domingo, 10 de junho de 2018

Enganos sobre os alimentos transgênicos

Ao contrário do que se difunde, a aventura de alterar o DNA de nossos cultivos de alimentos, mediante as técnicas da chamada engenharia genética, não se sustenta na ciência, ao contrário, a desonrou. Seus engenheiros e aqueles que os apoiam, com frequência, ignoraram e até ocultaram ou destruíram evidências científicas. Também violaram os padrões da ciência. Inclusive, ocultaram essas infrações mediante o engano. Mais ainda, o processo de engenharia genética, em particular de cultivos, foi descrito de tal maneira que parece mais natural e preciso do que é na realidade, e mesmo os fatos mais básicos da biologia contemporânea foram distorcidos para minimizar os verdadeiros riscos dos cultivos transformados mediante a engenharia genética.

A reportagem é de Steven Druker, diretor executivo de Alliance for Bio-Integrity, publicada por La Jornada, 07-06-2018. A tradução é do Cepat.

A aventura dos alimentos modificados pela engenharia genética dependeu de maneira crucial desses enganos e não teria sobrevivido sem eles. Portanto, é imprescindível expor esses enganos e que se conheça a verdade.

Em meu artigo publicado por La Jornada, em 18 de maio, revelei como os enganos centrais procederam do governo dos Estados Unidos – e como este país promoveu os cultivos transgênicos, de empresas de sementes mediante técnicas de engenharia genética e impulsionou seu negócio nos mercados mundiais. Nos parágrafos seguintes, eu explico como outras destacadas instituições contribuíram para este engano.

Uma das maiores ficções é que há consenso entre os especialistas da ciência sobre a inocuidade dos cultivos transgênicos. A Associação Americana para o Avanço da Ciência declarou que qualquer organização respeitável que tenha examinado a evidência científica conclui que os alimentos derivados destes cultivos não envolvem maior risco que os alimentos convencionais. No entanto, várias organizações respeitáveis, como a Sociedade Real do Canadá, a Associação Médica Britânica e a Associação de Saúde Pública da Austrália não compartilham tal acordo; ao contrário, alertam sobre seus possíveis riscos.

Além disso, aquelas organizações que proclamam a inocuidade dos transgênicos se apoiam basicamente no engano. Consideremos o caso das novas toxinas não previstas que a engenharia genética pode gerar. Para sustentar o argumento de que os alimentos transgênicos não implicam riscos adicionais ou novos, em um importante relatório da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos se argumenta que com o melhoramento genético convencional também é possível incorrer em riscos similares. No entanto, os autores só puderam citar um caso para a agricultura convencional (que envolve a batata), que mais adiante foi demonstrado que era falso. Afirmaram que a nova batata, obtida mediante métodos convencionais não transgênicos, continha uma molécula tóxica nova que não estava em nenhum dos progenitores, embora estes, sim, a produziam; mas tais tipos de substâncias tóxicas foram encontrados em outras batatas.

Sociedade Real Britânica também torceu a verdade para fazer o público acreditar que os cultivos transgênicos não apresentam riscos em relação aos alimentos convencionais. Por exemplo, argumentam que estes últimos podem também produzir efeitos inesperados. Em uma publicação de 2016 da mesma organização, mostram que todos os genomas de plantas com frequência apresentam inserções de DNA viral e/ou bacteriano – e que essas inserções são similares às que são geradas mediante técnicas de DNA recombinante da engenharia genética. Ambas afirmações são falsas. Enquanto os genes inseridos no genoma via engenharia genética sempre são integrados ao genoma das plantas, raras vezes ocorre isto com os genes de vírus e bactérias. Além disso, as incomuns inserções de genes virais no genoma de plantas permanecem inativas e não estão combinadas com outras sequências de vírus ou bactérias, como ocorre nas construções recombinantes da engenharia genética. A presença de genes bacterianos também é restringida nos genomas de plantas, e tampouco estão ativos. Ao contrário, os genes e suas combinações inseridas mediante engenharia genética, além de impactar de diversas maneiras no fenótipo, são artificialmente impulsionados a uma intensa atividade, que pode causar desequilíbrios rigorosos.

A referida publicação também enganou sobre os resultados de pesquisa. Proclama que não houve evidências de dano ligado a algum cultivo transgênico aprovado, apesar de vários estudos publicados em revistas arbitradas demonstrarem o contrário. E mais, a própria sociedade está inteirada de um estudo que demonstra dano e que a própria Sociedade Real procurou desacreditar. Este estudo, realizado no reconhecido Instituto Rowett, colocou em dúvida a inocuidade dos alimentos transgênicos, ao reportar que o próprio processo de engenharia genética pode causar problemas. Tal descompostura animou o editor da prestigiosa revista The Lancet a rejeitar a iniciativa da Sociedade, qualificando-a como impertinência insólita. The Lancet considerou o estudo cientificamente adequado e o publicou. A Sociedade se esquivou deste estudo e afirmou que não havia pesquisa alguma que mostre que o processo de engenharia genética em si possa causar diferenças nos cultivos transgênicos que possam implicar danos.

Meu livro Genes alterados, verdade adulterada contém muitos exemplos de tais tipos de condutas inaceitáveis de importantes revistas e sociedades científicas que tentaram ocultar ou minimizar os possíveis impactos negativos dos cultivos transgênicos. Os proponentes dos cultivos transgênicos vêm subvertendo a ciência, ao mesmo tempo em que dizem atuar em seu nome.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579724-enganos-sobre-os-alimentos-transgenicos)

domingo, 3 de junho de 2018

Quanta água desperdiçamos com a comida que jogamos fora?

A pegada hídrica espanhola associada ao desperdício de comida equivale a mais de 130 litros de água por pessoa por dia, segundo pesquisadores da UPM, depois de estudar o consumo de alimentos realizado em domicílios espanhóis durante um ano.
A reportagem foi publicada por Universidad Politécnica de Madrid e reproduzida por EcoDebate, 25-05-2018. A tradução e a edição são de Henrique Cortez.

