domingo, 4 de março de 2018
Efeito estufa: produção versus consumo
A concentração de dióxido de carbono na atmosfera já supera as 405 partículas por milhão (ppm), segundo as mais recentes medições do observatório do vulcão Mauna Loa, no Havaí. Antes da revolução industrial, essa concentração não chegava sequer a 280 ppm. Ou seja, num período relativamente curto, provocamos um desequilíbrio gigantesco, aumentando enormemente a presença de carbono na composição dos gases atmosféricos.
Esse aumento está associado com a elevação da temperatura média global de um grado centígrado ao longo do Século XX, uma mudança que está acompanha grandes consequências negativas, como mais furacões, ondas de calor superando recordes, aumento no nível do mar, secas e a aceleração da extinção de muitos tipos de espécies.
Na Conferência do Clima de 2015, em Paris, os países aceitaram o compromisso de manter o aumento da temperatura global abaixo dos dois graus centígrados (em comparação com os níveis anteriores à revolução industrial). Adicionalmente, também asseguraram que fariam o possível para que esse aumento fosse ainda menor, abaixo de 1,5 graus, que é o nível que a comunidade científica considera mais realista para evitar grandes danos. Hoje, sabemos que este objetivo já é inalcançável.
No Acordo de Paris, cada nação determina de maneira independente suas metas de redução de emissões de gases do efeito estufa (GEE). Porém, não existe um mecanismo coercitivo para garantir o cumprimento desses objetivos. O único meio é a vergonha que um país sofre ao não cumprir suas próprias metas. Por isso a medição das emissões de gases do efeito estufa têm grande relevância.
Desde que se negociou o Protocolo de Quioto, nos Anos 90, a medição dos gases se baseia nos níveis de emissão produzidos por cada país. As nações mais desenvolvidas são as que emitiram mais GEE nos últimos 150 anos, por isso se buscou, inicialmente, reconhecer o princípio de responsabilidade histórica e diferenciada. Mas essa ideia foi perdendo força. No Acordo de Paris, só restou um frágil compromisso de apoio financeiro para os países menos desenvolvidos – promessa que tampouco foi cumprida.
Hoje surgem novas dúvidas sobre a assimetria nas emissões de GEE. Vários estudos questionam a validez das medições produzidas diretamente por cada nação, e propõem uma medição das emissões consumidas, ou geradas indiretamente na produção de bens e serviços importados de cada país. Em resumo, para contar com uma medida mais rigorosa e equitativa é importante fazer um balanço entre as produzidas diretamente por uma economia em seu território e as que vêm incorporadas nos produtos que importam.
A metodologia básica a qual nos acostumamos mede as emissões produzidas diretamente. Mas esta métrica ignora que as economias mais ricas, que são capazes de reduzir suas emissões diretas ao mesmo tempo que podem importar bens intensivos em emissões (de GEE) produzidas em outros países. Por esse motivo, as emissões produzidas diretamente e aquelas que são consumidas (ou produzidas indiretamente) diferem de maneira significativa.
O trabalho mais recente sobre os resultados gerados por estas distintas metodologias é de Mir Goher e Servaas Storm (disponível em www.ineteconomics.org). Embora a metodologia pode ser algo discutível, ao descansar na obsoleta noção da curva ambiental de Kusnetz, a questão é que o uso de matrizes de produto a escala global permite aos autores observar que o nível de emissões está correlacionado com a tenda per capita. E isso é algo grave, por duas razões. Primeiro, porque as emissões dificilmente serão reduzidas com o tempo. Ao contrário, vão se incrementar, ao aumentar a renda per capita nos países mais ricos ou de renda média. Segundo, porque isso revela que é possível que tenhamos subestimando o volume de emissões produzidas cada ano. Por outro lado, ao utilizar as matrizes de produto a escala internacional é possível considerar o peso do comércio internacional e das complexas cadeias de valor que hoje dominam a economia global. A diferença no volume de emissões não é desprezível.
O cenário para o futuro da crise climática não parece nada bom. Hoje, as projeções mais rigorosas indicam que estamos numa trajetória que poderia levar a um inevitável aumento da temperatura média global até três grados centígrados até o final deste século. As consequências deste tipo de perturbação serão verdadeiramente catastróficas, pelos efeitos acumulativos que podem causar. A única forma de evitar este desastre é através de reduções realmente significativas nos níveis de emissões de GEE. Para isso é indispensável combater o lobby dos combustíveis fósseis, que ainda domina a economia global.
