecimento que os juízes do direito possuíam sobre legalidades fora desprezado em favor do ódio alimentado contra Jesus. Ele foi preso sem culpa, acusado sem indícios, julgado sem testemunhas legais e condenado a uma pena errada ao crime que era acusado. A ira dos poderosos crucificou Jesus. 

            O significado

             A diferença entre o ideal de Jesus e o Judaísmo é visível na leitura do primeiro mandamento: “Amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”. Jesus observa que o amor que se devotava a Deus era interesseiro. Em troca da devoção, os conterrâneos e contemporâneos de Jesus queriam riquezas materiais e a proteção de Deus. O amor a Deus era como se fosse um investimento econômico. Não era diferente do que se constata na Teologia da Prosperidade, na atualidade. A segunda parte do mandamento era simplesmente ignorada. O que impedia e impede até hoje de “amar ao próximo como a si mesmo” era a discriminação arraigada na cultura: ódio e intolerância a outros povos; rivalidades entre ricos e pobres; preconceitos de cor e raça; subjugação humilhante das mulheres. Foi exatamente o ideal e a prática de amor ao próximo que provocou a ira dos poderosos da Judéia contra Jesus.

domingo, 9 de abril de 2017

NGA: em Washington, os olhos do Grande Irmão

Uma agência de espionagem quase desconhecida armazena bilhões de imagens e milhões de vídeos captados por drones e satélites-espiões que circulam pelo planeta
Por James Bamford, Foreign Policy | Tradução: CryptoRave 2017

Em uma base militar fortemente protegida, 25 quilômetros ao sul de Washington DC, fica a enorme sede de uma agência de espionagem cuja existência é conhecida por pouca gente. Mesmo Barack Obama, então há cinco meses em seu cargo de presidente, não parecia saber dela. Enquanto ele comia um hamburguer no restaurante Five Guys, em Washington, em maio de 2009, perguntou a um cliente sentado em outra mesa sobre seu trabalho. “O que você faz?”. “Eu trabalho na NGA, Agência Nacional de Inteligência Geoespacial [National Geospatial-Intelligence Agency]”, o homem respondeu. Obama pareceu estupefado. “Então me explique o que exatamente essa Nacional Geoespacial…”, ele disse, incapaz de concluir o nome. Oito anos depois desse vídeo ser exibido, a NGA continua de longe a integrante mais obscura do conjunto de agências de espionagem americana, as “Big Five”, que inclui a CIA e a NSA.

Apesar da falta de reconhecimento do seu nome, a sede da NGA é o terceiro maior prédio na região metropolitana de Washington, maior que a sede da CIA e a sede do congresso dos Estados Unidos, o Capitólio.

Concluído em 2011, com o custo de US$ 1,4 bilhão, o principal prédio tem a dimensão de 4 campos de futebol americano e ocupa o espaço físico de dois porta-aviões. Em 2016, a agência comprou 396 mil metros quadrados em St. Louis para construir mais prédios, ao custo de US$ 1,75 bilhão, a fim de acomodar sua crescente força de trabalho, dos quais 3 mil empregados já eram moradores da cidade.

A NGA está para imagens como a NSA está para as vozes. Sua principal função é analisar bilhões de imagens e milhões de vídeos capturados por drones no Oriente Médio e por satélites espiões que circulam o planeta. Mas porque ela manteve suas câmeras de ultra alta definição apontadas para longe dos Estados Unidos, segundo uma série de estudos, nunca esteve envolvida nos escândalos de espionagem doméstica como suas duas irmãs mais famosas, a CIA e a NSA. No entanto, há razões para acreditar que isso poderá mudar sob o Presidente Donald Trump.

No decorrer da longa campanha eleitoral e em seus primeiros meses como presidente, Trump tem pressionado para reduzir as restrições às atividades das agências de inteligência, gastando mais dinheiro na defesa e dando mais força à lei e à ordem. Dado o foco superdimensionado do novo presidente na segurança doméstica, é razoável prever que Trump usará todas as ferramentas disponíveis para mantê-la, inclusive a vigilância aérea.

