segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Homens ao mar! Chamem os tubarões

Era previsível.... rssss.....


Homens ao mar! Chamem os tubarões

O PSDB encara 2014 com o otimismo de um Titanic frente a um iceberg. Seus dirigentes continuam dando declarações de que não irão afundar de maneira alguma. Mas a verdade é que sentem o frio percorrer a espinha. As más notícias das pesquisas de opinião sobre as eleições presidenciais são o de menos. Aquilo que realmente os apavora é o ataque sofrido ao que têm de mais caro, Minas Gerais e São Paulo, sua república particular do café com leite.

Em 2014, terão pela frente, de um lado, o julgamento do seu próprio mensalão, o original e que deu origem à série, no Supremo Tribunal Federal - STF. De outro, sofrerão as investigações da Polícia Federal sobre o trensalão paulista - denúncia de cartel, superfaturamento de obras públicas e pagamento de propina a dirigentes em altos postos de comando no governo paulista. Perto do propinoduto dos paulistas, o mensalão mineiro é brincadeira de criança.

Sabedores de que têm sérias avarias no casco, já existe um plano B. É simples, curto e grosso. Se houver pressão da opinião pública que aprofunde ainda mais a desmoralização que já vêm sofrendo, e se não conseguirem suficiente blindagem midiática e do Ministério Público, terão que sacrificar alguns de seus membros para serem devorados.

Vão, portanto, desovar em alto mar a carga que considerarem podre. Pretendem se livrar do peso morto e, ao invés de lançar botes e coletes salva-vidas, o plano dos comandantes é usar megafones para alertar os tubarões, dizendo: “olhem eles ali! Encham o estômago e nos deixem em paz”. Quanto mais forem fustigados, mais carne estarão dispostos a sacrificar.

Eduardo Azeredo e José Aníbal são sérios candidatos a serem expulsos. Ambos são considerados figuras isoladas e difíceis de se defender. São os primeiros da fila para andar na tábua. A coisa se complica quando se fala em Aloysio Nunes, que é muito ligado a José Serra e a Fernando Henrique. Mas há informações de que a Polícia Federal tem documentos suficientes para colocá-lo em péssimos lençóis.

A alta cúpula do tucanato sabe que houve corrupção em larga escala. O que não contava é que isso se tornasse tão evidente. Já se avalia que algumas provas do escândalo são incontestáveis e que haverá delatores suficientes para enrascar algumas de suas maiores lideranças até o pescoço, com crueza de detalhes.

Na fissura do salve-se quem puder, o PSDB quer evitar a estratégia adotada pelo PT. O PT assumiu que houve irregularidades, mas rechaçou peremptoriamente a prática de crimes. Se solidarizou com os acusados e atacou quem os condenou. Os tucanos que estão com os nomes jogados na lama serão abandonados – lama é apenas uma maneira de dizer, trata-se de algo bem pior.

O partido que ajudou a envenenar o poço agora vê que não pode reclamar de beber da água. A tentativa de se distinguir dos petistas será vendida como um ato de desprendimento em relação aos seus malfeitores. A questão, no entanto, não tem qualquer fidalguia.

A acusação mais grave que os petistas sofreram no STF foi a de atentar contra o Estado democrático e o funcionamento das instituições. Segundo o delator, Roberto Jefferson, o dinheiro amealhado teria sido distribuído a parlamentares de partidos para a compra de votos no Congresso - por isso o apelido de mensalão. E os tucanos? O que poderão dizer de um escândalo envolvendo a construção de um metrô que teve, como destino final, dinheiro guardado em contas bancárias na Suíça? Não é política. Tem cara, cheiro e cor de enriquecimento. Não é poder, é dinheiro. Não é mensalão. É propina.

Os petistas estão indignados e querem seus dirigentes de volta. A condenação de José Dirceu, Genoíno e Delúbio uniu até quem passou a vida fazendo oposição a eles dentro do PT. Os tucanos estão divididos e querem defenestrar aqueles que foram pegos com a mão na massa, pelo menos seus operadores, porque já sabem que deles não podem esperar qualquer reciprocidade partidária.