Alejandro Nadal é economista mexicano, professor do Centro de Estudos Econômicos do Colégio de México e colunista do diário La Jornada
(fonte: https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Mae-Terra/Efeito-estufa-producao-versus-consumo/3/39479)
A legenda ironiza, mas... é fato!
Chegou a mim, via Facebook, esta foto e a legenda que, de fato, ironiza, pois nem se sabe se a militar está indo ou chegando. Mas não invalida o fato...
Crises hídricas: A corda arrebenta para todos
"Em meados de 2017, a crise teve que ser admitida, e em janeiro de 2018 foi determinado que residências que utilizassem mais que 350 litros de água por dia seriam multadas. Além disso, a água para abastecimento da cidade não será compartilhada com os agricultores da região, o que provavelmente vai causar um grande aumento nos preços de alimentos nos próximos meses. Ou seja, a crise hídrica vai desencadear outras crises, como a de abastecimento, a econômica e a sanitária.", escreve Maurício Dziedzic, engenheiro civil, mestre em Recursos Hídricos e doutor em Engenharia Hidráulica, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Gestão Ambiental (mestrado e doutorado) da Universidade Positivo (UP), em artigo publicado por EcoDebate, 28-02-2018.
Eis o artigo.
Ao pensar na África, geralmente formamos imagens com exuberância de recursos naturais. Falta de água nos remeteria aos desertos daquele continente, especialmente o Saara, no Norte. No Sul, ficam os desertos do Kalahari e da Namíbia. De resto, não se imaginaria escassez hídrica. Todavia, no extremo sul, a Cidade do Cabo, capital legislativa da África do Sul, está vivendo uma das piores crises hídricas urbanas que se tem notícia nos tempos modernos.
A cidade de cerca de meio milhão de habitantes foi apontada pelo New York Times em 2014 o melhor lugar do mundo para visitar. Hoje, sua população vive em contagem regressiva para o “Dia Zero”: o dia em que a água da cidade vai acabar. Esta data já foi estimada em abril, passou para maio, e atualmente é 04 de junho de 2018! Em Curitiba, se parasse de chover, considerando cheios os quatro principais reservatórios de abastecimento, teríamos água suficiente para abastecer a população por cerca de dois anos. Isso sem considerar outros usos da água.
Na região da Cidade do Cabo, choveu muito pouco nos últimos três anos e seus habitantes vivem a realidade do racionamento: 50 litros por dia por pessoa, desde o início de fevereiro, e volumes pouco maiores há alguns meses. Esse valor é muito próximo ao considerado mínimo necessário para não aumentar riscos de doenças de veiculação hídrica. Inclui 3 litros para beber, 20 litros para descarga sanitária, 15 litros para banho e 10 litros para cozinhar. Seria possível diminuir esse volume implementando, por exemplo, tecnologias que economizam água na descarga. Entretanto, não estão instaladas na cidade toda, não sendo alternativa viável no presente.
Além das alterações climáticas, responsáveis pela falta de chuva, outros fatores contribuíram para a crise atual. Os técnicos responsáveis pelo planejamento da cidade vêm advertindo os governantes há quase três décadas que a infraestrutura existente não seria suficiente para manter o abastecimento de água da Cidade do Cabo em caso de secas prolongadas. O principal reservatório de abastecimento da cidade fica em uma área em processo crescente de desertificação, claro indicador de mudanças no clima da região. Os governantes optaram por ignorar o aviso, não promover melhorias na infraestrutura, e continuar fomentando o desenvolvimento econômico não sustentável. Em meados de 2017, a crise teve que ser admitida, e em janeiro de 2018 foi determinado que residências que utilizassem mais que 350 litros de água por dia seriam multadas. Além disso, a água para abastecimento da cidade não será compartilhada com os agricultores da região, o que provavelmente vai causar um grande aumento nos preços de alimentos nos próximos meses. Ou seja, a crise hídrica vai desencadear outras crises, como a de abastecimento, a econômica e a sanitária.
Ironicamente, a Cidade do Cabo vai sediar, em maio próximo, a Conferência Internacional sobre Perdas de Água. Essas perdas, principalmente devido a vazamentos nas tubulações de redes de abastecimento, se constituem em um grande vilão hídrico. O percentual de perdas varia bastante entre as cidades e países. Na África do Sul, são da ordem de 30%. Em Curitiba, da ordem de 40%. A crise hídrica de São Paulo, por exemplo, seria resolvida, ou bastante aliviada, com a diminuição das perdas de mais de 30%. No Brasil, a variação é grande, chegando a cerca de 70% em algumas cidades, e com uma média de cerca de 37%. É muito desperdício que, se evitado, pode descartar a necessidade de exploração de outros mananciais.