Em março de 2016, o Pentágono publicou os resultados de uma investigação iniciada pelo Escritório do Inspetor Geral do Departamento de Defesa sobre os drones espiões militares nos Estados Unidos. O relatório, assinalado como “Somente para Uso Oficial” e parcialmente editado, revela que o Pentágono usou drones não armados de vigilância sob solo americano em menos de 20 ocasiões entre 2006 e 2015. (Embora o relatório não identifique a natureza dessas missões, outro documento do Pentágono lista as 11 operações doméstica de drones que envolveram principalmente operações de desastres naturais, busca e resgate e treinamento da Guarda Nacional).

A investigação também cita um artigo crítico da Força Área sobre a legislação, apontando uma crescente preocupação de que a tecnologia desenvolvida para espionar inimigos além das fronteiras talvez seja utilizada para espionar os cidadãos em seu país. “Á medida que a nação diminui a presença nessas… ativos ficam disponíveis para apoiar outro comando de combate (COCOM) ou as agências dos Estados Unidos, e o desejo de usá-los no ambiente doméstico para coletar imagens aéreas continua a crescer”.

Embora o relatório afirme que todas as missões foram conduzidas com total cumprimento da lei, é observado que ainda em 2015 não havia nenhuma legislação federal padronizada que “tratasse especificamente do emprego da capacidade provida por um DoD UAS (sistema aéreo não tripulado) se requisitado pelas autoridades civis domésticas”. Em vez disso, há uma política do Pentágono que rege os drones de reconhecimento e requer que o secretário de defesa aprove tais operações domésticas. Sob essas regulações, os drones “não podem realizar vigilância em indivíduos americanos” ao menos se permitido por lei e aprovado pelo secretário. A diretiva também bane o voo de drones armados nos Estados a não ser para treinamento militar e teste de armas.

Em 2016, sem o conhecimento de muitos oficiais da cidade, a polícia de Baltimore começou a realizar uma vigilância aérea persistente usando um sistema desenvolvido para uso militar no Iraque. Poucos civis tem alguma ideia de como esses drones militares olhos-no-céu se tornaram avançados. Entre eles está o ARGUS-IS, a câmera com a maior resolução do mundo, com 1,8 bilhão de pixels. Invisível do chão até aproximadamente 6 quilômetros no céu, usa uma tecnologia chamada de “olhar fixo persistente” – o equivalente a 100 drones predadores olhando para baixo de uma vez só numa cidade de médio porte – para monitorar tudo que se movimenta.

Com a capacidade de observar uma área de 16 ou mesmo até 25 quilômetros quadrados de uma vez, seria necessário apenas dois drones sobrevoando Manhattan para observar sem interrupções e acompanhar todas as atividades humanas na rua, dia e noite. É capaz de dar zoom num objeto pequeno como um pão num prato e armazenar até 1 milhão de terabytes de dados por dia. Essa capacidade permitiria que os analistas olhassem para trás no tempo em dias, semanas ou meses. A tecnologia está sendo desenvolvida para permitir que os drones permaneçam no ar durante anos.

O Departamento de Segurança Nacional (Departament of Homeland Security) já esteve nesta encruzilhada antes. Em 2007, durante a presidência de Georg W. Bush, o departamento estabeleceu uma agência para dirigir as operações domésticas com satélite espião e lhe deu um nome genérico: o Escritório Nacional de Aplicações. Mas o Congresso, preocupado com o “Grande Irmão no Céu”, cortou o financiamento. Em 2009, a agência foi fechada pela administração Obama.

Ainda assim, diferente da vigilância eletrônica domêstica feita pela NSA, a qual tem sido escrutinizada e sujeita a uma legislação criada para proteger as liberdades civis, a espionagem doméstica tem escapado da atenção tanto do Congresso quanto do público. A administração Trump pode se beneficiar deste vazio.
Iniciando uma nova era da “vigilância persistente”, Trump poderia usar a capacidade de espionagem hoje disponível para outros lugres do mundo para vigiar muçulmanos ou membros do movimento Black Lives Matter. O presidente já falou em favor de aumentar o escrutínio de mesquitas; poderia monitorá-los com uma vigilância. Os drones poderiam auxiliar na identificação de agrupamentos de imigrantes ilegais com o objetivo de deportação e Trump já afirmou que ele pode enviar forças do governo federal para Chicago a fim de acabar com a violência. Os drones podem oferecer à cidade a vigilância 24/7 de um olho que não pisca.

É claro que tudo isso precisaria uma significativa expansão da Agência Nacional de Inteligência Geoespacial, a fim de analisar imagens domésticas. Antes que isso aconteça, Trump, assim como Obama, precisa descobrir que tal agência existe.