O PT trata seus três mosqueteiros como heróis - o quarto, João Paulo Cunha, está a caminho. O PSDB está fazendo sua lista de párias para publicá-la a qualquer momento.

Realmente, são duas coisas completamente diferentes. Enquanto o PT cospe fogo, o PSDB se prepara para engolir espadas.


(*) Antonio Lassance é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB)

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Homens-ao-mar-Chamem-os-tubaroes/29745


domingo, 8 de dezembro de 2013

Conflitos entre professores e alunos: por um código de ética docente


Conflitos entre professores e alunos: por um código de ética docente



RAYMUNDO DE LIMA*
No início de novembro/2013, um professor de História da Escola Estadual Maria Montessori, de São Paulo, foi afastado depois de ser flagrado abraçando e beijando uma aluna de 11 anos dentro da sala de aula. Em outubro, um professor da Universidade Federal de Minas Gerais, doutor pela Universidade de Sorbonne (Paris) e há 16 anos na UFMG, foi acusado de assédio sexual por alunas universitárias. Elas disseram que “Ele usa os alunos para exemplificar a matéria. Disse que a nossa colega era atraente [...] e que ele gostaria de ficar na horizontal com ela”. Sua atitude foi considerada pelas alunas como “sexista”, quando disse “ela não passava de uma costela”. O primeiro caso acima foi flagrado, fotografado, mas o segundo parece mera acusação.
Outro professor está sob sindicância porque teria dito, em uma rede social “Desafio alguém a mostrar aqui o depoimento de algum pai aceitando seu filho gay.” Ora, frase como esta aparece no filme “Orações para Bobby”, usado nos meios escolares e pedagógicos para analisar a tendência homoafetiva na juventude com a família, e representa uma parcela significativa da população ainda não preparada para lidar com tal problemática.
Nossa justiça tem sido implacável na condenação de professores. Foi noticiado o caso do professor de uma universidade particular de Minas Gerais condenado a indenizar alunas porque teria dito que o trabalho “estava horrível, um lixo” (15ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de MG); a faculdade Z foi obrigada a pagar R$5.450 à ex-estudante por danos morais. (Uol:14/06/2011). Em Maringá, Paraná, um professor universitário, doutor, com mais de vinte anos de profissão, também foi obrigado a pagar um elevado valor porque teria impedido uma aluna de assistir um evento coordenado por ele.
PARA PROBLEMATIZAR: Está faltando ética [êthos] na atuação docente? No livro “A ética no campo educativo”, o professor de Filosofia na França e doutor em ciências da educação, Francis Imbert (2001), questiona: “Os professores estão bastante impregnados de moral, mas será que possuem uma ética?” Então, estaria faltando ética na atuação docente? Ou os alunos estão mais vigilantes, críticos e conscientes dos seus direitos? Alguns alunos/as não estariam confundindo a adoção de atitude ‘crítica’ com atitude ‘cínica’ ao acusar, caluniar ou difamar um professor outsider? O professor está totalmente livre para expressar ideias, opiniões, usar metáforas ou ‘brincar’ com palavras ou metáforas durante a aula? Ou a liberdade docente é relativa? A vítima de difamação – professor/a – consegue reparar o dano psicológico ou moral? O professor em atitude íntima com uma menor de idade caracteriza transgressão da função docente, no mínimo. Mas se a aluna for maior de idade, ou seja, namoro entre professor e aluna, pode?
Médicos, psicólogos, entre outras categorias profissionais, seguem um código de ética, código moral ou deontologia (“deon” = obrigatório, dever). Por que os professores ainda não têm seu próprio código de ética? Ética situa-se antes de qualquer conformidade moral. Na época de apagamento das fronteiras (certo/ errado, pode/ deve, pessoal/ profissional), a formação ética no campo da docência poderia contribuir para melhor preparar o professor para agir corretamente no dia a dia da sala de aula? Noutros termos, como vivemos um tempo de interregno, como deve ser a conduta deste profissional: sob o ponto de vista físico (modo de vestir), discursivo (modo de falar, argumentar), e o ético e estético durante as aulas?
Está em extinção o estilo professoral carrancudo, isto é, aquele professor que só pela presença causava nos alunos pavor durante a aula e pesadelos no sono. Ele sempre tinha razão. Ora, o professor hoje se sente desamparado, despreparado para lidar com alunos desatentos, hiperativos, desrespeitosos, agressivos, ameaçadores, prontos para explosão de ira diante de um não, ou prontos para lesar o sentido do projeto educativo. Antigamente os pais confiavam nos professores, hoje não. (Sugiro ver os filmes: “O substituto”, “Infâmia”). Quando eu era aluno, os professores sempre tinham razão. Hoje, que sou professor, a tendência é sempre dar razão aos alunos, observa o professor Leandro Karnal, em conferência do CPFL-videos. Por que hoje muitos tendem a dar razão ao aluno? Por que o aluno virou cliente, conforme o ideário neoliberal? E o cliente sempre tem razão!
VIVÊNCIA E SOBREVIVÊNCIA DOCENTE