Pesquisadores da Universidad Politécnica de Madrid, em colaboração com o Water Observatory of the Botín Foundation, realizaram um estudo sobre hábitos alimentares e padrões de desperdício em domicílios espanhóis para avaliar o impacto sobre os recursos hídricos domésticos e identificar soluções para evitar o desperdício de água.
Os resultados indicaram que o tipo de dieta afeta mais do que o desperdício de alimentos em termos de pegada hídrica relacionada à alimentação. Assim, consumir uma dieta saudável e sustentável pode ter benefícios colaterais relevantes no ambiente em relação ao solo, energia e água.
Estima-se que haverá 9 bilhões de pessoas na Terra até 2050. Esse crescimento populacional, juntamente com sociedades cada vez mais urbanas, nos faz enfrentar um grande desafio: produzir mais alimentos para abastecer toda a população mundial com padrões de consumo em mudança.
Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), precisaremos produzir entre 50 a 60% a mais de alimentos nas próximas décadas sem comprometer o meio ambiente e sob um cenário de mudanças climáticas.
Nos últimos anos, a maioria dos esforços para abordar esta questão concentrou-se em explorar alternativas para aumentar a produção global de alimentos, ou seja, aumentar a oferta. No entanto, os esforços também têm se concentrado na melhoria dos hábitos e padrões de consumo, uma vez que ficou provado que um melhor gerenciamento da demanda tem implicações positivas tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.
Dado que a agricultura representa cerca de 70% de todos os usos do consumo de água e a competitividade de tais recursos leva a um aumento dos problemas de escassez em muitas partes do mundo, a água tornou-se um fator limitante na produção agrícola.
O Centro de Pesquisa em Gestão de Riscos Agrícolas e Ambientais ( CEIGRAM ), um centro de pesquisa conjunta da Universidade Politécnica de Madri, a Agência Estadual de Seguros Agropecuários ( ENESA ) e a AGROSEGURO realizaram diversos projetos de pesquisa que abordaram a relação entre dietas e volume de água necessário para produzir seus ingredientes. Um exemplo é o estudo conduzido por Alejandro Blas, Alberto Garrido e Bárbara Willaarts comparando a dieta americana com a dieta mediterrânea.
Os mesmos autores realizaram recentemente uma outra pesquisa focada em estimar a pegada hídrica (a quantidade de água necessária para produzir um bem) da dieta e do desperdício alimentar das famílias espanholas durante um ano. Além disso, eles estudaram a origem geográfica dos bens para estimar a origem da água usada para produzir tais bens e, assim, estimar a quantidade de água “importada” de outros países.
Os resultados mostraram que de outubro de 2014 a setembro de 2015 o consumo de pegada hídrica na Espanha é de 52.933 hm3, equivalente a 3.302 litros por pessoa e dia. Os produtos que representam a maior parte da pegada hídrica total são carne, peixe e gorduras animais (26%) e laticínios (21%). Da mesma forma, cerca de 41% da pegada hídrica total vinculada às dietas domésticas é estrangeira, ou seja, água virtual importada, e os principais países de origem são a Tunísia, Portugal e França.

A pegada hídrica do lixo alimentar é de 2095 hm3 na Espanha, equivalente a 131 litros por pessoa e dia.

Um pesquisador envolvido neste projeto, Alejandro Blas, diz que “embora a maior parte da população ainda adira à dieta mediterrânea, os padrões atuais de consumo espanhol estão mudando para uma dieta que contém mais carne e produtos de açúcar”. Ele conclui que “uma redução no consumo desses produtos em troca de um aumento no consumo de frutas, vegetais e leguminosas levaria a grandes economias de água”.
Os múltiplos conjuntos de dados exigidos para este estudo destacam as dificuldades de se obter estimativas de consumo e desperdício de alimentos e, portanto, como é desafiador informar as políticas que tratam do consumo sustentável de alimentos e sua relação com a gestão da água. Mais pesquisas são necessárias para desenvolver abordagens metodológicas padronizadas de maneiras que possam fornecer resultados relevantes para a política e contribuir globalmente para uma melhor formulação de políticas.
Referência:
Alejandro Blas, Alberto Garrido, Bárbara Willaarts. Food consumption and waste in Spanish households: Water implications within and beyond national borders. Ecological Indicators 89: 290-300. June 2018.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579350-quanta-agua-desperdicamos-com-a-comida-que-jogamos-fora)

Aquecimento Global: Riachos podem emitir mais dióxido de carbono em um clima mais quente


Riachos e rios podem bombear dióxido de carbono para o ar a taxas crescentes se continuarem aquecendo, potencialmente aumentando os efeitos do aquecimento global, mostrou uma nova análise mundial.
A reportagem foi publicada por EcoDebate, 28-05-2018

Para chegar a essa conclusão, uma equipe de pesquisa internacional conduziu o primeiro estudo em escala continental dos fluxos de carbono para dentro e para fora dos córregos em seis grandes zonas climáticas. Eles coletaram dados em bacias hidrográficas de Porto Rico, Oregon (EUA), Austrália e Alasca. Em cada um deles, os cientistas analisaram o equilíbrio entre a fotossíntese – que usa CO2 atmosférico para gerar material vegetal, como raízes e folhas – e a respiração, que bombeia CO2 de volta para o ar.
Os cientistas publicaram seus resultados esta semana na revista Nature Geoscience.
A questão é importante porque os rios e riachos do mundo trocam carbono com a atmosfera a taxas comparáveis com os ecossistemas terrestres e os oceanos. Se o aquecimento global continuar, um aumento nas emissões de carbono baseadas em fluxo poderia aumentar a concentração de CO2 na atmosfera.
“Este estudo é o primeiro a olhar para os efeitos da mudança climática sobre o ‘metabolismo’ do fluxo na escala continental usando observações de campo”, disse Alba Argerich, co-autor. “Essa abordagem leva em consideração a complexidade de um ecossistema, em oposição a experimentos controlados em que você recria versões simplificadas de um ecossistema.”
Argerich e outros cientistas monitoraram os fluxos de temperatura da água, oxigênio dissolvido e luz solar na superfície da água. Os pesquisadores também simularam o equilíbrio entre a produção primária líquida (o produto da fotossíntese por todos os organismos no córrego) e a respiração sob um aumento de 1 grau Celsius na temperatura da correnteza. O resultado líquido das simulações, eles relataram, foi uma mudança de 24 por cento em direção a mais respiração e emissões de CO2. No entanto, nem todos os fluxos respondem da mesma maneira.
A mudança em direção a mais emissões de CO2 parece ser mais pronunciada em fluxos mais quentes, descobriram os cientistas, enquanto correntes mais frias podem realmente ver um aumento na produção primária líquida. A ciclagem de carbono nos riachos também pode ser afetada por outros fatores, como plantas e micróbios no ecossistema do córrego e nutrientes que fluem para a água das terras vizinhas.
Argerich conduziu seu trabalho como pesquisadora no College of Forestry da Oregon State University. Ela é agora professora assistente na Escola de Recursos Naturais da Universidade do Missouri. Em trabalhos anteriores no HJ Andrews Forest, Argerich mostrou que pequenos riachos podem exportar quantidades surpreendentes de carbono tanto a jusante quanto para a atmosfera. “Este documento confirma o papel dos fluxos como uma fonte ativa de CO2 para a atmosfera, que pode ser ainda mais importante à medida que as temperaturas globais aumentam”, disse ela.
Chao Song, autor principal da Universidade da Geórgia, foi acompanhado por 26 co-autores dos Estados Unidos e da Austrália. Outras bacias hidrográficas representadas no estudo incluíram a Floresta Experimental de Luquillo em Porto Rico, o Parque Nacional Litchfield na Austrália, a Konza Prairie em Kansas e a Caribree-Poker Creeks Watershed e a Estação de Campo Toolik Lake no Alasca.