(fonte: http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/em-washington-os-olhos-do-grande-irmao/)

Ataque de um império em decadência

Bombardeio da Síria nada tem a ver com justiça e não será capaz de restaurar poder dos EUA no Oriente Médio. Mas pode incendiar de novo um dos barris de pólvora do planeta
Por John Wight | Tradução: Maurício Ayer e Inês Castilho

Descrever o ataque dos Estados Unidos à Síria como uma medida séria é ser incapaz de avaliação.
Sem nenhum respaldo do direito internacional ou na ONU, o governo Trump cometeu um ato de agressão contra mais um Estado soberano do Oriente Médio, o que confirma que os neoconservadores retomaram seu domínio sobre a política externa de Washington. Este ato de agressão acaba com qualquer perspectiva de desanuviamento entre EUA e Rússia no futuro próximo. Ao contrário: aumenta consideravelmente as tensões entre os dois países, não apenas no Oriente Médio como também no Leste Europeu, onde há algum tempo tropas da OTAN vem realizando exercícios militares a uma distância de ataque do território russo.

Na esteira da divulgação das terríveis imagens de Idlib, após o suposto ataque de gás sarin, observou-se no mundo ocidental um crescente clamor por mudança de regime em Damasco, com declarações de políticos e da mídia que apressam o julgamento e responsabilizam o governo sírio pelos ataques. Ninguém sabe com certeza o que aconteceu em Idlib, razão pela qual o que se deveria buscar é um acordo para realizar uma investigação independente em busca da verdade e, com ela, da justiça.

Em todo caso, apenas os mais ingênuos acreditariam que esse ataque dos Estados Unidos contra a Síria tenha sido cometido visando à justiça. Por que seria assim, quando sabemos que recentemente bombas estadunidenses mataram civis, inclusive crianças, em Mosul? E por que seria assim, se considerarmos o indizível sofrimento das crianças do Iêmen em consequência da brutal campanha militar da Arábia Saudita?

Não, este ataque dos Estados Unidos – que segundo relatos oficiais envolveu 59 mísseis Tomahawk, lançados de navios posicionados no leste do Mediterrâneo – foi perpetrado com vistas a uma mudança de regime, e estabelece um precedente que pode ter graves desdobramentos para toda a região.
Sobre o ataque em Idlib, o que pode ser dito com certeza é que, num momento em que as forças pró-governo na Síria estavam em ascensão e em que o governo obtinha progressos significativos na frente diplomática, seria um ato de sabotagem brutal  realizar qualquer tipo ataque de armas químicas, ainda mais dessa magnitude.

Isso correponderia a um governo empenhado em provocar seu próprio desmantelo. Deve-se levar em consideração o fato de que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), uma organização apoiada pelos Estados Unidos, confirmou em junho de 2014 que o processo de destruição completa do arsenal de armas químicas da Síria tinha sido concluído. Além disso, as terríveis imagens e testemunhos oculares de Idlib que apareceram logo após o ataque são todos provenientes de fontes oposicionistas. Nenhum jornalista ou equipe de reportagem ocidental ousaria pôr os pés em Idlib, ou mesmo em qualquer outra parte do território sírio tomado pelas forças de oposição, pois sabem que, se assim procedessem, poderiam ser capturados e trucidados.

Com esta intervenção militar unilateral, Trump provou que pode facilmente ser tragado para dentro do conflito. Poucos dias após seu governo confirmar que uma mudança de regime na Síria estava fora de questão e que o seu foco era derrotar o terrorismo, Trump deflagra um ataque aéreo que apenas incitará as mesmas forças terroristas cuja derrota ele havia enfatizado ser o centro de sua política externa.

E agora? Claramente, essa ação militar coloca a Rússia em posição muito difícil. Desde que se envolveu no conflito na Síria, no final de setembro de 2015, por determinação de seu governo, Moscou trabalhou incansavelmente para construir uma saída negociada, uma saída que envolvesse as forças de oposição e as partes consideradas moderadas se comparadas aos fanáticos jihadistas salafistas do ISIS e Al Nusra, entre outros. Trata-se de um processo diplomático que acaba de sofrer um golpe devastador, pois a oposição agora está indubitavelmente convencida de que a mudança de regime virá via Washington e, portanto, se vê estimulada a trabalhar por este fim.