Conforme o interessante estudo de Marilda da Silva (2005), os professores aprendem mais com a prática docente do que com as teorias da didática e das metodologias de ensino. Ou seja, o “habitus professoral” [sic] é aprendido independentemente da formação didática específica; é aprendido no ensaio-erro da atuação profissional. Durante a formação universitária o máximo que é aprendido é o “habitus estudantil”, porque nos cursos de formação de docentes os alunos lêem e discutem o tema “[in]disciplina na sala de aula”, por exemplo, mas não praticam a ação de manter a classe disciplinada como se fossem professores. Também ainda não existe uma matéria para formação de professores sobre ética docente.
De acordo com esta pesquisa, acumulamos algumas preocupações: a) a formação de professores não funciona na prática, só na teoria; b) a nova geração de professores corre pior risco de estar em colapso mental durante o exercício profissional porque está totalmente despreparada para lidar ou ‘trabalhar com’ a nova geração de alunos de tendência incivilizada, indisciplinada ou até mesmo cínica. Alguns sindicatos de professores vêm alertando para o crescente número de professores afastados do trabalho, licença médica ou psicológica, por burnout, depressão, fobia escolar, distúrbios psicossomáticos, síndrome loco-neurótica[1], etc.
No livro “Adoro odiar meu professor: o aluno entre a ironia e o sarcasmo pedagógico”, Antonio Zuin (2008) reconhece como sádica a função docente ao longo da sua história. Ou seja, o sadismo professoral sempre foi uma habitus, jamais criticado ou questionado. Pierre Bourdieu (1998 e outros) reconhece o quanto a escola e a universidade exercem violência simbólica sobre os alunos, desde sua entrada até sua formação. Então, como não odiar o professor que atua com violência camuflada? Como gostar de uma escola ou universidade que atuam ora excluindo ora sendo omissa ou indiferente?
Ainda no século passado a escola aplicava instrumentos punitivos (palmatória) ou castigos físicos, e hoje ainda existem professores que estigmatizam alguns alunos com palavras ofensivas, tais como “burro”, “idiota”, etc. Ou usam atos constrangedores, por exemplo, uma professora e uma monitora obrigaram dois alunos da escola a ficarem nus em sala de aula, para averiguação de sumiço de dinheiro. Como não odiar esta professora?
Hoje são produzidas formas sofisticadas de violência simbólica, em que o aluno é estigmatizado [rotulado], mas ele não se dá conta. Ou mesmo os professores não fazem autocrítica de seu posicionamento violento. Dizer que fulano é “TDAH”, muitas vezes é reproduzido pelos pais como modo de proteger o/a filho/a; e parece que todos os agentes não se reconhecem fazendo uso desta forma de violência simbólica.
A universidade por séculos cumpriu a tradição autoritária repressora; os professores eram considerados arrogantes, irônicos, sarcásticos, até exerciam algo de sádico durante provas e bancas examinadoras. De certa forma, até hoje tal sadismo ainda é autorizado nas bancas de seleção e exame.
Mas ser docente universitário hoje implica antes de tudo ser “professor-pesquisador”. Isso significa ser prudente na fala e nos gestos. Ele não pode confundir ironia – que é uma virtude, segundo Comte-Sponville (2005) com sarcasmo, durante aulas, palestras, bancas. Também os alunos – feitos ‘clientes’ – deveriam saber mais sobre como funciona o habitus docente: brincadeirinhas e exemplos de boa fé [didática] podem ser usados para ilustrar um conteúdo compõem tal habitus, ainda que a onda politicamente correta exagere nas denúncias.
Nos EUA e Canadá, o regulamento escolar proíbe o professor ‘tocar’ aluno (abraço, beijinho no rosto). Algumas instituições de nível superior recomendam ao professor atender aluno/a com porta aberta, para não causar mal entendido, constrangimento ou processo judicial. Certamente são indícios ou sintomas de ruptura da confiança entre professores e alunos, cujo ambiente escolar e universitário, no mínimo, produz efeitos danosos para ambos. A discussão sobre um código de ética docente poderia esclarecer e prevenir melhor nossa atuação. É uma proposta.
Referências
ALEVATO, Hilda. Síndrome loconeurótica revisitada: o cotidiano de docentes. Rev. Psicol., Organ. Trab. v. 12 nº.2, Florianópolis, ago. 2012. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1984-66572012000200008&script=sci_arttext
BOURDIEU, Pierre. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 1998.
COMTE-SPONVILLE, André. Pequeno tratado das grandes virtudes. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
IMBERT, Francis. A questão da ética no campo educativo. Petrópolis: Vozes, 2001.
SILVA, Marilda da. O habitus professoral: o objeto dos estudos sobre o ato de ensinar na sala de aula. In: Revista Brasileira de Educação. maio/jun/jul/ago, 2005. Disponível em:
UOL. Professor classifica trabalho de ‘lixo’, e universidade é condenada a indenização. 14/06/2011. Disponível em:  http://educacao.uol.com.br/noticias/2011/06/14/professor-classifica-trabalho-de-lixo-e-universidade-e-condenada-a-indenizacao.htm
ZUIN, Antonio. Adoro odiar meu professor: o aluno entre a ironia e o sarcasmo pedagógico. Campinas: Autores Associados, 2008.