Tanto aqui, quanto na África do Sul, uma gestão pública séria e preocupada com o bem-estar da população, o que inclui a sustentabilidade, é fundamental para evitar vários tipos de crise. Infelizmente, o que se vê é pouca ou nenhuma preocupação com a questão pública. Os governantes e seus burocratas associados se colocam em luta constante pelo poder e vantagens pessoais – e desdém pela situação alheia. Esquecem que estão forçosamente inseridos na realidade coletiva, e que um dia a corda arrebenta para todos. Aqui, ainda há tempo para agir. Na Cidade do Cabo, vão ter que colar os cacos.
E por onde começar? Pela educação de qualidade e acessível a todos. Além disso, é fundamental mudar o paradigma educacional do Brasil. Precisamos educar visando ao desenvolvimento de capacidade de análise crítica, ao contrário do que se pratica hoje, que é a cultura da memorização e da resposta a perguntas prontas. Os egressos de nossas escolas precisam ser capazes de questionar a pergunta, de investigar os motivos para que ela seja feita. Dessa forma, teremos cidadãos mais conscientes e menos fáceis de manipular. Ao mesmo tempo, é essencial desenvolver no aluno/cidadão os princípios éticos, principalmente pelo exemplo, na escola, em casa e na sociedade.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/576491-crises-hidricas-a-corda-arrebenta-para-todos)
Retrocesso ambiental consolidado
O Brasil ficará com uma lei florestal leniente e insuficiente para promover positivamente a sua condição de potência florestal, destaca em editorial o Instituto Socioambiental - ISA, publicada em seu portal, 01-03-2018.
Eis o editorial.
O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, ontem (28/02), o julgamento das Ações Diretas de Inconstitucionalidade (ADIs) propostas contra dezenas de dispositivos da Lei 12.651/2012 que fragilizaram a proteção da vegetação nativa em áreas privadas, até então garantida pelo Código Florestal de 1965.
A reforma da lei, liderada pela bancada ruralista e pelo governo Dilma Rousseff, promoveu o maior retrocesso da legislação florestal brasileira, mas a maioria dos ministros do STF considerou apenas cinco dispositivos da lei como inconstitucionais ou sujeitos à “interpretação conforme a Constituição”, consolidando a maior parte do texto legal.
Assim, o STF legitimou a anistia aos desmatamentos ilegais ocorridos até 2008, permitindo que a maior parte das áreas indevidamente desflorestadas no passado continue sendo utilizada nas atividades agropecuárias, dispensando-se a recomposição. Com isso, referendou um duplo regime jurídico em que propriedades detentoras de passivos florestais ficarão sujeitas a obrigações mais brandas de proteção da vegetação e com maior área para produzir, enquanto aqueles imóveis rurais legalmente regulares ficarão desvalorizados por permanecer obrigados a maiores exigências legais.
O ISA se orgulha de ter apoiado o Ministério Público Federal no questionamento a esses retrocessos e considera muito relevantes as pontuais correções feitas pelo STF, que vão permitir: estender a proteção às nascentes intermitentes; restringir desmatamentos em Áreas de Preservação Permanente (APPs) apenas para situações em que não exista alternativa; ampliar o tratamento diferenciado da lei às Terras Indígenas ainda não demarcadas e aos quilombos ainda não titulados; vedar intervenções degradantes em APPs para a implantação de aterros sanitários e equipamentos esportivos; condicionar a “compensação” de Reserva Legal no mesmo bioma, quando realizada por Cota de Reserva Ambiental, à equivalência ecológica entre as áreas envolvidas.
Porém, não há como não lamentar que, pela falta de apenas um ou dois votos, vários outros pontos igualmente relevantes não tenham sido também corrigidos, como a desproteção às encostas e topos de morro e a anistia a desmatamentos ilegais e a autuações. O Brasil ficará com uma lei florestal leniente e insuficiente para promover positivamente a sua condição de potência florestal.
Apesar de o resultado ter sido desfavorável à proteção da vegetação nativa, com graves impactos ao equilíbrio ecológico, o ISA destaca que a fundamentação utilizada pelos ministros em seus votos acabou por confirmar elementos essenciais do Direito Socioambiental, que devem servir de norte para futuras decisões do Legislativo e do Executivo. Restaram referendados pelo plenário da Corte o princípio da vedação ao retrocesso em direitos socioambientais e a necessidade de preservação ambiental para as gerações futuras, do que sobressai a responsabilidade entre gerações em matéria de meio ambiente. Reconheceu-se, ainda, as graves consequências do desmatamento no Brasil e sua íntima relação com as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade, o abastecimento de água e a manutenção da qualidade de vida. A constatação de que essas fundamentações não foram suficientes para declarações de inconstitucionalidade, além daquelas mencionadas, joga luz sobre a falta de capacidade técnico-científica do STF para julgar casos complexos em matéria socioambiental, fato reconhecido pelo próprio relator do caso e outros ministros.