Enquanto isso, os aliados regionais de Washington – Israel, Arábia Saudita, Catar e Turquia (com Erdogan garantindo que se ligará a quem for mais forte…) – provavelmente agora começarão a pedir mais ações militares contra Damasco, vendo o ataque dos EUA como o catalisador de uma temporada de vale-tudo em relação à soberania do país.

Para Trump — que está sob intensa pressão do establishment mediático, político e das agências de espionagem de Washington desde que assumiu o governo –, esta ação garantirá um pouco da tão necessária aprovação e, com isso, uma trégua. Seu governo emitiu sinais ameaçadores durante algum tempo, a começar pela renúncia forçada de Mike Flynn como Conselheiro de Segurança Nacional em fevereiro, seguida pela recente saída de Steve Bannon do Conselho de Segurança Nacional da Presidência. Foi mais uma evidência de que os neoconservadores haviam reassegurado sua dominação sobre a Casa Branca, depois de um curto período de intensa luta pelo poder.

Numa visão mais ampla, a falta de memória de curto prazo em Washington é impressionante. Quatorze anos depois da desastrosa invasão do Iraque, que abriu os portões do inferno para deixar emergir o ISIS e outros grupos jihadistas, e seis anos depois de fazer da Líbia um Estado falido, disparando no processo uma crise de refugiados de proporções bíblicas, temos aqui novamente um ato de agressão contra um Estado soberano no Oriente Médio pelos EUA.

Destruir países para “salvá-los” é, desde sempre, a história de todos os impérios. Mas, como a história revela, todo império carrega dentro de si as sementes de sua própria destruição. Donald Trump caminha agora para ficar na história como um governante que, ao invés de salvar os EUA de si mesmos, pode ter ajudado apenas a acelerar sua queda até a morte final.

Tito Lívio, o grande historiador romano, escreveu certa vez: “Roma cresceu tanto desde seu humilde início que agora está devastada por sua própria grandeza.”

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/ataque-de-um-imperio-em-decadencia/)

sábado, 8 de abril de 2017

Da Petrobras para a francesa Total: Cade aprova negócio ‘de pai pra filho’

Texto escrito por José de Souza Castro:

Caiu, ao que parece, a última barreira para a entrega de uma parcela do pré-sal à francesa Total a preço de banana. No dia primeiro de abril, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), um órgão regulador, aprovou sem restrições a venda de 22,5% da área de Iara, na Bacia de Santos.
“Mais um crime de lesa-patria”, afirma a Federação Única dos Petroleiros (FUP), em nota intitulada “O Parente é da Total”.
Esse Parente é o presidente da Petrobras nomeado no atual governo, sobre o qual já escrevi aqui, aqui e aqui. E a Total S.A. é o quarto maior grupo privado explorador de petróleo e de gás natural mundial.
A entrega do pré-sal à Total se deu mediante um acordo de colaboração chamado de Aliança Estratégica e assinado no dia 28 de fevereiro deste ano.
Segundo a FUP, “a gestão Pedro Parente deu de mão beijada à petrolífera francesa um tesouro de 675 milhões de barris de petróleo (o bloco todo tem reservas provadas de três bilhões de barris)”, equivalente a 33,7 bilhões de dólares a preços de hoje.
A Total se comprometeu a pagar 2,2 bilhões de dólares à vista e o restante “em suaves prestações”. Por esse valor, “muito abaixo dos preços de mercado”, a petrolífera francesa levará também 35% do campo de Lapa, cujo ativo já havia sido depreciado em R$1,238 bilhão, “para facilitar a sua venda”, e metade da Termobahia, “incluindo duas termoelétricas e o acesso ao terminal de regaseificação”.
Não para aí essa venda “de pai para filho”, segundo a FUP: “Além disso, a multinacional se beneficiará de toda infraestrutura e logística já desenvolvidas pela Petrobrás, o que reduzirá significativamente os seus custos”.
Não se diga que não há motivos para comemorar. Não pelos brasileiros, sim pelos investidores franceses. “Analistas de mercado”, conforme a FUP, “chegaram a calcular que a Total aumentará em 1 bilhão de barris de petróleo as suas reservas ao se apropriar destas duas áreas do Pré-Sal brasileiro. Tudo isso a um custo estimado entre US$ 1,75 e US$ 2,4 o barril, segundo divulgou a imprensa francesa na época do fechamento do acordo”.
A FUP informou, erroneamente, que a aprovação pelo CADE se deu no dia 3 de abril. Na verdade, essa foi a data da publicação no “Diário Oficial da União”. À maior agência de notícias do mundo, com sede em Londres, a Reuters, não passou em branco que a aprovação ocorreu antes, no dia primeiro de abril.
Sim, no Dia da Mentira. Faz sentido, pois o que se mente sobre o pré-sal não está no gibi.
Conforme a Reuters, a “concessão, no pré-sal da Bacia de Santos, inclui os campos de Berbigão, Sururu e Atapu Oeste, segundo documentos enviados pelas empresas ao Cade” e, na defesa do negócio envolvendo Iara junto ao Cade, “as empresas disseram que os campos envolvidos nesta operação estão em fase de desenvolvimento e não apresentam produção”. Acrescenta: “Quando a produção for iniciada, e considerando o pico de produção dos campos, estima-se que esse valor representará menos de 7 por cento da produção nacional de petróleo”, disseram elas em documento.
Ah, bom…
No mesmo dia, a Reuters informou que a produção de petróleo no Brasil em fevereiro somou 2,676 milhões de barris por dia, sem contar o gás natural. Somando este, foram aproximadamente 3,346 milhões de barris de óleo equivalente por dia em fevereiro.
Sete por cento desse total significa 234.220 barris por dia. O petróleo do tipo extraído do pré-sal estava cotado nesta terça-feira, às 16h30, a US$51,04 o barril. E subindo 1,55%…
Pobres investidores franceses!