* RAYMUNDO DE LIMA é Professor-doutor do Departamento de Fundamentos da Educação (DFE), da Universidade Estadual de Maringá. É colunista da revista eletrônica Espaço Acadêmico.

[1] Cf.: ALEVATO, 2002.

Fonte: http://espacoacademico.wordpress.com/2013/12/07/conflitos-entre-professores-e-alunos-por-um-codigo-de-etica-docente/ 

 

Mais uma charge boa para encerrar a semana


sábado, 7 de dezembro de 2013

A escola resolve o nosso apartheid?

A escola resolve o nosso apartheid?

A escola pode muito. Mas é questionável que vá salvar a pátria, dizia Antonio Candido ao PT, em 2002. Vale reler em 2014.

por: Saul Leblon

Quem vai salvar a pátria?

Um traço constitutivo da agenda conservadora consiste em festejar  as derrotas da sociedade brasileira abstraindo  a dimensão estrutural do problema.

Ou seja, omitindo sua responsabilidade.

Espremido o foco, o resto fica  fácil.

Cria-se uma circularidade; ela confina o debate do futuro no campo da moral.

E a moral, como se sabe, é o  apanágio da classe dominante.

Entre nós esse reducionismo determina que o faminto é culpado pela fome. 

O Estado, carcomido pelo cupim privatista, é o responsável pela indigência pública.

O lado ‘gobineau’ das  elites –em que a genética define a história--  tem na educação um compêndio ilustrativo de sua versatilidade e dos seus limites.