Referência:
Continental-scale decrease in net primary productivity in streams due to climate warming
Chao Song, Walter K. Dodds, […]Ford Ballantyne IV
Nature Geoscience (2018)
doi:10.1038/s41561-018-0125-5
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/579479-aquecimento-global-riachos-podem-emitir-mais-dioxido-de-carbono-em-um-clima-mais-quente)

Para entender a paralisação dos caminhoneiros

Texto escrito por José de Souza Castro:
O governo Temer poderia ter aprendido com o de Dilma Rousseff e evitado essa greve de caminhoneiros, fosse mais bem informado e mais inteligente. Idem, a esquerda e a direita, igualmente ignorantes. Isso ficou claro para mim, após dias de indecisão, ao ler na noite de sábado artigo do último ministro da Justiça no governo petista, Eugênio Aragão.
Ambos os governos se informaram pela Abin, que, no dizer de Aragão, deveria ser conhecida como Abig (Agência Brasileira de Ignorância). Para começar, por ser o único serviço secreto do mundo “cujos agentes são recrutados por concurso público e têm seus nomes arrolados no Diário Oficial da União”.
Quem tem Abin, diz o ex-ministro da Justiça, não precisa da CIA para ser engabelado. A Abin, esclarece Aragão, “não se destina à coleta conspirativa de dados essenciais à tomada de decisões estratégicas, mas a facilitar o serviço de conspiradores contra os interesses estratégicos da sociedade brasileira. Afinal, não se presta nem para recortar jornais de três semanas atrás!”.
Parêntesis: quem precisa de uma Abin, se pode se informar pela TV Globo e pela Globo News em tempo integral? Se a questão é ser engabelado...
O artigo de Aragão tem esse título: “A Esquerda não entende os caminhoneiros!”. Tentemos entendê-los, pois.
Há dois tipos de transportes rodoviários de carga no Brasil, escreve Aragão. Um oferecido por grandes empresários que faturam e pagam suas obrigações com prazos mais largos, têm capital de giro e geralmente diversificam seus investimentos. São capitalistas e amigos dos golpistas.
Aqueles mesmos que, eu suspeito, fecharam o acordo com Temer para pôr fim ao locaute.
Outro tipo de transporte é levado a efeito por pequenos fretistas que se oferecem às indústrias e ao comércio para transportar cargas, recebendo por viagem, assumindo os custos de sua atividade e os riscos inerentes à precariedade de nossa infraestrutura logística. Têm que cobrir o preço do combustível, do pedágio, entre outros, com parte da féria ganha.
“Cumprem itinerários e prazos rígidos que lhes são impostos por contratantes e não dispõem de flexibilidade financeira. O dinheiro que recebem é no mais das vezes de preço fixo e gasto em boa parte no período de descanso obrigatório e inevitável entre um frete e outro, ou no retorno sem carga. Devem horrores às financeiras e vivem na estreita greta de sua (in)viabilidade econômica. Longe de suas famílias, passam dias e noites dirigindo seus caminhões, mantendo-se acordados com uso de rebites e altas doses de cafeína, seja na forma de chimarrão ou de cafezinho requentado em garrafa térmica”, descreve Aragão.
Esses pobres coitados, leio aqui, fizeram em 2015 duas greves. Na primeira, em fevereiro, pediam redução do preço do diesel e do pedágio, tabelamento do frete e mudança na legislação. Depois de duas semanas de paralisação, arrancaram de Dilma a Lei dos Caminhoneiros, que beneficiou mais o primeiro tipo de transporte – o dos grandes grupos.
Em novembro, num movimento convocado via redes sociais, pararam novamente, mas desta vez a principal reivindicação era de se fazer o impeachment da presidente reeleita em 2014.
Taí uma razão para que, agora, a esquerda não entenda os caminhoneiros...
Estes também não se entendem. Não compreendem que “caminhoneiros individuais são uma grande massa de empreendedores proletarizados numa economia de consumo de escala que busca crescente eficiência através da negação dos direitos dos mais vulneráveis da cadeia produtiva”, como percebe Aragão. “Muitos foram expulsos do mercado de trabalho e acreditaram que sobreviveriam num nicho de razoável, ainda que modesto custo-benefício. Enganaram-se redondamente. Com o decréscimo da atividade econômica a partir de 2014, muitos ficaram ao relento, sem frete. Não tinham margem para assumir a desaceleração da demanda”, completa.
E avança:
“Com a redução do frete e a disponibilidade enorme de caminhões ociosos, empresários contratantes resolveram repassar suas perdas para o setor de cargas individuais, mais vulnerável, e reduziram o valor da féria. Era aceitar ou largar. Viagens antes pagas por 8 mil reais, passaram a oferecer apenas 5 ou 6 mil, na cartelização usual da demanda de transporte rodoviário. Só que os custos da atividade transportadora não diminuíram. Pelo contrário. O governo, insensível para com as necessidades do setor, liberou o preço do combustível na refinaria e na bomba, bem como autorizou aumentos é mais aumentos do pedágio rodoviário.”
E deu no que deu!
A esquerda: o ministro que antecedeu Aragão na Justiça, José Eduardo Cardozo, determinou, durante a paralisação de novembro de 2015, a aplicação de multa de R$ 1.915,00 ao caminhoneiro que participasse de bloqueio nas rodovias! A direita: que venham o Exército e o Bolsonaro!
(fonte: blog da Kika Castro)