(fonte: https://kikacastro.com.br/2017/04/05/petrobras-total/#more-13792)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Boletim do Café História

Congresso Internacional sobre África e Brasil
Acesse o novo site do Café História para ler estas matérias
http://www.cafehistoria.com.br/newsletter/boletim-cafe-historia-no-7-marco-2017/ 
 
Evento divide-se em dez grupos de trabalhos que abordam diferentes temáticas relacionadas ao universo africano e afrodescendente. As inscrições para comunicações orais devem ser feitas até o dia 21 de maio. Saiba mais

 


 

Emancipação feminina em uma escola de enfermeiras

No final dos anos 1930, a Escola de Enfermeiras Luiza de Marillac se destacou por abrir suas portas às mulheres leigas. A medida contribuiu para a emancipação de mulheres de diversas regiões do país.

História Ambiental: historiografia comprometida com a vida

Nas últimas décadas, o campo da História Ambiental vem mudando nossa forma de perceber a interação entre os seres humanos e o ambiente natural. Confira o artigo do historiador Gil Karlos Ferri.


Não existe controle do Estado sobre a venda de agrotóxicos no Brasil


Não existe controle do Estado sobre a venda de agrotóxicos no Brasil. Caso houvesse, teríamos dados confiáveis sobre a comercialização destes produtos em nosso país. Hoje, a única fonte de informação são as próprias empresas, que divulgam apenas parte delas, e ultimamente somente para um público bem selecionado, escreve Alan Tygel, mestre em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Informática da UFRJ, em artigo publicado por Brasil de Fato, 05-04-2017.


Eis o artigo.
Nesta segunda-feira (3), o jornal Valor Econômico noticiou nova queda no faturamento das empresas de agrotóxicos no Brasil. Fontes do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) afirmam que, em 2016, a venda de agrotóxicos rendeu US$ 9,56 bilhões, levemente abaixo dos US$ 9,6 bilhões recebidos em 2015.
Mas o que será que este dado tem a nos revelar? Que uma avassaladora onda de consciência vem assaltando as mentes do agronegócio brasileiro e levando os fazendeiros a desistirem dos agrotóxicos e apostarem numa produção limpa? Difícil de acreditar…

Quem manda nos dados?