Manchetes desta semana esponjaram-se no desempenho sofrível dos estudantes brasileiros no Pisa, edição 2012.

O  Programa de Avaliação Internacional de Estudantes da OCDE  sabatina alunos de 15 e 16 anos em matemática, leitura e ciências.

A mensagem subliminar do jornalismo conservador era:  esse, o país dirigido pelo populismo!

Das 65 nações  incluídas no teste, o Brasil foi a que apresentou a melhor progressão no aprendizado de matemática nos últimos nove anos.

O fato de persistir no 58º  lugar depois disso (em ciências figura no 59º; em leitura, no 55º, num total de 65)  é sugestivo do ponto de partida pantanoso  sobre o qual a elite ‘esclarecida’ fixou a escola pública brasileira.

 O mais irônico é que a narrativa conservadora  define  a educação como o único canal legítimo de mobilidade  das massas no país.   

Por trás desse simulacro de meritocracia esconde-se o círculo de ferro de uma das piores estruturas de distribuição de renda do planeta, que se avoca o direito à  eternidade.

Endinheirados  que se orgulham de patrocinar  ONGs pela redenção educativa, garantem: será assim, através da escola, não  da reforma agrária, a tributária ou a urbana, tampouco através do salário mínimo ‘inflacionário’, que a miséria material e espiritual perderá seu reinado neste lugar.

A escola pode muito.

Acertou em cheio o governo ao impor uma regulação soberana sobre a riqueza do pré-sal, que  permitirá transferir múltiplos de bilhões de reais à politica educacional nos próximos anos.

Mas é questionável que a escola possa tudo o que lhe atribui  a emancipação a frio apregoada pela agenda conservadora.

Ser uma ilha de excelência, capaz de abrigar e exorcizar o oceano de iniquidades ao seu redor, parece  mais um enredo de aventura nas estrelas do que o horizonte histórico de uma nação.

Os analistas do Pisa  parecem corroborar essa avaliação.

Eles afirmam que a metade do ganho brasileiro em matemática, por exemplo, foi uma decorrência de mudanças no entorno social dos alunos.

Uma parte do noticiário conservador  interpretou esse dado de forma desairosa, como se fora um atestado de fracasso do MEC. Outra,  omitiu-o.

Compreende-se.

Investigá-lo talvez levasse à conclusão de que as políticas demonizadas pela mídia – como o Bolsa Família, a valorização do salário mínimo, crédito barato, subsídio à habitação popular etc--  ajudaram o estudante brasileiro a ter maior poder de aprendizado.

Um exemplo:  estudantes do ensino médio beneficiados pelo Bolsa Família nas regiões Norte e Nordeste têm rendimento melhor do que a média nacional  (82,3% e 82,7%, contra  taxa brasileira de 75,2%).

Outro:  pesquisa feita na Universidade de Sussex, na Inglaterra, em 2012, revela que quanto maior é o tempo de  participação das famílias no Bolsa Família, maior é o aproveitamento escolar das crianças.  Segundo a pesquisa, a taxa de aprovação dos alunos do 5º ano aumenta 0,6 ponto percentual para cada R$ 1 de aumento no valor médio do benefício per capita pago às famílias.

A influência da entorno social na escolarização não é privilégio de sociedade pobre.

Tome-se o caso dos EUA.

O país  retrocedeu cerca de 20 pontos  na classificação global do Pisa- 2012.

Em 2009  ocupava a 17ª posição; caiu agora para a 36ª, abaixo da média geral em ciências e matemática.

O que mudou nos EUA entre 2009 e 2012? 

A sociedade norte-americana mergulhou na sua maior crise desde a Depressão de 1929.

Uma em cada cinco crianças norte-americanas vive atualmente em ambiente de pobreza. A renda  média das famílias  com filhos recuou cerca de US$ 6.300 (tomando-se 2001 como base de comparação). Com a implosão da bolha imobiliária, um milhão de estudantes de escolas públicas viram suas famílias serem despejadas .  As taxas de desemprego aberto e oculto hoje superam a faixa dos 13%. O grau de recuperação do mercado de trabalho na presente crise é o mais lento de todas as recessões anteriores.

