"A
Terra pode ficar inabitável, pois são muitos os
processos que estão afetando a capacidade de sobrevivência da
humanidade. Provavelmente, a
Terra não ficará desabitada, mas a qualidade de vida da população mundial poderá reduzir bastante em um Planeta degradado. O
Holoceno garantiu
10 mil anos de estabilidade climática. O Antropoceno e a grande
aceleração das atividades antrópicas estão desequilibrando o clima e
transformando a biosfera em um habitat inóspito e inabitável", escreve
José Eustáquio Diniz Alves,
doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em
População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de
Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por
EcoDebate, 19-07-2017.
Eis o artigo.
“Para cada mil pessoas dedicadas a cortar as folhas do mal,
há apenas uma atacando as raízes.” Henry Thoreau
A revista
New York Magazine (
NYMag) publicou, no dia 09-07-2017, uma matéria denominada “
The Uninhabitable Earth”
– pintando no pior cenário, um Armagedon climático – que se tornou
viral e foi comentada amplamente em diversos países e passou a ser o
artigo mais lido da revista. Infelizmente, pouco se falou sobre o
assunto no
Brasil. A matéria, com chamada de capa,
feita a partir de entrevistas com cientistas renomados, traz uma visão
catastrófica do efeito do crescimento das atividades antrópicas sobre os
ecossistemas e as mudanças climáticas. A repercussão foi enorme. Houve
muita comoção pelo tom apocalíptico, reproduzido por uma grande revista
que tem respeitabilidade e repercussão imediata.
O texto começa assim: “
It is, I promise, worse than you think”
(Prometo, é pior do que você pensa). O subtítulo diz do que se trata:
“Fome, colapso econômico e um sol que nos cozinha: o que as
mudanças climáticas podem
causar – mais cedo do que você pensa”. Evidentemente, o autor está
tratando de um cenário extremo e de baixa probabilidade, mas que pode
ocorrer se nada for feito para mudar os rumos da insustentabilidade do
crescimento econômico e suas externalidades ambientais.
Desta forma, o jornalista
David Wallace-Wells realmente conseguiu assustar. A seguir segue uma tentativa de resumir alguns dos principais pontos da matéria.
Primeira parte
Na primeira parte, denominada “
Apocalipse, espiando além da reticência científica” o autor explica que a ansiedade sobre os
efeitos do aquecimento global em relação à
elevação do nível do mar,
é justificável, mas apenas arranha a superfície dos horrores que podem
acontecer no espaço de tempo da vida de um adolescente de hoje. A
elevação do nível dos oceanos
é ruim, muito ruim, mas fugir do litoral é um problema menor. Na
ausência de um ajuste significativo de como bilhões de seres humanos
produzem e consomem, partes da
Terra provavelmente se tornarão inabitáveis e outras partes ficarão terrivelmente inóspitas, antes do final deste século.
David Wallace-Wells diz que até mesmo pessoas que
reconhecem as mudanças climáticas são incapazes de compreender seu
alcance. No inverno passado, em diversos dias, a temperatura do
Polo Norte ficou 60 a 70 graus mais quentes do que o normal, derretendo o
PERMAFROST.
Até recentemente, o permafrost não era uma grande preocupação dos
cientistas, porque, como o nome sugere, era um solo permanentemente
congelado. Mas o permafrost do
Ártico contém 1,8 trilhão de toneladas de
carbono, mais do dobro do que atualmente está suspenso na atmosfera terrestre. Quando se descongela e é liberado, esse
carbono pode evaporar-se como o
metano, que é 34 vezes mais poderoso do que o
CO2. Ou seja, mesmo que a humanidade pare de emitir
gases de efeito estufa nas atividades industriais e nos automóveis, o efeito feedback do
metano do permafrost pode elevar a temperatura a níveis infernais. Na
Antártica não é diferente. O “parto” da
Plataforma Larsen C é mais um dos sinais de alarme.
A ocupação, dominação e exploração humana sobre os ecossistemas, juntamente com
efeito estufa e a
acidificação dos solos e das águas está provocando a 6ª extinção em massa das espécies. O
Antropoceno é como uma “máquina de guerra”, todos os dias, o ser humano coloca mais munição. Atualmente, estamos adicionando
carbono na atmosfera a uma taxa extremamente elevada. Isto é o que
Stephen Hawking tinha
em mente quando disse que a nossa espécie precisa colonizar outros
planetas no próximo século para sobreviver e o que levou
Elon Musk a anunciar seus planos para a colonização do planeta
Marte.