Em primeiro lugar, é fundamental entender como ocorre a dinâmica de produção e divulgação dos dados sobre a comercialização de agrotóxicos no Brasil. Ministérios da Agricultura, Saúde e Meio Ambiente, que tinham por dever legal fiscalizar a venda cobrar os dados das empresas, não o fazem. O Ibama, que até pouco tempo divulgava (com anos de atraso) as informações sobre vendas de ingredientes ativos, depois do golpe mudou seu portal e não disponibiliza mais estes dados [1].
O CREA, que poderia disponibilizar um sistema de informações com dados sobre o receituário agronômico, nunca demonstrou o menor interesse em fazê-lo a nível nacional. Seria o melhor dos mundos, já que a receita contém informações sobre a substância utilizada, a forma de aplicação, o alvo, a área de aplicação, entre outros.
Assim, nossa única fonte de informação sobre a dinâmica do mercado de agrotóxicos são os próprios donos deste mercado, representados pelo Sindiveg. Pelos idos de 2009, este mesma entidade então com outro nome (Sindag) alardeou aos quatro cantos a informação de que o Brasil seria o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com 1 bilhão de litros de veneno por ano. A expectativa de exaltar o mercado nacional acabou saindo pela culatra, e o mantra “O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo” segue sendo repetido por todos e todas que se identificam com a luta contra os agrotóxicos, como sinônimo de absurdo e sinal de uma situação que chegou ao seu limite.
Até o ano de 2011, o Sindiveg divulgava em seu site e enviava por e-mail uma planilha contendo dados detalhados sobre venda de agrotóxicos por cultura, estado e classe, em relação ao ingrediente ativo, produto formulado e valor. De 2012 até 2014, as planilhas murcharam, mas ainda exibiram o faturamento e a quantidade comercializada para cada cultura. Em 2015, tivemos acesso apenas ao faturamento, o que parece estar se repetindo para o ano de 2016.

Mais veneno ou menos veneno?

Retornando ao resultado de 2016, é importante analisar a série histórica do faturamento da indústria de agrotóxicos em nosso país. Os dados a que temos acesso começam em 2000, com míseras 313.824 toneladas vendidas, e um faturamento de US$ 2,5 bilhões. Até 2014, o crescimento foi praticamente ininterrupto, alcançando 914.220 toneladas vendidas, e um faturamento de US$ 12,2 bilhões nesse ano. Ou seja, em 15 anos o volume comercializado aumentou 191% (quase 3 vezes) e o faturamento em dólares aumentou 388% (multiplicado por quase cinco). São números estarrecedores, que não encontram paralelo em nenhuma outra atividade comercial.
Em 2015, uma conjunção da fatores fez com o faturamento (em dólares) levasse um grande tombo de 21,6%. Um dos fatores mais relevantes foi justamente a alta do dólar, que encareceu o preço de importação. Não custa lembrar que cerca de metade do agrotóxicos consumido aqui é importado, e mesmo aquele produzido aqui é dominado pela multinacionais. Há dois elementos curiosos nesta “queda” observada entre 2014 e 2015:
1) O Sindiveg não divulgou amplamente, mas apesar do faturamento em dólares ter caído 21,6%, a quantidade de produtos formulados vendidos caiu apenas 3% [2]. E, pasmem os senhores e as senhoras, a quantidade de ingredientes ativos vendidos aumentou 12,3%! Ou seja: o peso do produto formulado (aquele que chega ao consumidor final) vendido foi menor, mas a quantidade de ingrediente ativo, que é a substância que faz o efeito tóxico, foi maior.
2) Quando convertemos os faturamentos de 2014 e 2015 para reais, ao preço médio do câmbio (R$ 2,35 e R$ 3,33, respectivamente), encontramos uma surpresa: o “tombo” de 20% em dólares se transforma em um crescimento de 14%.