Tendo esgotado as possibilidades institucionais de melhorar o Código Florestal, o ISAacata o resultado do julgamento e dispõe-se a discutir políticas que estendam a proteção às florestas para além dos limites da lei.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/576559-retrocesso-ambiental-consolidado-2)
Sistema Judiciário Brasileiro: ontem e hoje.
por Antônio de Paiva Moura
O sistema judiciário brasileiro na atualidade,
abrangendo todas as instâncias hierárquicas, perdeu o caráter de imparcialidade
e lisura nas decisões. Aqui ou em qualquer lugar do mundo, em todos os tempos a
magistratura é formada por elementos engajados nas causas das elites do poder
econômico e do poder político.
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| A desigualdade jurídica (Celmir Silva, especial para este artigo) |
Olhando o sistema jurídico do
período colonial passando pelo período monárquico até os primórdios do século
XX houve um relativo progresso democrático nas cartas constitucionais, nos
códigos de processo penal e civil.
No período colonial a coroa
portuguesa usava dois métodos para assegurar a lealdade, a imparcialidade e a
eficiência administrativa dos juízes. Primeiro, já que os desembargadores
representavam a autoridade real, foi feito um grande esforço para elevá-los
acima da sociedade e para garantir-lhes uma posição de respeito inabalável,
através de prestigio, riqueza e status social. A sociedade colonial dava muita
importância ao status. Um rico proprietário de terra, com pretensão à nobreza,
não aceitava obedecer à lei se fosse imposta por homens considerados
socialmente seus inferiores. Poucos desembargadores eram de ascendência
fidalga, faltando-lhes, assim, proeminência social natural à nobreza. A coroa
portuguesa, portanto, fez tudo que estava ao seu alcance para assegurar e
fortalecer a dignidade e a posição dos juízes. Os desembargadores recebiam
altos salários, gratificações financeiras e gozavam da isenção de certos
impostos. Bastaria uma ofensa física a um desembargador para que o agressor
fosse punido com a pena de morte. Uma ofensa verbal era punida com o exílio. Frequentemente
os magistrados recebiam o hábito de uma ordem militar, em especial da cobiçada
Ordem de Cristo
Na colônia os desembargadores tinham
lugares de honra em vários acontecimentos civis e religiosos. Figuras vestidas
de preto, marchando logo atrás do governador da capitania. Por outro lado, os
magistrados deveriam evitar as atividades de negócios ou propriedades
fundiárias. (SCHWARTZ, 1979) Longe de manter distância do negócio, os
magistrados acabavam adquirindo propriedades e participando de negócios
ilícitos, inclusive tráfico de escravos.
O período regencial do Império,
durante a menoridade de D. Pedro II, foi marcado pela extinção das antigas
figuras dos ouvidores, corregedores e chanceleres como magistrados,
universalizando-se a figura do juiz como magistrado de primeira instância, em
suas diversas modalidades: Juiz Municipal, em substituição ao juiz ordinário
local; Juiz de Paz, eleito, com a função de julgar pequenas causas; Juiz de
Direito, nomeado pelo imperador, em substituição ao Juiz de Fora. Esse sistema
judicial visava aplacar os distúrbios regionais.
O cientista alemão Hermann Burneister, em
1853, observou que o estudo da estratificação social da província de Minas
devia começar pela cor da pele, visto que a posição de cada um e seu nível de
vida dependiam grandemente dessa circunstância. Os proprietários de terra e
minas eram na quase totalidade de brancos. Era difícil ver-se um branco casado
com uma mulher de cor, pois cada um tratava de conservar na família a pureza de
sua raça, evitando qualquer parentesco com gente de outra. Nos lugares onde
havia brancos e gente de cor, os primeiros representavam sempre a classe
dominante. Entre os funcionários e os comerciantes, foram encontrados, em
regra, brancos; somente pequenas vendas pertenciam, por vezes, a gente de cor.