Pouco muda com a saída de Pedro Parente da Petrobras

Texto escrito por José de Souza Castro:
Aposto que nenhum assunto mereceu mais atenção no Brasil, nesta sexta-feira, do que a demissão de Pedro Parente da presidência da Petrobras. O coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros, José Maria Rangel, líder da última greve nas refinarias, classificou a saída de Parente como uma vitória.
A nota da FUP, divulgada à tarde, quando a cotação das ações da Petrobrás caía 20% na Bovespa, não será capaz de alterar a narrativa das televisões, rádios e jornais de que Pedro Parente caiu por suas virtudes. Para Rangel, porém, o ex-presidente da maior estatal brasileira vai entrar para a história como um péssimo gestor. “Aquele que fez os brasileiros ficarem sem gasolina, sem energia elétrica, sem mantimentos. Ele não merece nem sequer passar mais na porta da Petrobras”, disse o coordenador-geral da FUP.
Não vou repetir o que penso de Pedro Parente. Escrevi sobre ele várias vezes neste blog.
Seus atos e palavras falam por si. Tenho que reconhecer que é esperto. Ao sentir que seu barco ia virar, tratou de se ajeitar. Escreveu Raquel Landim aqui:
“Depois de deixar a Petrobras, Pedro Parente pode ser o novo presidente-executivo da BRF, gigante de alimentos resultado da fusão de Sadia e Perdigão. Parente assumiu recentemente o comando do conselho de administração da empresa no lugar do empresário Abilio Diniz, e é grande a torcida dentro da BRF para que ele passe para a presidência-executiva, cargo que hoje está vago.”
A repórter especial da “Folha de S.Paulo” diz ainda que Parente vem promovendo uma reestruturação no comando da BRF, “que atravessa uma forte crise, após seguidos prejuízos e as acusações de fraude da Operação Carne Fraca”.
Pois é: a Lava Jato serviu para que Parente conseguisse uma rica boquinha na estatal e, agora, presumivelmente, na BRF. Há algo de cínico, parece-me, quando ele escreve em sua carta de renúncia entregue de manhã a Temer, referindo-se à greve dos caminhoneiros e petroleiros:
“Sempre procurei demonstrar, em minha trajetória na vida pública que, acima de tudo, meu compromisso é com o bem público. Não tenho qualquer apego a cargos ou posições e não serei um empecilho para que essas alternativas sejam discutidas”.
Que alternativas? Ele não esclarece. Segundo a carta, porém, são “alternativas que o governo tem pela frente”. Será que poderá mudar a política de preços? Ou acabar com as privatizações na Petrobras, como querem os petroleiros?
Se depender de Parente (e dos homens mais poderosos do planeta), nada muda, pois a Petrobras, garantiu ele a Temer, “é hoje uma empresa com reputação recuperada, indicadores de segurança em linha com as melhores empresas do setor, resultados financeiros muito positivos, como demonstrado pelo último resultado divulgado, dívida em franca trajetória de redução e um planejamento estratégico que tem se mostrado capaz de fazer a empresa investir de forma responsável e duradoura, gerando empregos e riqueza para o nosso país. E isso tudo sem qualquer aporte de capital do Tesouro Nacional, conforme nossa conversa inicial. Me parece, assim, que as bases de uma trajetória virtuosa para a Petrobras estão lançadas”.
A tal “conversa inicial” foi entre ele e Michel Temer, em maio de 2016, logo que este assumiu o lugar de Dilma Rousseff. Parente, por sua vez, entrou no lugar de Aldemir Bendine, o último presidente da estatal nomeado no governo petista em fevereiro de 2015 e que está preso desde julho de 2017. Portanto, preso oito meses antes de ser condenado a 11 anos de prisão pelo juiz Sérgio Moro, o herói da Lava Jato.
Será que algo parecido está reservado a Pedro Parente por causa, por exemplo, da venda a preço de banana de valiosos ativos da Petrobrás? (Isso também não é corrupção?) Tenho minhas dúvidas a respeito. Mesmo se o barco virar de todo, a Marinha dos Estados Unidos – sua Quarta Frota, posicionada no Atlântico Sul logo depois da descoberta do Pré-Sal – está aí para não deixar que pessoas como Pedro Parente, acusadas de entreguistas das riquezas brasileiras, sejam castigadas.
E para que o que ele vendeu tão generosamente seja recuperado para os brasileiros.
A história tem demonstrado que, uma vez dos Estados Unidos, ninguém tasca!
Antes de terminar, convém contrapor uma opinião ao que Parente faz de sua gestão à frente da Petrobras. Recorro-me à nota da Comissão Executiva Nacional do PT, divulgada à tarde. Ao balanço:
“Em dois anos de governo golpista, perdemos a soberania da Petrobras sobre as reservas do pré-sal, que estão sendo vendidas a preços irrisórios. As sondas e plataformas voltaram a ser importadas (e com isenção de impostos!), destruindo o que restou da nossa indústria naval. Puseram à venda a Liquigás, que distribui gás de cozinha a preços justos, e a BR Distribuidora. Anunciaram a venda de nossas refinarias, resultado de mais de 50 anos de investimentos.
Sob a direção de Parente, as refinarias brasileiras reduziram a produção em 30%, abrindo nosso imenso mercado para os estrangeiros, que ganharam ainda uma criminosa isenção de impostos sobre importação do diesel. As importações de óleo diesel dos Estados Unidos passaram de 41% do consumo interno para 82%. Essa política antinacional produziu 229 aumentos dos combustíveis em 24 meses, contra 16 reajustes em 12 anos de governos do PT.
Parente fez manobras contábeis e divulgou balanços mentirosos para aumentar os lucros dos acionistas privados e desvalorizar o patrimônio da Petrobras. A Rede Globo e os grandes jornais censuram essas denúncias que vêm sendo feitas corajosamente pela Federação Única dos Petroleiros e seus sindicatos. São os trabalhadores que historicamente defendem a Petrobras.”
E tudo isso parece fadado a continuar. No começo da noite, Temer anunciou o nome do novo presidente, Ivan Monteiro, acrescentando: “Não haverá qualquer interferência na política de preços da companhia. Ivan Monteiro é a garantia de que este rumo permanece inalterado”.
Ele era vice-presidente do Banco do Brasil quando Aldemir Bendine era presidente. Aceitou seu convite para ser o diretor executivo da Área Financeira e de Relacionamento com Investidores da Petrobras e foi mantido nesse cargo por Parente. Ivan Monteiro deve manter em seus cargos todos os diretores.
E la nave vá...
(fonte: blog da Kika Castro)

Cuidar da Casa Comum, para evitar desastre anunciado

De origens indígenas ancestrais, o Bem Viver revela-se uma forma política de resistência ao capitalismo e à modernidade — assim como alternativa a esse mesmo sistema capitalista
Por Ivo Lesbaupin

“Bem viver” é uma concepção de vida proveniente dos povos indígenas andinos, presente tanto nos Aimara (Bolívia) quanto nos Quechua (Bolívia e Equador), e também dos povos Guarani (Brasil, Paraguai): Suma Qamaña em aimara, Sumak Kawsay em quechua, Teko Porã em guarani. Não tem uma definição única, mas podemos indicar alguns elementos comuns. Segundo esta concepção, não existe de um lado o ser humano e de outro a natureza, mas todos – seres humanos e demais seres – fazem parte da natureza. Com ela devemos viver de forma harmoniosa: “para a perspectiva do Viver Bem, a natureza não é um objeto; não é uma fonte de recursos e matérias primas; é um ser vivo. Esta dimensão ecológica da realidade reconhece que a natureza é indivisível e intrinsecamente imbricada à vida dos seres humanos; somos parte da natureza” (Isabel Rauber) .

Num artigo intitulado “Nem melhor, nem bem: viver em plenitude”, Esperanza Martinez diz: “Só o fato de nos atrevermos a pensar que a meta é a plenitude e que a plenitude supõe relações de harmonia, não de hostilidade; condições de saúde, não de doença; relações de solidariedade, não de competição, nos leva a repensar a nós mesmos com a natureza e a superar a ideia cultivada na modernidade e santificada pela ciência ocidental (a religião) de que a natureza é algo hostil, que devemos dominar para sobreviver, e que aqueles que sobreviverão sempre serão os mais fortes”.
Duas coisas são centrais no bem viver: o sentido de pertença à natureza e o sentido da comunidade. Para o economista equatoriano Pablo Dávalos, “essa noção foi recriada a partir de uma confirmação das vivências ancestrais dos povos indígenas e de sua forma de construir sua socialidade e sua relação com a natureza.”