Mercado poderoso demais

A partir do que vimos acima, podemos buscar compreender melhor as implicações do recente anúncio do Sindiveg.
A média de cotação do dólar em 2016 foi R$ 3,48, ou seja, ainda mais alta do que em 2015. Assim, fazendo uma aproximação em reais, temos que o faturamento de 2014 foi de R$ 28 bilhões, que sobe em 2015 para R$ 32 bilhões e, finalmente, alcança 2016 com R$ 33,2 bilhões.
Este não é um valor com o qual lidamos todos os dias. Para entender sua magnitude, talvez seja útil fazer algumas comparações:
Com R$ 33,2 bilhões, poderíamos, por exemplo, multiplicar o Programa Nacional de Alimentação Escolar por quatro, melhorando a qualidade do alimento fornecido às crianças. Fosse esse valor aplicado no Ministério da Saúde, este teria seu orçamento de R$ 42 bi quase dobrado. O valor faturado pelas empresas de agrotóxicos em 2016 equivale a 85 vezes o orçamento do Instituto Nacional do Câncer..
Como conclusão desta rápida análise, temos que:
1) Não existe controle do Estado sobre a venda de agrotóxicos no Brasil. Caso houvesse, teríamos dados confiáveis sobre a comercialização destes produtos em nosso país. Hoje, a única fonte de informação são as próprias empresas, que divulgam apenas parte delas, e ultimamente somente para um público bem selecionado.
2) A suposta queda no faturamento calculado em dólar não significa que houve queda do faturamento em reais, e muito menos que houve queda no uso de agrotóxico. Pelo contrário, houve um aumento da concentração de ingredientes ativos, deixando os venenos ainda mais perigosos para quem lida com eles no campo e quem come os alimentos que chegam à mesa.
3) O faturamento da indústria de agrotóxicos é exorbitante. Enquanto os vendedores de venenos faturaram R$ 33 bi em 2016, o total de gastos diretos do governo federal com o Ministério da Agricultura foi de apenas R$ 13,5 bi, e na Anvisa foram investidos apenas R$ 682 milhões. Ambos deveriam fiscalizar os agrotóxicos, mas obviamente não tem verba nem força política para isso.
4) A recente introdução no Brasil de sementes transgênicas resistentes a mais de um tipo de agrotóxico mostra como funciona a “espiral química”: mais agrotóxicos geram mais plantas resistentes, que necessitam de mais agrotóxicos e novas sementes transgênicas resistentes a mais agrotóxicos. Isso explica também a maior concentração dos agrotóxicos notada acima.
5) Finalmente, não custa lembrar que o mercado de agrotóxicos também é concentrado. Estão em curso três grandes fusões, que devem fazer as antigas seis grandes virarem apenas três gigantes – Bayer-Monsanto, Dow-Dupont e Sygenta-ChemChina.
Diante deste cenário, não nos resta outra alternativa senão resistir. Conheça a plataforma chegadeagrotoxicos.org.br e se some a nós nesta luta!
Notas:
[1] Graças a um esforço de sistematização da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, estes dados ainda podem ser acessados aqui.
[2] O dado consta em um relatório do Instituto de Economia Agrícola de SP. Curioso é que a Figura 2, que traz os dados completos de 2015, aponta como fonte uma página que não mostra os dados indicados.

Bill Gates se une ao cerco contra o capitalismo dos robôs

Benoît Hamon não está sozinho. A proposta do socialista francês de tributar robôs com um imposto para compensar os empregos destruídos pelas máquinas inteligentes está sendo debatido nas últimas semanas com intensidade. E a culpa pelo alvoroço é em parte de Bill Gates. O fundador da Microsoft juntou-se ao movimento do imposto sobre robôs, que até agora parecia território exclusivo de socialistas e sindicalistas. Gates diz que está preocupado com a acumulação de riqueza que a revolução robótica trará. Sua intervenção pode ter sido mais ou menos acertada, mas o interessante é que abriu a porta para explorar o universo fiscal que se aproxima.

A reportagem é de Ana Carbajosa, publicada por El País, 05-04-2017.

É verdade que já faz algum tempo que as previsões falam de um avanço mais ou menos irrefreável dos robôs. Que conquistarão fábricas e escritórios deslocando com sua passagem os humanos com direito a férias, licença médica e greves. O World Economic Forum, por exemplo, estima a perda de cinco milhões de postos de trabalho em 15 países em 2020. Também é verdade que, por sua vez, centenas de milhares de postos de trabalho deverão ser criados (850.000 na UE, de acordo com o Parlamento Europeu) para acompanhar a revolução digital. Mesmo assim, não há dúvida de que o impacto será enorme.

As terríveis previsões não são novas. A novidade reside no papel econômico que terão esses trabalhadores mecanizados num ecossistema de trabalho antropocêntrico. E, especialmente, que efeito isso terá sobre a distribuição da riqueza. E, especificamente, se, como defendem alguns, os proprietários dos robôs devem pagar uma taxa que sirva para colocar de pé um sistema de renda básica à finlandesa.

Gates o defendeu assim: “Agora, o trabalhador humano que recebe 50.000 dólares em uma fábrica paga um imposto pelo rendimento do seu trabalho, paga à Seguridade Social e todas essas coisas. Se um robô vem e faz o mesmo, caberia pensar que taxaríamos da mesma forma o robô”. O bilionário da informática parte da premissa de que a robotização nos tornará mais ricos porque permitirá multiplicar a produtividade. Assume, além disso, que a renda excessiva não será distribuída de maneira equitativa e, portanto, os governos serão obrigados a recorrer à tributação para redistribuir, mesmo que seja apenas em parte, os frutos do progresso tecnológico. Os proprietários das máquinas, pensa, serão cada vez mais ricos e os trabalhadores mais pobres, explicou ao portal Quartz.