Segunda parte
Na segunda parte da matéria da
NYMag, “
O calor mortal, transformando Nova Iorque em Bahrain”,
David Wallace-Wells
mostra que os seres humanos, como todos os mamíferos, são motores de
calor. Sobreviver significa ter que esfriar continuamente, como cães
ofegantes. Para isso, a temperatura precisa ser suficientemente baixa
para que o ar atue como uma espécie de refrigerador, extraindo calor da
pele para que o motor possa continuar bombeando. Mas as
ondas mortais de calor estão tornando a vida impossível em algumas regiões, pois em
temperaturas muito altas, dentro de horas, um corpo humano seria cozido até a morte por dentro e por fora.
O autor reporta que na região açucareira de
El Salvador,
cerca de um quinto da população tem doença renal crônica, o resultado
presumido da desidratação de trabalhar nos campos. Desde 1980, o planeta
experimentou um aumento de 50 vezes no número de locais com calor
perigoso ou extremo. Um aumento maior virá em breve. Os cinco verões
mais quentes da
Europa desde 1500 ocorreram desde 2002
e, em breve, simplesmente estar ao ar livre, nessa época do ano será
insalubre para grande parte do globo. A quatro graus, a
onda mortal de calor europeia de 2003, matou 2.000 pessoas por dia. Mesmo que atingindo os objetivos de
Paris de dois graus de aquecimento, cidades como
Karachi e
Calcutá se tornarão próximas a inabitáveis. A crise será mais dramática no
Oriente Médio e no
Golfo Pérsico,
onde, em 2015, o índice de calor registrou temperaturas tão altas que a
sensação térmica chegou a 163 graus Fahrenheit (72º C). Assim, num
futuro próximo, o
Hajj se tornará fisicamente impossível para os 2 milhões de muçulmanos que fazem a peregrinação a cada ano a
Meca.
Terceira parte
Na terceira parte da matéria da
NYMag, “
O fim da comida, rezando por campos de milho na tundra”,
David Wallace-Wells
diz que nas culturas de cereais os rendimentos da colheita diminuem 10%
para cada grau de aquecimento. O que significa que, para uma população
de 11 bilhões de habitantes, poderemos ter 50% menos de grãos para
oferecer. E o
efeito do aquecimento global
sobre as proteínas animais serão pior. A perda de solos será dramática,
especialmente nos trópicos. A seca pode ser um problema ainda maior do
que o calor, com algumas das terras mais aráveis do mundo passando
rapidamente para o deserto. O quadro já é preocupante hoje, com a
ONU alertando de que 20 milhões de pessoas podem morrer de fome na
Somália, Sudão do Sul, Iêmen e Nigéria.
Quarta parte
Na quarta parte da matéria da
NYMag, “
Pragas climáticas, o que acontece quando o gelo bubônico derrete”,
David Wallace-Wells
relata que o gelo funciona como um livro do clima, mas também é uma
história congelada, com pragas armazenadas que podem ser reanimados
quando descongelados. Atualmente, estão presos no
gelo do Ártico,
doenças que não circularam no ar há milhões de anos. O que significa
que nosso sistema imunológico não teria ideia de como lutar quando essas
pragas pré-históricas emergem do gelo. O
Ártico também armazena insetos aterrorizantes nos tempos mais recentes. Já no
Alasca,
pesquisadores descobriram os restos da gripe de 1918 que infectaram até
500 milhões e mataram cerca de 100 milhões de pessoas – cerca de 5% da
população mundial e quase seis vezes mais do que morreram na
Primeira Guerra Mundial.
Quinta parte
Na quinta parte da matéria da
NYMag, “
Ar irrespirável, uma poluição (smog) mortal que atinge milhões de pessoas”,
David Wallace-Wells considera que até o final do século, os meses mais legais da
América do Sul tropical, da
África e do
Pacífico
provavelmente serão mais quentes do que os meses mais quentes no final
do século XX. Nossos pulmões precisam de oxigênio, mas isso é apenas uma
fração do que respiramos. Com o aumento da concentração de
CO2,
em comparação com o ar que respiramos agora, a capacidade cognitiva
humana diminui em 21%. Em 2090, cerca de 2 bilhões de pessoas em todo o
mundo estarão respirando um ar poluído, acima do nível “seguro” definido
pela
OMS. Documentos mostram que, entre outros efeitos, a exposição da mãe grávida ao
ozônio aumenta o risco de autismo da criança. Já morrem cada dia mais de 10 mil pessoas das pequenas partículas emitidas pela
queima de combustível fóssil. A cada ano, 339 mil pessoas morrem de fumaça de incêndios, em parte porque a
mudança climática prolongou a temporada de
fogo florestal.