“Na recuperação de suas formas ancestrais de convivência, os povos indígenas encontraram, de um lado, as formas políticas de resistência ao capitalismo e à modernidade e, de outro, as alternativas para esse mesmo sistema capitalista. (…)
“O Sumak Kawsay propõe, além disso, uma forma de relacionamento diferente entre os seres humanos, na qual a individualidade egoísta deve se submeter a um princípio de responsabilidade social e compromisso ético, e um relacionamento com a natureza no qual esta é reconhecida como uma parte fundamental da socialidade humana. (…)
“A noção do Sumak Kawsay quer tornar a sociedade responsável pela maneira através qual produz e reproduz suas condições de existência, a partir de uma lógica marcada pela ética, na qual as situações particulares formam o interesse geral, e o bem-estar de uma pessoa não se constrói sobre os demais, mas sim baseado no respeito aos outros, isto é, meu bem-estar pessoal depende do bem-estar dos demais” .

Priorizar a vida (não apenas a vida humana)
Em seu livro sobre o “bem viver”, Alberto Acosta afirma: “Com sua proposta de harmonia com a Natureza, reciprocidade, relacionalidade, complementariedade entre indivíduos e comunidades, com sua oposição ao conceito de acumulação perpétua, com seu regresso a valores de uso, o Bem Viver, uma ideia em construção, livre de preconceitos, abre as portas para a formulação de visões alternativas de vida. (…)
“O Bem Viver, sem esquecer e menos ainda manipular suas origens ancestrais, pode servir de plataforma para discutir, consensualizar e aplicar respostas aos devastadores efeitos das mudanças climáticas e às crescentes marginalizações e violências sociais. Pode, inclusive contribuir com uma mudança de paradigmas em meio à crise que golpeia os países outrora centrais. Neste sentido, a construção do Bem Viver, como parte de processos profundamente democráticos, pode ser útil para encontrar saídas aos impasses da Humanidade. (…)
“Sem minimizar a contribuição indígena, temos de aceitar que as visões andinas e amazônicas não são a única fonte inspiradora do Bem Viver. Em diversos espaços do mundo – e inclusive em círculos da cultura ocidental – há muito tempo se têm levantado diversas vozes que poderiam estar em sintonia com essa visão, como os ecologistas, as feministas, os cooperativistas, os marxistas e os humanistas” .
Por que falamos de “bem viver”? Em primeiro lugar, porque o tipo de desenvolvimento que temos hoje vai nos levar ao desastre. A humanidade está caminhando rapidamente para tornar a Terra inabitável: estamos desmatando numa velocidade incrível por toda parte, seja para vender a madeira, seja para exportá-la, seja para dar lugar a grandes pastagens e plantações. As florestas são fundamentais para garantir a biodiversidade, mas também, entre outras coisas, para termos chuvas regulares e lençóis freáticos abundantes.
Nossa água doce está sendo utilizada em uma quantidade muito acima de sua capacidade de reposição. Além disso, ela está sendo poluída pela falta de saneamento (despejo de esgotos diretamente nos rios), pelos agrotóxicos, pelas indústrias, pela mineração (na qual muitas vezes são usadas substâncias químicas). Nossos alimentos são cada vez mais envenenados pelos pesticidas e herbicidas – o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, à frente dos EUA.
A situação mais séria que estamos vivendo no que diz respeito ao meio ambiente é o aquecimento global – do ar, da água do mar, da terra. É evidente a influência humana no sistema climático – graças ao modo de produção atual – e as emissões recentes de gases de efeito estufa são as mais altas da história. O ar atmosférico e o oceano se aqueceram, os volumes de neve e de gelo nos glaciares diminuíram e o nível do mar se elevou. Desde meados do século XIX, o ritmo de elevação do nível do mar foi superior à média dos dois mil anos anteriores. O aquecimento global é fruto da utilização intensiva dos combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão) – que têm sido a principal fonte de energia na era industrial. O aquecimento provoca as mudanças climáticas a que temos assistido.
Nosso sistema econômico, para gerar lucro, precisa incessantemente produzir e vender. Desenvolvimento, para o capitalismo, é crescimento econômico: o indicador para medir o desenvolvimento é o PIB (Produto Interno Bruto): quanto mais produzir e quanto mais gastar, mais desenvolvido é o país. Mas o PIB não se preocupa com o ser humano: por exemplo, se houver muitos acidentes, o PIB aumenta, porque há mais gastos em saúde. Isto não quer dizer que a população melhorou de vida.
A natureza é considerada como um objeto a ser explorado. O capitalismo não leva em consideração que a Terra é finita, seus recursos são limitados. Alguns desses recursos não são renováveis e, por causa do consumo excessivo, em algum momento vão deixar de existir. Outros são renováveis, mas a velocidade com que estão sendo utilizados e a insustentabilidade de seu uso fazem com que não haja tempo de regeneração.