O artesanato, contava, em geral, com elevado número de mulatos, como os
marceneiros, carpinteiros, alfaiates e seleiros, enquanto os pedreiros,
ferreiros, funileiros e sapateiros eram negros livres. Nas cidades
encontravam-se alguns estrangeiros, mestres em seus ofícios, tendo sob suas
ordens certo número de auxiliares e aprendizes. O poder
judiciário merecia pouca confiança da população, de vez que todos sabiam que
boas relações pessoais e dinheiro conseguiam vencer mesmo os maiores
obstáculos. Tal lacuna não se devia tanto ao funcionalismo e nem aos jurados
que não recebiam vencimentos. O hábito inveterado das decisões injustas fez com
que ninguém se preocupasse mais com o direito, mas antes com as condições que
prevaleceram para as deliberações. Desta forma, o mais rico ganhava do mais
pobre; o branco do homem de cor e, no caso de processo entre brancos, vencia o
que tivesse mais prestígio ou posição social. O mau exemplo era dado pelo
próprio governo, que nobilitava pessoas ricas, cuja fortuna provinha, na
maioria dos casos, de fraudes cometidas contra o fisco, concedendo-lhes até o
baronato. (MOURA, 1983)
Nos primórdios do período republicano (1889
a 1930) verifica-se que o sistema jurídico do período imperial facilitou a
formação das oligarquias regionais e do fenômeno coronelismo. O sociólogo
francês Jean Blondel caracteriza o “coronel” pelo seu poder político, pela
capacidade de manter sob seu controle, os redutos eleitorais, sendo a quantidade
de votos a medida de seu poderio. Papel importante é o cabo eleitoral, cujo
título parece derivar da escala hierárquica, conferido pelo contingente da
Guarda Nacional. A este é atribuído o dever de controlar a massa eleitoral de
modo a não permitir a evasão de votos. O cabo eleitoral é uma espécie de
“vassalo” intransigente, disposto a lançar mão de qualquer meio para coibir a
infidelidade ao seu coronel. O poderio econômico do coronel caracterizava-se
pela capacidade de explorar as imensas terras disponíveis, para manter o
latifúndio e a monocultura, (café ou pecuária), o coronel lançou mão de algo
que substituía a mão-de-obra de baixo custo e com reminiscências da escravidão.
O agregado, substituto do escravo, não tendo outra opção, entregava o seu
trabalho, em troca da necessária proteção e do indispensável favoritismo
oferecido pelo coronel paternalista. O menor fato que contrariasse esta ordem
ou estado de coisas, fugindo à regra, era respondido com o crime. Com outras
palavras, o crime era a resposta a qualquer ameaça à segurança do sistema
coronelista. (MOURA, 1983)
As oligarquias detinham integralmente os
poderes do estado: executivo, legislativo e judiciário. Nessa circunstância
mantinham privilégios e oprimiam o restante da população, gerando reação dos
fora da lei. O cangaço e a bandidagem manifestaram-se como uma forma de
protesto diante das injustiças observadas no Nordeste do Brasil e no Norte de
Minas, como nos contos de Guimarães Rosa. O historiador inglês Eric Hobsbawm
(2010) criou o termo bandido social para caracterizar aquele que vem de uma
camada pobre da população rural, com a qual distribui o produto do seu roubo,
como fez o lendário Robim Hood. No Nordeste ficou célebre a atuação de
Virgulino Ferreira da Silva, Lampião. No Norte de Minas Antônio Antunes de
França, com a alcunha de Antônio Dó, era pequeno proprietário de terra e de
gado. Após ser preso por demarcação de terra, em 1909, fugiu da delegacia na
firme decisão de vingar a morte de seu irmão e mostrar a indignação pela perda
injusta de sua propriedade. Formou um numeroso bando e teve muitos confrontos
com a polícia de Minas Gerais.
No final do século XX e início do atual, a
situação social e cultural mudou muito. De sociedade agrária e rural para
sociedade urbana. Ao invés da disputa pela terra, a luta pela aquisição do dinheiro.
As instituições financeiras são as mais visadas pelas organizações criminosas.
As quadrilhas de assalto a bancos estão sendo chamadas de “novo cangaço”. O chamado tráfico
de drogas ilícitas é utilizado para encobrir interesses geoeconômicos das
potências imperialistas e de estado com governos a eles subservientes, como
sucede com a Colômbia de Álvaro Uribe. Segundo Maierovitch (2009), somente 10%
das drogas circulantes no mundo são apreendidas pela polícia. Os 90% que
circulam pelo mundo, continuam movimentando cerca de 300 bilhões de dólares ao
ano, no sistema bancário financeiro internacional.