O que preocupa ainda mais as pessoas é o efeito que teria sobre as
emissões, especialmente quando os incêndios provocam uma queda nas
florestas decorrentes da turfa. Os incêndios são especialmente ruins na
Amazônia
que sozinha fornece 20% do nosso oxigênio. O “airpocalypse” chinês de
2013 tem afetado as atividades econômicas do país e foi responsável por
um terço de todas as mortes na
China.
Sexta parte
Na sexta parte da matéria da
NYMag, “
Guerra perpétua, a violência cozida no calor”,
David Wallace-Wells relata que os climatologistas são muito cuidadosos ao falar sobre a
Síria e querem crer que, embora a
mudança climática tenha
produzido uma seca que contribuiu para a guerra civil, não é justo
dizer que o conflito é o resultado do aquecimento. Mas há pesquisadores
que conseguiram quantificar algumas das relações não óbvias entre
temperatura e violência: para cada meio grau de aquecimento, eles dizem,
as sociedades verão entre um aumento de 10 e 20% na probabilidade de
conflitos armados.
Sétima parte
Na sétima parte da matéria da
NYMag, “
Colapso Econômico Permanente, tenebroso capitalismo em um mundo meio pobre”,
David Wallace-Wells
ridiculariza o mantra do neoliberalismo de que “o crescimento econômico
nos salvaria de todos e de tudo”. Mas no rescaldo da crise financeira
de 2008, um crescente número de historiadores que estudam o que chamam
de “
capitalismo fóssil” começaram a sugerir que toda a
história do rápido crescimento econômico, que começou um pouco antes do
século 18, não é o resultado da inovação, mas simplesmente da descoberta
dos
combustíveis fósseis e todo o seu poder energético. Com o
pico do petróleo, voltaremos a uma economia do “estado estacionário”. Além do mais, cada grau Celsius de aquecimento custa, em média, 1,2% do
PIB. Os
limites ambientais devem levar a economia global à estagnação secular.
Oitava parte
Na oitava parte da matéria da
NYMag, “
Oceanos Envenenados, Sulfeto de hidrogênio e o esqueleto”,
David Wallace-Wells
declara que o mar se tornará um assassino. O nível do mar vai subir no
mínimo um metro. Um terço das principais cidades do mundo estão na
costa, para não mencionar suas
usinas de energia, portos, bases da marinha, terras agrícolas, pescas, deltas de rios, pântanos e plantações de arroz.
O naufrágio das benfeitorias é apenas o começo. No momento, mais de um terço do
carbono do mundo é absorvido pelos oceanos – ainda bem, ou então teríamos muito mais aquecimento. Mas o resultado é o que se denomina “
acidificação do oceano”, que, por si só, pode aumentar meio grau de aquecimento neste século.
Há também o “branqueamento de corais” – isto é,
morte de corais
– que é uma notícia muito ruim, porque os recifes suportam tanto quanto
um quarto de toda a vida marinha e fornecem alimentos para meio bilhão
de pessoas.
Acidificação dos oceanos frita
as populações de peixes. Nas águas ácidas, as ostras e os mexilhões
terão dificuldade em cultivar suas conchas. Quando o pH do sangue humano
cai tanto quanto o pH dos oceanos, induz convulsões, comas e morte
súbita.
A
absorção de carbono pode
iniciar um ciclo de feedback em que as águas sub-oxigenadas produzem
diferentes tipos de micróbios que tornam a água ainda mais “anóxica”,
primeiro em “zonas mortas” do oceano profundo, depois gradualmente em
direção à superfície.
Nona parte
Na nona parte da matéria da
NYMag, “
O Grande Filtro, nossa curiosidade atual não pode durar”,
David Wallace-Wells pondera que não existe uma vontade de esclarecer os
efeitos da mudança climática.
Certamente essa cegueira não durará, pois, o mundo que estamos prestes a
habitar não o permitirá. Em um mundo de seis graus mais quente, o
ecossistema terrestre vai ferver com tantos
desastres naturais. Os furacões mais fortes virão com mais frequência, e teremos de inventar novas categorias para descrevê-los.
Em síntese, o autor considera que é preciso avaliar melhor os danos já causados ao planeta. A
Terra
pode ficar inabitável, pois são muitos os processos que estão afetando a
capacidade de sobrevivência da humanidade. Provavelmente, a
Terra não ficará desabitada, mas a qualidade de vida da população mundial poderá reduzir bastante em um Planeta degradado. O
Holoceno
garantiu 10 mil anos de estabilidade climática. O Antropoceno e a
grande aceleração das atividades antrópicas estão desequilibrando o
clima e transformando a biosfera em um habitat inóspito e inabitável.