Caminhos de bem viver
Precisamos redefinir o desenvolvimento não como crescimento econômico (produtivismo-consumismo), mas “como um processo de desdobrar conscientemente os potenciais inerentes a cada um e a todos os seres humanos, indivíduo, família, comunidade, nação, assim como a espécie humana como um todo” (Marcos Arruda).
Se continuarmos organizando a economia como sempre organizamos, produzindo e consumindo sem cessar, utilizando os combustíveis fósseis (petróleo, gás, carvão), o sistema ecológico da Terra entrará em colapso. Além de um certo patamar, o aumento da temperatura (+ de 2º C, por exemplo), provocará mudanças climáticas mais fortes que as atuais: secas intensas ou chuvas excessivas e inundações, temperaturas altas ou baixas demais, perda da capacidade de reposição da água, tornados e ciclones, e assim por diante.
O bem viver nos inspira para pensar novas formas de viver que superem a concepção produtivista-consumista, depredadora da natureza, que leve em conta as exigências e os limites da Terra, que permita extrair dela meios de vida sem destruir as condições de vida. Não se trata de voltar atrás e todos retornarem à vida no campo. Trata-se de se apoiar nos seus princípios de vida para pensar e organizar a nossa vida social em convivência com a natureza e não em confronto com ela, em harmonia entre nós e não em guerra.
Só há um caminho para evitar este desastre anunciado pelos cientistas e reforçado pelo Papa Francisco em sua encíclica “Cuidar da Casa Comum” (Laudato Sí): mudar a forma como fazemos a economia, mudar a maneira como organizamos a sociedade. É possível! Em várias áreas e setores, já sabemos a solução. Por exemplo, no caso da alimentação, podemos abandonar a agricultura à base de agrotóxicos e transgênicos e produzir alimentos saudáveis: é a agroecologia. Em vários lugares do Brasil e do mundo, há regiões onde se pratica a agroecologia e se produzem alimentos orgânicos. O que falta é tornar esta prática uma política pública para toda a agricultura, para todo o país e não apenas em alguns poucos lugares.
Nós podemos – e devemos – substituir a energia produzida com combustíveis fósseis pelas energias renováveis – solar, eólica (ventos), oceânica, geotérmica etc. Veja bem, não basta trocar de energia, é preciso trocar também o modo como ela é feita. A energia tem de estar a serviço da sociedade, da comunidade, das pessoas: portanto, uma empresa não pode entrar numa área determinada e instalar suas torres de catavento às custas do bem-estar dos trabalhadores rurais ou dos moradores que vivem aí. Energia é um serviço público, não é um negócio qualquer: seu objetivo é servir às necessidades das pessoas. Portanto, a localização das torres é algo a ser pensado e discutido com as comunidades.
Nós somos um dos países que mais recebe irradiação solar por ano, praticamente em toda parte. Poderíamos ser o primeiro país em tecnologia deste tipo de energia, não precisamos de mais usinas hidrelétricas, o sol é mais que suficiente para nós. A energia solar permite a instalação em regiões afastadas, isoladas. Precisamos valorizar a descentralização da produção de energia, não construir grandes usinas solares, repetindo o erro dos megaprojetos de usinas hidrelétricas. A energia é um serviço para a sociedade, deve portanto ser regulada pelo poder público junto com os cidadãos/ãs.
Quem resolveu o problema da água no semiárido nordestino? Foi a sociedade civil, foi o esforço dos trabalhadores rurais, com a colaboração de técnicos solidários, com o apoio de inúmeras organizações da sociedade civil, a partir da experiência e da criatividade dos que vivem do trabalho na região. Hoje, o sucesso das cisternas para consumo humano e para a produção e todas as demais tecnologias sociais que são usadas na região, permite enfrentar os períodos de pouca chuva.
Temos de parar de extrair minérios da terra. Um pequeno país da América Central, El Salvador, conseguiu em 2017 uma vitória extraordinária: proibiu a exploração de minerais metálicos. Foi o resultado de uma luta que durou anos dos movimentos sociais com o apoio das Igrejas e chegou a este resultado. Um economista estudioso da questão ambiental considera que nós não temos de extrair mais nada. O que já foi extraído é suficiente: de agora em diante, devemos só utilizar materiais reciclados.
Para mostrar que isto é possível, ele exemplifica que, em 2003, nos Estados Unidos, cerca de 71% de todo o aço produzido provinha da recuperação. “A taxa de reciclagem de aparelhos domésticos nos EUA chega a 90%” (Lester Brown). Na Europa, esse índice se aproxima de 95%.

Repensar
Precisamos repensar a cidade: a cidade para o bem-estar dos habitantes (e não para os carros). Pensar a construção das habitações de modo que os materiais utilizados sejam poupadores e geradores de energia. É preciso repensar os transportes urbanos, investindo num sistema de transporte misto, diversificado, transporte público – apoiado principalmente nos trilhos (trem, metrô, bonde/VLT) -, e também em linhas de ônibus com vias preferenciais, ciclovias e ruas para pedestres. Incentivar o uso da bicicleta – criando facilidades e oferecendo condições de segurança –, como já existe em alguns países.
Nesta nova concepção, é preciso repensar a própria fabricação de bens e o seu desmonte. A construção dos prédios deve ser de tal modo e com tais materiais que permita, no futuro, quando vierem a ser desfeitos, que os materiais possam ser reutilizados, reaproveitados. Os aparelhos devem ser produzidos de tal forma que possam ser desmontados, e todas as suas partes reaproveitadas. Devem ser feitos de modo a poderem ser consertados em vez de descartados, a poderem substituir apenas uma peça quando esta peça apresentar defeito. Eles devem ser feitos para durar, não para serem trocados em pouco tempo. Há produtos que poderiam ter garantia de dez, vinte anos ou mais, em vez de um ou dois anos.

Conclusão
A continuidade do modo atual de organizar a sociedade e a economia nos levará a catástrofes climáticas e à aniquilação da humanidade. Precisamos redirecionar a economia, para atender às necessidades das pessoas sem destruir as condições naturais que nos permitem viver. Portanto, não é o lucro o objetivo que deve nos orientar, mas a vida. Viver em harmonia entre nós e com a natureza.

Citações bibliográficas:
Cf. Isabel Rauber, apud http://isabelrauber.blogspot.com, 22/08/2010.
“Nem melhor, nem bem: viver em plenitude” (http://www.ihuonline.unisinos.br/artigos/3448-esperanza-martinez
htt://www.ihu.unisinos.br/159-noticias/entrevistas/3544-sumak-kawsay-uma-forma-alternativa-de-resistencia-e-mobilizacao-entrevista-especial-com-pablo-davalos. Todo o número 340 da Revista IHU online é sobre o bem viver: http://www.ihuonline.unisinos.br/edicao/340 .
Alberto Acosta. O bem viver. Uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo, Autonomia Literária, Elefante, 2016, p. 33-34. A concepção do “bem viver” foi incorporada nas constituições do Equador (2008) e da Bolívia (2009). É uma iniciativa inédita e muito significativa. Não quer dizer, porém, que está sendo praticada: em ambos os países, já houve conflitos entre governos e alguns povos indígenas por conta da exploração dos recursos naturais.
Tornar real e possível, Petrópolis, Vozes, 2006, p. 216.
Lester Brown, Mais economia, menos recursos, 2011 (http://vivapernambuco.com.br/index.php/item/1564-mais-economia-menos-recursos). Ver também sua obra fundamental: Plano B 4.0 – Mobilização para salvar a civilização. 2009 (original em inglês: http://www.earth-policy.org/books/pb4; pode ser baixado em português aqui).
Ver as cartilhas: Carlos Mesters e Francisco Orofino. Cultura do bem-viver, partilha e poder. Círculo bíblico sobre Fé e Política. CEBI e Iser Assessoria. 2013; Ivo Lespaupin. Para evitar o desastre: construir a sociedade do bem viver. São Paulo, Abong e Iser Assessoria, 2017, 44 págs. Pode ser baixada aqui.
(fonte: https://outraspalavras.net/destaques/cuidar-da-casa-comum-evitar-o-desastre-anunciado/)

As complexas sociedades indígenas da Amazônia

Novas descobertas sugerem que vastas porções da grande floresta não são intocadas: foram manejadas por povos pré-colombianos durante séculos, com agricultura organizada e possível formação de cidades-jardins
Por Marcos Pivetta, na Revisa Pesquisa Fapesp | Imagem: Mauricio de Paiva