Um policial inglês, especializado em tráfico de drogas chegou à
conclusão que o perfil do traficante é muito semelhante ao dos executivos das
transnacionais. Ambos visam o lucro acima de tudo. A diferença é que o
empresário tem uma atividade legal e o traficante é uma atividade ilegal, mas a
ambição é a mesma. O empresário usa meios lícitos e ilícitos, com o poder que
tem, para remunerar mal seus servidores visando acumular os lucros. O
traficante usa a mão de ferro para impor o terror e a disciplina em seus
subordinados. A acumulação de fortunas do traficante, ao contrário do bandido
social, é para ostentar luxo; aumentar seu poderio sobre os rivais; remunerar
autoridades policiais e jurídicas que lhe acoberta. É tudo que se observa em um
executivo legal. (MANO, 2009)
Em avaliação feita em 2003, a ONU classificou o
judiciário brasileiro de lento, com tendência ao nepotismo, machista e pouco
acessível à população carente. O relatório apontou diversas recomendações para
melhorar o quadro, entre elas, maior participação de mulheres, negros e índios
na justiça. A avaliação da ONU apontou 95% dos casos de assassinatos de
trabalhadores rurais no Pará, entre 1985 e 2001, que ficaram sem
esclarecimento. Além da ONU, a revista The
Economist criticou o judiciário brasileiro classificando-o de antiquado e
disfuncional. Os juízes brasileiros são
inalcançáveis e impassíveis de prestar contas aos cidadãos a que servem (DOMENICI,
2005: 21). Os magistrados brasileiros, na maioria absoluta, não são de classes
médias e não têm afinidades com as classes inferiores. Um juiz fazendeiro tem dificuldade de se colocar ao lado de um
sem-terra. Uma juíza que tem problema com sua empregada doméstica tende a se
solidarizar com a patroa. O juiz que lê crítica contra o judiciário vai se
identificar com quem for à justiça reclamar da imprensa (IDEM, p.22). Em abril de 2007, a Polícia Federal e o
Ministério Público empreenderam a operação “Têmis”, para investigar uma
quadrilha que negociava sentenças judiciais. Foram cumpridos diversos mandados
de busca em residências privadas e gabinetes de juízes e de desembargadores. Os
juízes dificultaram, ao máximo a ação policial contra seus pares. O Supremo
Tribunal Federal não permitiu nem a prisão temporária de 43 investigados, nem o
bloqueio de suas contas bancárias (VASCONCELOS, 2007).
Para responder ao estado de
privilégio das classes superiores remuneradas pelo erário público e pela
exagerada lucratividade, na atualidade, restam poucas alternativas às classes
subalternas. O neoliberalismo tratou de destruir as instituições sociais e as
políticas de bem-estar social conquistadas na segunda metade do século passado
e promulgação da Constituição de 1988.
Antes de ser instituído o direito de
greve, os trabalhadores faziam paralisações desobedecendo à lei e se
confrontando violentamente com a polícia. No período de 1964 a 1984, na
vigência da ditadura militar, muitos grupos clandestinos de resistência se
formaram. Embora tenham ocorrido muitas mortes a atuação de tais grupos foi
fundamental para a restauração do estado democrático. Diante dos últimos acontecimentos políticos
do Brasil a jornalista francesa Évelyne Pieller (2018) traz à nossa lembrança o
Wikileaks, fundado por Julian Assange, em 2006, que deseja dar visibilidade a
vazamentos de informações, como objetivo de expor uma realidade social e
política oculta.
Referências
DOMENICI, Thiago. Justiça tarda e
falha. Caros Amigos, São Paulo, n.26, dez. 2005.
HOBSBAWM,
Eric. Bandidos. Tradução de Donaldson
M. Garschagem. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
MARIEROVITCH, Walter Fanganielloo. O tráfico salvou o interbancário. Carta
Capital. São Paulo, n. 577, 23 dez. 2009.
MOURA,
Antônio de Paiva. História da violência
em Minas. Belo Horizonte: Autor, 1983.
MANO,
Maira Kubik. Droga e violência: uma
questão de classe. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, n. 26, set. 2009.
PIELLER,
Évelyne. Antígona e os piratas:
desobediência civil. Le Monde Diplomatique Brasil. São Paulo, n. 126,
janeiro de 2018.
SCHWARTZ,
Stuart B. Burocracia e sociedade no
Brasil colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979.
VASCONCELOS, Frederico. Operação
da Polícia Federal investiga venda de sentenças em São Paulo. Folha de São
Paulo, São Paulo, 21 abr. 2007.
‘America First’ de Trump recebe grande apoio da Petrobras de Parente
Texto escrito por José de Souza Castro:
Finalmente, uma boa análise da atual política de preços da Petrobras que vem prejudicando o consumidor brasileiro e aprofundando a desnacionalização. Foi feita por Ricardo Maranhão em entrevista ao site Petronotícias e reproduzida aqui. Aos interessados, mais vale a leitura da entrevista tal como foi publicada. Mesmo assim, tento um resumo como tenho feito em outros casos.