A sobrevalorização do papel da escola na agenda conservadora brasileira padece de outros flancos de coerência.

Há uma distancia robusta entre o que se fala e o que se pratica quando se mede o hiato em moeda sonante.

O piso salarial do magistério brasileiro hoje, R$ 1560,00,  é um dos mais baixos do mundo. A perspectiva de corrigi-lo para modestos R$ 1.860 reais  em 2014  dispara as sirenes de alerta do jornalismo que promete mostrar o abismo fiscal na próxima edição.

Segundo o Pisa, o Brasil investe três vezes menos  que a média da OCDE para educar uma criança dos 6 aos 15 anos (R$ 64 mil e R$ 200 mil, respectivamente).

Em termos de PIB, fica com uma fatia equivalente a 5%.

O pedaço destinado aos rentistas da dívida pública é maior: 5,7% do PIB.

O mesmo jogral que atribui à educação poderes sobrenaturais,  martela a necessidade de submeter a economia a uma ação purgativa contundente feita de juros mais altos e cortes no poder de compra da população (em especial, a depreciação real do salário mínimo).

O conjunto visa, no fundo,  preservar  a regressividade fiscal brasileira, que privilegia ricos e penaliza pobres e remediados, contra eventuais reformas progressistas.

Nos salões elegantes, os candidatos a candidato do dinheiro grosso em 2014    acenam com a miragem desse país impossível: um Brasil com produtividade chinesa, civilidade suíça, superávit ‘cheio’ e carga fiscal equiparável a de Burkina Faso, onde o índice de alfabetização não ameaça a barreira dos 25%.

Não é apenas o entorno social do aluno pobre que está ameaçado por esse coquetel ; na verdade, ele rasga a própria  fantasia da prioridade educacional,  reduzindo-a a sua verdadeira essência histórica: uma agenda protelatória.

Ou seja, um deslocamento espacial e temporal do conflito distributivo, confinado em uma escola e em um aluno, aos quais caberá a exclusiva responsabilidade de erguer a sociedade  pelos próprios cabelos.

Ou não será assim também com a saúde pública, desafiada a ‘fazer mais com menos’, --com menos ainda  depois  que a coalizão demotucana  subtraiu R$ 40 bilhões por ano do SUS em 2007?

Um comparativo da OMS mostra o quanto há de perversidade na fotografia que imortalizou esse ato cometido na madrugada de 13 de dezembro de 2007. A imagem mostra a nata do retrocesso político comemorando a extinção da CPMF em alegria obscena. A indecência se  panfletada nas filas do SUS  ainda guarda nitroglicerina para sublevar o país.

Segundo a OMS, o gasto público mundial per capita com a saúde  chegou a US$ 571 por ano em 2010. Inclua-se nessa média os US$ 6 mil per capita da Noruega e os US$ 4 per capita do Congo; o valor brasileiro é de US$ 466/ano; em 2000, no governo FHC, somava US$ 107 per capita.

Os mesmos que gargalhavam na madrugada de 13 de dezembro de 2007 fuzilariam o ‘Mais Médicos’ seis anos depois. E não por acaso são as mesmas bocas de onde ecoa a cínica profissão de fé em uma escola  capaz de corrigir aquilo que suas madrugadas políticas cuidam de perpetuar.

 Os resultados do Pisa deveriam servir de combustível para um aggiornamento do debate brasileiro  que de forma preguiçosa adotou o cacoete de terceirizar à educação tarefas que só uma repactuação do desenvolvimento pode honrar.

Na ante-sala do debate eleitoral de 2014  seria oportuno, por vezes,  inverter os termos da equação. E arguir o que o projeto mercadista pretende fazer em benefício da pobreza e da desigualdade hoje para que elas possam mudar a escola pública  amanhã.