A descoberta recente de 81 sítios arqueológicos pré-colombianos aparentemente densamente povoados em uma área do sul da Amazônia que se julgava inabitada ou pouco povoada entre meados do século XIII e o início do XVI reforça uma hipótese defendida por boa parte dos arqueólogos nos últimos 15 anos: a de que a grande floresta tropical, que se estende por terras brasileiras e de mais oito países, abrigava sociedades complexas e uma numerosa população antes da chegada dos europeus às Américas. Os números variam enormemente, mas as estimativas atuais mais aceitas apontam para algo entre 8 e 10 milhões de indígenas, um contingente similar ao dos incas que ocuparam nos Andes uma área muito menor no período pré-colonial, e não no máximo 2 milhões de pessoas, como dizia a norte-americana Betty Meggers (1921-2012), pioneira da arqueologia amazônica, para quem a região era um grande vazio populacional.
Os novos sítios se situam na bacia do Tapajós, no norte de Mato Grosso, em uma área relativamente plana de terra firme, livre de inundações, pontuada por suaves elevações de 100 a 300 metros (m). As regiões de terra firme, também denominadas áreas interfluviais, representam pelo menos 70% dos 5,5 milhões de quilômetros quadrados (km2) da Amazônia. Normalmente, não são alvo de buscas arqueológicas. E a razão é simples: essas áreas estão fora das planícies inundáveis, as várzeas no entorno dos rios, que são as zonas mais férteis e com mais riqueza natural. Em tese, a maior parte das antigas populações pré-coloniais deveria ter se concentrado nas várzeas, pois a terra firme seria muito pobre em recursos para sua sobrevivência. “As áreas interfluviais sempre foram negligenciadas, mas nosso estudo indica que elas podiam abrigar grandes concentrações humanas”, comenta o arqueólogo brasileiro Jonas Gregório de Souza, que faz estágio de pós-doutorado na Universidade de Exeter, no Reino Unido, primeiro autor do estudo sobre os sítios do Tapajós, publicado em março na revista científica Nature Communications.
Com o auxílio de imagens de satélites e idas a campo, Souza e colegas britânicos de Exeter e brasileiros da Universidade Federal do Pará (UFPA), da estadual de Mato Grosso (Unemat) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificaram no Tapajós 104 construções ou desenhos geométricos escavados no solo, os chamados geoglifos. São valas e valetas geralmente de formato circular, com diâmetros que variam de 11 m a 363 m, dentro das quais há, em alguns casos, resquícios de velhas moradias. Também foram encontrados na área, situada entre os rios Aripuanã, Juruena e Teles Pires, peças de cerâmica, traços de caminhos que ligavam as aldeias e trechos com terra preta, um solo mais escuro formado a partir de detritos orgânicos acumulados onde houve ocupações humanas prolongadas.
Cinturão de ocupação humana
Descobrir esse tipo de sítio pré-histórico, pontuado por geoglifos ou por extensas valetas escavadas na terra, deixou de ser algo inédito na Amazônia nas duas últimas décadas. Há dezenas de lugares com essas formas geométricas na floresta tropical, desde a fronteira da Bolívia com o Acre, onde as figuras também podem exibir formas quadradas ou hexagonais, até a região do Alto Xingu, também no norte de Mato Grosso. Sítios pré-colombianos circundados por valetas ou paliçadas também existem na confluência dos rios Negro e Solimões, a cerca de 30 km de Manaus, no Amazonas, no Amapá e na Guiana Francesa. O diferencial da nova descoberta reside na localização das aldeias. “Focamos nossa pesquisa no Tapajós justamente por essa área estar entre os geoglifos do Acre e os sítios do Xingu. Queríamos saber se nessa nova região também haveria sítios similares”, explica Souza. “Os sítios do Tapajós não são idênticos aos do Acre ou do Xingu. Parecem pertencer a uma outra tradição cultural, mas que certamente está relacionada a essas duas áreas.”