Conforme Maranhão, Conselheiro da Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet), o Plano de Negócios e Gestão (PNG 2018-2022) da Petrobras “tem viés colonialista, pois que as políticas de conteúdo nacional e o uso estratégico do petróleo para o desenvolvimento do país foram praticamente esquecidos”.
O reajuste quase diário do preço do combustível, além de prejudicar o consumidor, resulta em perda absurda de divisas, pois a Petrobras, vem comprando gasolina e diesel no exterior e deixando ocioso o parque de refino da própria empresa, que vem perdendo mercado. “É uma incongruência, uma insensatez e uma incoerência. Tudo isso para manter uma política equivocada e entreguista”, diz Maranhão.
Mesmo tendo em caixa entre 25 bilhões e 30 bilhões de dólares, que lhe dariam capacidade de fazer frente às dívidas de forma antecipada, a Petrobras, sob a direção de Pedro Parente, sobre quem tenho escrito neste blog, embarcou num programa de desinvestimento e de desnacionalização do setor petrolífero.
Ao elevar os preços, equiparando-os aos preços internacionais, a Petrobras desiste de ter uma energia mais barata para aumentar a competitividade da economia brasileira. A paridade com o mercado internacional está abrindo a possibilidade para que importadores e refinadores estrangeiros vendam gasolina e diesel no Brasil. “E quando traz esse produto do exterior, a Petrobrás não refina, porque não consegue revender”, acrescenta Maranhão.
Segundo ele, este é um modelo colonialista. “Seremos um grande produtor de petróleo cru sem valor agregado e, ao mesmo tempo, um grande importador de derivados”. Pior: os preços do mercado exterior sofrem a influência de um número enorme de fatores imprevisíveis, que dão uma volatilidade muito grande a eles. “Quando você adota essa política de paridade, está expondo os consumidores brasileiros a toda essa multiplicidade de fatores”, como um inverno muito rigoroso no Hemisfério Norte que cria uma demanda sazonal elevando os preços, ou até mesmo uma briga na Casa Real Saudita. O Brasil nada teria a ver com isso, não fosse essa política de Parente apoiada pelo presidente da República.
Além disso, o Brasil não tem nem os salários nem os índices de desenvolvimento dos países ricos, o que mais uma vez demonstra o erro dessa política de paridade de preços. E não só da gasolina e do óleo diesel. O gás de cozinha, produto de grande consumo nas faixas de renda mais baixa, subiu muito além da inflação. “É uma estranha concorrência, que ao invés de baixar os preços e beneficiar os consumidores, está elevando os valores”, critica Maranhão.
Enquanto prejudica o consumidor brasileiro, essa política de Parente beneficia especialmente os refinadores americanos. “Até 80% do diesel que está sendo importado pelo Brasil é proveniente dos Estados Unidos. Tanto que estamos chamando esta política de América First”, diz o conselheiro da Aepet, lembrando slogan da campanha de Donald Trump.
Pedro Parente e Michel Temer fazem o que podem para que o presidente dos Estados Unidos cumpra sua promessa.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2018/02/27/america-first-de-trump-recebe-grande-apoio-da-petrobras-de-parente/#more-15101)
domingo, 25 de fevereiro de 2018
A era dos oceanos mortos
Estudo abrangente dos mares revela: em 60 anos, zonas costeiras sem oxigênio multiplicaram-se por dez. Além da vida marinha, fenômeno ameaça meio bilhão de pessoas. Há soluções — bloqueadas pelo poder econômico
Por Damian Carrington | Tradução: Inês Castilho
As zonas mortas no oceano, com zero oxigênio, quadruplicaram em tamanho desde 1950, enquanto o número de locais com muito pouco oxigênio perto das costas cresceram dez vezes, alertou um novo estudo científico publicado no início de fevereiro. A maioria das espécies marítimas não consegue sobreviver nessas zonas e a tendência atual levaria à extinção em massa no longo prazo, arriscando causar consequências terríveis para centenas de milhões de pessoas que dependem dos mares para viver.
As mudanças climáticas causadas pela queima de combustível fóssil são a causa da desoxigenação em larga escala, pois águas mais quentes retêm menos oxigênio. As zonas mortas costeiras são consequência de fertilizantes e esgoto que correm da terra para o mar.