Vale retornar às origens e reler um trecho inspirador de uma entrevista concedida pelo professor, crítico literário e cientista social Antonio Candido de Mello e Souza, à campanha de Lula, em 2002, sobre o assunto.

Como ele, as palavras aqui emitem uma luminosidade clássica:

"Temos  uma crise de civilização (...) Talvez seja um mal que deriva de um bem. 
 
O esforço para tornar os níveis de ensino acessíveis a todos força diminuir o nível. Então, você fica num dilema perverso: elitizo ou democratizo e abdico de qualidade?  A saída está numa sociedade igualitária, onde todos tenham acesso à cultura e à educação de qualidade. Foi o que eu vi em Cuba. Instrução pública e gratuita em todos os níveis. E de muito boa qualidade. A chave é a transformação da sociedade, na qual as pessoas se apresentam para a educação em pé de igualdade. 
 
Quem acha que um bom sistema educacional salva a pátria está redondamente enganado. A participação nesse sistema será sempre restrita. Por isso você tem que, primeiro, fazer mudanças estruturais; depois, terá um boa educação. Os liberais pensam: eu tendo uma população instruída, terei uma sociedade melhor. 
 
Errado. Tendo a sociedade melhor, terei uma população instruída. Só assim você supera essa contradição aparente entre elitização e democratização. Continuo achando que a forma republicana do ensino público e gratuito é o grande modelo 
 
(...)  Numa sociedade em que as diferenças de classes ficam muito reduzidas, haverá um desaparecimento da cultura erudita e da popular. E surgirá uma nova cultura. Isso é possível. A função do Estado é fazer um grande esforço econômico e social para que no plano cultural o hiato diminua. De tal maneira que, no fim de certo tempo, o popular se torna erudito e o erudito se torna popular.  
 
(...) Sempre tivemos uma República de elite. Um presidente da República era eleito com 200 mil votos - e votos descobertos. Em 1930, eu assisti na minha cidade, em Cássia, Minas Gerais, à última eleição a descoberto. O eleitor chegava e o coronel, ao lado, fiscalizando. Depois de Getúlio, com a emergência das massas operárias, das massas urbanas, não foi mais possível manter esse estreitamento. O Getúlio era um caudilho esperto. Para manter as elites sob controle, abriu as porteiras e deixou o povo entrar, mas patrocinado por ele. Todavia, abriu a porteira.  E ela está aberta até hoje” (Antonio Candido; site da Campanha Lula Presidente; 2002)

Oh, Minas Gerais!

Oh, Minas Gerais!

Ana Vargas


Oh! Minas Gerais

Oh! Minas Gerais

Quem te conhece (superficialmente)  pensa que és feita apenas  de montanhas, clubes da esquina, JK, Beagá, pão de queijo, Tiradentes, Inhotim...


Quem te conhece pelas matérias de seus jornalões ou pelas propagandas políticas, nem sequer  imagina a podridão que existe  nas entranhas de suas cidadezinhas dominadas (até hoje) pelo coronelismo mais fajuto (mas justamente por isso, eficiente) e por um certo tipo de gente que ainda olha as coisas de Minas de cima para baixo...

Que ainda faz política parecida com aquela feita lá no Maranhão (diga-me de quem és filho e lhe direi se podeis desviar verbas públicas  ou não).
Oh, Minas Gerais, quem te conhece desse modo, não saberá jamais (jamais!) a verdadeira história que existe por trás de seus projetos políticos feitos de artimanhas e corrupções variadas; os conchavos que são tramados até entre aqueles que deveriam ser ‘os olhos do povo’ (um dia esse foi o papel da imprensa) e aqueles que se intitulam ‘donos’ desse povo.