Indubitavelmente,
David Wallace-Wells conseguiu
assustar muita gente. Mas, principalmente, conseguiu fazer as pessoas
discutirem os cenários negativos para os quais o mundo está caminhando
na medida que mantém o atual modelo de produção e consumo, sem respeitar
o fluxo metabólico entrópico e os limites do
meio ambiente.
Creio que vale a pena ler o artigo “
The Uninhabitable Earth”
e as centenas de respostas que foram publicadas logo a seguir. Para
contribuir com a discussão indico abaixo algumas referências das pessoas
que concordaram, aquelas que discordaram do tom, mas concordam com os
perigos potenciais do
aquecimento global e aquelas que discordam:
Artigos que defendem o uso de uma linguagem catastrófica como forma de alerta:
JOE ROMM. We aren’t doomed by climate change. Right now we are choosing to be doomed, 11/07/2017
KEVIN DRUM. Our Approach to Climate Change Isn’t Working. Let’s Try Something Else. 10/07/2017
Steve Rousseau. Did New York Magazine Make Its Climate Change Story Too Scary? 10/07/2017
SUSAN
MATTHEWS. Alarmism Is the Argument We Need to Fight Climate Change. New
York magazine’s global-warming horror story isn’t too scary. It’s not
scary enough, 10/07/2017
ROBERT HUNZIKER. Uninhabitable Earth? 14/07/2017
Ian
Johnston. Earth could become ‘practically ungovernable’ if sea levels
keep rising, says former Nasa climate chief, 14/07/2017
Artigos que consideram sérias as ameaças, mas não defendem o uso de uma linguagem catastrófica:
ROBINSON
MEYER. Are We as Doomed as That New York Magazine Article Says? Why
it’s so hard to talk about the worst problem in the world, JUL 10, 2017
Eric Holthaus. Stop scaring people about climate change. It doesn’t work. Jul 10, 2017
Michael E. Mann, Susan Joy Hassol and Tom Toles. Doomsday scenarios are as harmful as climate change denial, 12/07/2017
Michael
Le Page. Uninhabitable Earth? In fact, it’s really hard to fry the
planet. A controversial article says we’re heading for the worst-case
warming scenarios. But while we can’t rule out extreme warming, it’s not
our most likely future, 12 July 2017
JOHN
TIMMER Climate scientists push back against catastrophic scenarios. In
both the popular and academic press, scientists argue against worst
cases. 12/07/2017
Ian
Johnston. Climate change doomsday warning of ‘rolling death smog’ and
‘perpetual war’ criticised by scientists, Independent, 13/07/2017
David
Roberts. magazine climate story freak you out? Good. It’s okay to talk
about how scary climate change is. Really, 11/07/2017
Judith Curry. Alarm about alarmism, July 15, 2017
Artigos contra o tom catastrófico e que acreditam que ainda há esperança:
EMILY
ATKIN. The Power and Peril of “Climate Disaster Porn”. Climate
scientists say New York magazine’s cover story about global warming is
unnecessarily apocalyptic. But can fear help the planet? July 10, 2017
Warner Todd Huston. NY Magazine Claims Planet Earth Will Soon Become Uninhabitable, Turns Into Giant Mess, 11/07/2017
Rachel Becker. Why scare tactics won’t stop climate change. Doomsday scenarios don’t inspire action, 11/07/2017
Oren
Cass. Truth Is Just a Detail. Pundits invested in climate-change
alarmism praise even shoddy work—as long as it comes to the right
conclusions. July 11, 2017
ANDREW FREEDMAN. No, New York Mag: Climate change won’t make the Earth uninhabitable by 2100, 11/07/2017
Climatefeedback. Scientists explain what New York Magazine article on “The Uninhabitable Earth” gets wrong, 12/07/2017
Mark Tercek. Don’t Panic, Do Act: A Climate Resource With Real Solutions, 14/07/2017
Entrevista com David Wallace-Wells sobre o artigo “The Uninhabitable Earth”
REBECCA FISHBEIN Are Humans Doomed? A Q&A With The Author Of NY Mag’s Terrifying Climate Change Story`, 10/07/2017
Wikipedia. The Uninhabitable Earth, 11/07/2017
Referências:
David
Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth. Famine, economic collapse, a
sun that cooks us: What climate change could wreak — sooner than you
think. NYMag, 09/07/2017
Versão revisada e comentada do artigo pelo próprio autor: David
Wallace-Wells. The Uninhabitable Earth, Annotated Edition. The facts,
research, and science behind the climate-change article that explored
our planet’s worst-case scenarios, 14/07/2017
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/569801-catastrofe-climatica-a-terra-inospita-e-inabitavel)