Os autores do estudo afirmam que, se olhados em conjunto com os sítios da Bolívia, do Acre e do Xingu, os resquícios de presença humana no Tapajós fazem parte de um cinturão de 1.800 km de extensão com evidências de ocupação humana no sul da Amazônia no período pré-colonial. Apesar de haver distinções regionais, um grande traço comportamental uniria os habitantes dessa faixa meridional da floresta: esses povos desaparecidos, que viveriam em aldeias fortificadas, deixaram marcas no solo de sua presença. “Há 10 anos, prevíamos que também deveria haver geoglifos na bacia do Tapajós e isso se confirmou agora”, afirma o paleontólogo Alceu Ranzi, ex-professor das universidades Federal do Acre (Ufac) e de Santa Catarina (UFSC). Coautor do novo estudo, Ranzi foi um dos primeiros a identificar, mais de duas décadas atrás, essas grandes figuras geométricas em território acreano. De acordo com projeções e cálculos de ocupação populacional feitos por Souza e seus colegas, entre 500 mil e 1 milhão de indígenas teriam vivido nesse cinturão em até 1.500 aldeias entre os anos 1250 e 1500. A área dessa faixa equivale a 400 mil km2, apenas 7% de toda a bacia amazônica.
“Cidade-jardim”
Talvez o exemplo mais espetacular desse tipo de ocupação nas franjas meridionais da floresta resida nos sítios arqueológicos situados nas terras hoje habitadas pelo povo Kuikuro, dentro da reserva indígena do Xingu, no norte de Mato Grosso, a leste dos novos achados no Tapajós. Ao lado de colegas brasileiros e de dois índios dessa etnia, o antropólogo norte-americano Michael Heckenberger, da Universidade da Flórida, descreveu, em um artigo na revista Science em 2003, um grupo de 19 aldeias de formato circular, as maiores protegidas por fossas de até 5 m de profundidade e muros de paliçadas, interligadas por uma malha de estradas de terra batida. Os pesquisadores estimaram que entre 2.500 e 5.000 pessoas podem ter residido nas maiores aldeias.
Estudioso há três décadas do Xingu, onde já viveu e ainda passa temporadas, o antropólogo denomina esse tipo de ocupação de “cidade-jardim”, uma espécie de arquitetura amazônica que teria florescido no período pré-colonial. “Seria uma forma ‘galáctica’ de urbanismo pré-histórico, sem um centro de comando, mas com aglomerados representando pequenas entidades políticas independentes dentro de um sistema igualitário de poder regional”, explica Heckenberger. Um dos traços desse tipo de ocupação seria a profunda integração dos habitantes com os recursos da floresta, que não seria simplesmente mantida intacta, como algo sagrado, mas manejada de maneira a garantir o sustento de seus povos.
Além dos traços profundos no solo amazônico, a presença de vastas populações por um longo período teria deixado marcas sutis na floresta tropical, tão tênues que, até pouco tempo atrás, eram ignoradas ou interpretadas como elementos da configuração natural da mata. Estudos recentes feitos por biólogos, ecólogos, geólogos, botânicos, geralmente em parceria com arqueólogos, têm sugerido que vastas porções da floresta não são áreas virgens, intocadas pelo homem, mas sim setores da mata manejados pelos índios ao longo de gerações para seu sustento. Um artigo publicado em março de 2017 na Science indicou que havia maior concentração e diversidade de árvores que podem ser fonte de alimento perto dos antigos assentamentos humanos. O trabalho, cuja primeira autora era a bióloga Carolina Levis, doutoranda no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e na Universidade de Wageningen, na Holanda, listou 85 espécies vegetais que foram usadas e domesticadas pelos índios, como o açaí, a castanha-do-pará e a seringueira.
Castanheiras em torno dos sítios
Em um trabalho de 2015 publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, um grupo de pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos mostrou que as castanheiras parecem se concentrar em torno das áreas ricas em terra preta que contornam os sítios arqueológicos. Essa correlação é mais visível nos antigos assentamentos humanos que ficavam no entorno dos rios Amazonas e Madeira e, em menor escala, no Tapajós (ver mapa). “Os índios pré-colombianos domesticaram o arroz na Amazônia há 4 mil anos e moldaram partes da floresta plantando seringueiras, castanheiras e outros cultivos”, comenta o arqueólogo Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP), um dos grandes especialistas na pré-história da região e coautor do estudo. Para Neves, a descoberta dos novos sítios no Tapajós não é surpreendente. “Em qualquer lugar da Amazônia que escavamos, encontramos algo. Muitas áreas não estudadas podem ter abrigado culturas complexas”, sugere.
Monumento pré-colombiano feito de pedra, perto do litoral do Amapá
Uma zona em que a pesquisa arqueológica começou a se desenvolver há pouco mais de 10 anos é a costa norte do Amapá, perto da fronteira com a Guiana Francesa. Inicialmente, essa área chamou a atenção por causa do sítio do Rego Grande, no município de Calçoene, distante 460 km ao norte de Macapá. Apelidado de Stonehenge amazônico (o conhecido círculo de pedras erguidas há 4,5 mil anos no sul da Inglaterra), o lugar abriga um pequeno conjunto de megálitos, construções humanas feitas com grandes blocos de granito. Datações de carbono 14 realizadas pelo casal de arqueólogos Mariana Petry Cabral e João Darcy de Moura Saldanha, então a serviço do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (Iepa), indicaram que o sítio, provavelmente usado para fins cerimoniais e talvez funerários, foi ocupado entre 700 e mil anos atrás, também antes da colonização europeia.
Apesar de ter se mudado do Amapá, a dupla continua os estudos na região, onde calcula haver 500 sítios pré-históricos. “Descobrimos perto do Oiapoque antigos assentamentos humanos protegidos por fossos escavados no chão”, comenta Saldanha, que defendeu doutorado sobre essa região no ano passado no MAE-USP. “Ali havia também a cultura de promover grandes movimentações de terra.” Do outro lado da fronteira, na Guiana Francesa, os arqueólogos locais denominam os sítios protegidos por valas, geralmente situados em lugares mais elevados, de montanhas coroadas. Saldanha e Mariana ainda encontraram outro tipo de estrutura monumental associada a práticas cerimoniais e funerárias: círculos formados por grandes troncos de madeira que marcavam e delimitavam a presença de poços funerários com sepultamentos humanos, alguns em urnas antropomórficas. Não se sabe se os antigos habitantes da costa amapaense dividiam as mesmas tradições culturais dos povos que fizeram os geoglifos na Bolívia e no Acre e as valetas e construções geométricas do Xingu e do Tapajós. Há, no entanto, um possível elemento de ligação, apesar da distância geográfica. Nos tempos pré-colombianos, as terras do litoral perto da Guiana Francesa eram dominadas por tribos que falavam majoritariamente línguas da família aruaque.
Fragmentação linguística
Boa parte dos sítios arqueológicos que registram extensos trabalhos de movimentação de terra, como os geoglifos do Acre e as antigas aldeias do Xingu, situa-se em áreas que foram ocupadas por falantes de línguas das famílias aruaque e tupi-guarani. Segundo a linguista Patience Epps, da Universidade do Texas em Austin, as áreas em que essas duas famílias predominam na Amazônia tendem a não ser contíguas. “Durante muito tempo, esse padrão foi interpretado como um indicador de que havia um relativo isolamento entre os grupos de indígenas, que seriam formados por pequenas populações sem muita interação”, comenta Patience. “Mas argumento que essa fragmentação linguística poderia também ser entendida como um resultado da interação desses grupos, que seria compatível com a visão de que havia nessas áreas populações densas e estruturas sociais complexas.”
Patience estuda como os falantes das diferentes línguas da Amazônia se relacionam e travam contato, um tipo de proximidade que se expressa sobretudo pelo empréstimo de palavras de um idioma para outro e de semelhanças gramaticais. Há anos, ela coleta dados sobre o léxico e a gramática de centenas de línguas da região. Ela constatou, por exemplo, que as línguas das famílias aruaque e tupi-guarani são as que mais cederam palavras ou expressões para outras línguas. Alguns termos ou expressões, como os que designam a ave garça ou o numeral 4, são disseminados por toda a bacia amazônica e compartilhados por várias línguas. “Temos evidência desse tipo de interação em algumas zonas multilinguísticas, como o Alto rio Negro e o Xingu”, explica a estudiosa. “Nessas áreas, as diferenças entre as línguas fazem parte de como os grupos marcam seu lugar e seu papel social dentro de um sistema interativo maior, como as diferentes partes de uma grande engrenagem.”
Apesar de os indícios arqueológicos, botânicos e até linguísticos serem crescentes e compatíveis com a existência de uma grande população ao menos em setores da Amazônia pré-colonial, a questão demográfica ainda permanece em aberto. Se são cada vez mais raros os arqueólogos que pensam como Betty Meggers e ainda consideram que a região foi quase um deserto de gente antes da chegada dos europeus, também não há evidências que sustentem algumas estimativas exageradas, como as de que os povos pré-colombianos da Amazônia poderiam ter abrigado 50 milhões de pessoas. “Não creio que o estágio atual das pesquisas nos permita fazer generalizações para toda a Amazônia. Seria como generalizar a história de um grande continente”, pondera a arqueóloga boliviana Carla Jaimes Betancourt, da Universidade de Bonn, na Alemanha, que estuda sítios de seu país natal. “Temos evidências de grandes populações e de uma maior densidade demográfica em algumas regiões, como o Xingu e Moxos [Bolívia] ”, afirma Carla. “Mas também devemos admitir que algumas pesquisas, como as de [Dolores] Piperno [do Instituto de Pesquisa Tropical Smithsonian], comprovam que existiram igualmente áreas mais vazias.”
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Projeto
A arqueologia do Holoceno Médio e o início da domesticação de paisagens no sudoeste da Amazônia (nº 17/11817-9); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável: Eduardo Góes Neves (USP); Investimento R$ 161.053,20.
Artigos científicos
SOUZA, J. G. et al. Pre-Columbian earth-builders settled along the entire southern rim of the Amazon. Nature Communications. 27 mar. 2018.
CLEMENT, C. R. et al. The domestication of Amazonia before European conquest. Proceedings of the Royal Society B. 22 jul. 2015.
(fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/capa-outras-midias/as-sociedades-complexas-da-amazonia/)