O estudo, publicado na revista Science, é a primeira análise abrangente dessas áreas e afirma: “Grandes eventos de extinção na história da Terra foram associados a climas quentes e oceanos deficientes em oxigênio.” Denise Breitburg, do Centro de Pesquisa Ambiental Smithsonian (Smithsonian Environmental Research Center), nos Estados Unidos, responsável pela análise, disse: “Na trajetória atual, é para esta situação que nos dirigimos. Mas as consequências, para os seres humanos, de manter essa trajetória são tão medonhas que é difícil imaginar que possamos ir tão longe.”
“Esse problema pode ser resolvido”, disse Breitburg. “Deter as mudanças climáticas requer um esforço global, mas mesmo ações locais podem ajudar a evitar a redução de oxigênio.” Ela apontou a recuperação da Baia Chesapeake, nos EUA, e do rio Tâmisa, no Reino Unido, onde melhores práticas agrícolas e de saneamento levaram ao desaparecimento de zonas mortas.
Contudo, o professor Robert Diaz, do Instituto Virginia de Ciência Marinha (Virginia Institute of Marine Science), revisor do novo estudo, disse: “Neste momento, a crescente expansão de zonas mortas costeiras e o declínio de oxigênio no mar aberto não são problemas prioritários para governos em todo o mundo. Infelizmente, será necessário ocorrer severa e persistente mortalidade de peixes para que tomem consciência da falta de oxigênio.”
ÁREAS OCEÂNICAS MORTAS (MENOS DE 2mg DE OXIGÊNIO POR LITRO
[Em laranja, as áreas costeiras mortas; em azul as áreas mortas em mar aberto]

Fonte: Global Ocean Oxigen Network, Science
Os oceanos alimentam mais de 500 milhões de pessoas, especialmente em países mais pobres, e proporcionam trabalho para 350 milhões. Mas no mínimo 500 zonas mortas foram localizadas até agora perto das costas, contra menos de 50 em 1950. A falta de monitoramento em várias regiões significa que o verdadeiro número pode ser muito maior.
O mar aberto tem naturalmente áreas de baixo oxigênio, em geral na costa oeste dos continentes devido à forma como a rotação da Terra afeta as correntes oceânicas. Mas essas zonas mortas expandiram-se dramaticamente, aumentando milhões de quilômetros quadrados desde 1950, em área praticamente equivalente à da União Europeia.
Além disso, está caindo o nível de oxigênio em todas as águas oceânicas, com 2% – 77 bilhões de toneladas – sendo perdidos desde 1950. Isso pode reduzir o crescimento, prejudicar a reprodução e aumentar as doenças, alertam cientistas. Ironicamente, águas mais quentes não apenas retêm menos oxigênio como também levam organismos marinhos a respirar mais rápido, usando mais oxigênio.
Há também perigosos mecanismos de feedback. Micróbios que proliferam em níveis muito baixos de oxigênio produzem muito óxido nítrico, um gás de efeito estufa que é 300 vezes mais potente que o dióxido de carbono.
Em regiões costeiras, a poluição por fertilizantes, excrementos animais e água de esgoto causa a floração de algas, e quando elas se decompõem o oxigênio é sugado para fora d’água. Em alguns lugares, contudo, as algas podem gerar mais alimento para os peixes e aumentar a captura perto das zonas mortas. Isso pode não ser sustentável, disse Breitburg: “Preocupa muito que estejamos mudando o modo como esses sistemas funcionam, o que pode levar à redução de sua resiliência global.”
O novo estudo foi produzido por um grupo de trabalho internacional criado em 2016 pela Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco. Kirsten Isensee, membro da comissão, disse: “A desoxigenação do oceano está acontecendo em todo o mundo como resultado da pegada humana; é necessário, portanto, que a enfrentemos globalmente.”
Lucia von Reusner, diretora de campanha do grupo Mighty Earth (Terra Forte, em tradução livre), que recentemente estabeleceu uma ligação entre a zona morta do Golfo do México e a produção de carne em larga escala, disse: “Essas zonas mortas continuarão a expandir-se, a menos que as grandes indústrias de carne que dominam o sistema agrícola global comecem a limpar sua cadeia de fornecedores, de modo a manter a poluição fora de nossas águas.”
Diaz observou que a velocidade da asfixia dos oceanos é de tirar o fôlego: “Nenhuma outra variável de tal importância ecológica para os ecossistemas costeiros mudou tão drasticamente, em período tão curto, pela ação humana, como a dissolução do oxigênio.”
A necessidade de ação urgente, disse, é bem resumida pelo lema da Associação Americana do Pulmão (American Lung Association): “Se você não consegue respirar, nada mais importa.”
(fonte: https://outraspalavras.net/destaques/a-era-dos-oceanos-mortos/)
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