A tese de Gates tem alguns seguidores e uma legião de detratores. Surpreendentemente, o diário britânico Financial Times é um dos que lhe deram parcialmente razão em um editorial. Por um lado, o jornal argumenta que não há mais fundamento para taxar um robô do que uma planilha do Excel, uma torradeira ou qualquer outro dispositivo que facilite a vida dos seres humanos. Mas, por outro, considera fundamentada a preocupação de Gates em relação à velocidade com que a automação pode destruir empregos e como será distribuído o maná de uma produtividade alimentada por robôs incansáveis.

Os detratores da taxa argumentam que penalizar fiscalmente a robotização equivaleria a desencorajar a inovação e, portanto, o progresso. Gates considera que uma taxa poderia retardar o salto tecnológico, mas pensa que poderia ser positivo mesmo que isso permita que os mercados de trabalho ganhem tempo para se adaptar à nova realidade.

Yanis Varoufakis, o heterodoxo ex-ministro de Finanças grego, acredita que o magnata e filantropo está equivocado porque, entre outras questões, pensa que seria muito difícil calcular a taxa sobre robôs e pergunta se ela deveria estar sujeita, por exemplo, às flutuações salariais. “Por que tornar a vida no capitalismo mais complicada do que já é? Existe uma alternativa à taxa sobre robôs fácil de implementar e de justificar: a renda básica financiada com os dividendos do capital”, conclui Varoufakis em um artigo publicado recentemente em vários veículos de comunicação internacionais.

A renda básica é precisamente uma das questões que convidava a explorar o relatório do Parlamento Europeu redigido pela luxemburguesa Mady Delvaux e que foi submetido à votação em Estrasburgo no mês passado. O relatório é muito interessante e levanta dilemas jurídicos prementes como quem tem a responsabilidade final pelos danos causados por um robô em caso de acidente ou sobre a proteção dos dados que as máquinas armazenam.

Dois parágrafos foram suprimidos no texto final: um no qual se recomendava “estudar a possibilidade de submeter ao pagamento de impostos o trabalho executado por robôs ou exigir uma taxa pelo uso e a manutenção de cada robô a fim de manter a coesão social e a prosperidade”; o segundo parágrafo retirado encorajava a analisar “uma possível introdução de uma renda básica mínima”.

O eurodeputado socialista Sergio Gutiérrez Prieto explicou nos corredores de Estrasburgo por que o Parlamento entrou no debate da taxa sobre os robôs: “Precisamos de regras claras para estabelecer relações trabalhistas e modelos de transição para compensar os trabalhadores que perdem seus empregos com a reconversão digital, especialmente os menos qualificados”. “O novo imposto tem de olhar para o mundo digital e se adaptar à nova realidade socioeconômica”, afirmou.

Lawrence Summers, secretário do Tesouro de Bill Clinton, ex-assessor de Barack Obama, catedrático e presidente emérito de Harvard, juntou-se ao coro dos céticos. “Por que criar um imposto que reduz o tamanho do bolo, em vez de garantir que o grande bolo seja distribuído de forma equitativa?”, pergunta. Summers defendeu recentemente receitas alternativas no The Washington Post, como reformas na educação e na formação profissional, subsídios a grupos com problemas específicos de desemprego ou investimentos em infraestruturas.

Nas últimas semanas, a revista The Economist também examinou fórmulas alternativas à tributação robótica, entre elas a luta contra os paraísos fiscais, um imposto sobre a terra e um progressivo sobre a riqueza. A regulação e até mesmo a partição dos monopólios digitais é outra das medidas que a revista considera desejável para evitar o aumento da desigualdade no princípio.

Mas se em algo concordam detratores e defensores da taxa sobre robôs é que os governos devem agir, que o laissez faire já não parece ser uma opção diante do boom de produtividade e rentabilidade que a robotização prenuncia. O debate tornou-se particularmente relevante num momento em que a classe política se deu conta de que os danos colaterais e sociais das mudanças tecnológicas e industriais acabam cobrando seu preço à política e engordando as urnas populistas.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/566550-bill-gates-se-une-ao-cerco-contra-o-capitalismo-dos-robos)