Oh! Minas Gerais: como é revoltante saber que em suas cidades pequenas o crack avança veloz e os governantes desses lugares simplesmente, não se importam, não fazem absolutamente nada pelos jovens que vão se encaminhando para o terror das drogas; e aqueles  poucos, que gostariam de fazer, não contam com apoio nenhum e são obrigados a engavetar (mais uma vez) projetos sociais que beneficiariam milhares de famílias;

Oh, Minas Gerais, como é terrível saber que nesse momento, verbas estão sendo desviadas, ministérios que investigam e encontram algo, são obrigados a arquivar tudo em nome de uma suposta paz e calmaria que deve prevalecer nas imagens turísticas do estado.   

Oh, Minas Gerais, dizem que tuas terras são altaneiras, mas, ninguém diz que foram e ainda são vendidas nesses folhetos turísticos apenas para provocar aquele ultrapassado sentimento de bairrismo inútil, aquela sensação de que esse lugar ainda é ou deveria ser aquele dos tempos longínquos da liberdade ainda que tardia. Que liberdade? Ela ainda tarda... (assim como a justiça).

O seu céu é do puro anil e tão puro é que encobre com eficiência a imagem aviltante de sua política asquerosa, uns poucos, bem poucos, devem estar de fato, fazendo algo que valha a pena... Mas desses não se fala, é claro.



És bonita, oh terra mineira, quando estampada em páginas de revistas ou jornais da chamada ‘grande imprensa’- aquelas montanhas azuis ao fundo, o rosto de um caipira até hoje sendo ‘vendido’ como o de um mineiro típico (e aquelas tenebrosas piadas sem graça que circulam na internet), aquele olhar conformado e feliz; como se ser mineiro fosse ser acima de tudo resignado e manso.



Esperança do nosso Brasil: que fardo pesado te deram, oh Minas Gerais! Ser a esperança de um país que somente a pouco encontrou um rumo; ter que carregar o fardo de Tiradentes e de tudo aquilo que dizem, foi a inconfidência mineira.

Se foi: que bom! Como – aí sim – me orgulho apenas o suficiente, bem pouco, de forma vergonhosa até; pois ainda assim, como me orgulho por saber que no passado houve gente de Minas que se revoltou e deu a vida em troca de valores como dignidade e respeito e apreço por aqueles que de fato, precisam ser lembrados: o povo mineiro.
Se não foi, se tudo isso não passa de um mito histórico como tantos que existem por aí; Minas vive de glórias vazias e eu diria mesmo, ridículas! Pobre Tiradentes: se ele existiu, se foi de fato um herói, como deve estar se revirando no túmulo por ver no que se transformou o seu ‘sonho’ de liberdade.
Aquele seu remoto sonho é agora privilégio apenas de tipos raros que podem se dar ao luxo de roubar porque possuem este ou aquele sobrenome; daqueles que por serem amigos de fulano ou sicrano, podem até transportar drogas que nada, nada lhes acontece (acontecerá?).
E nem ela, a dita ‘imprensa’ está interessada em falar disso... Para quê afinal gastar palavras, tempo e ideias para falar, ora! É bem melhor acreditar em coisas como déficit zerado, capacidade política de uns e outros que sobrevivem à custa de seus sobrenomes (e apenas por isso); acreditar em coisas como modernidades, poderio político e toda essa palhaçada que ainda (ainda!) engorda verbas publicitárias deste ou daquele jornaleco, daquela rede de tevê, daquele fulano que é dono de uma fazenda de 60 milhões  e. bom, o resto você já sabe*.
Oh, Minas Gerais: ainda acreditam que  tua lua é a mais prateada – embora ela esteja refletindo sobre rios e vales depredados por mineradoras - que ilumina o nosso torrão – e torrão é a palavra certa para alguns cantos de sua paisagem tão enfiados em seus sertões que caixas eletrônicos são explodidos diariamente e a polícia nunca consegue  prender quem quer que seja... (Mas aqueles caras ali, que explodem caixas eletrônicos no sul ou no centro-oeste de Minas, de vez em quando vão pra cadeia, enquanto que aqueles caras lá, digo, aqueles que transportam droga em helicópteros de políticos que são amigos de pessoas de sobrenomes mistificados...Aqueles lá nunca vão pra trás das grades...Porque será?!)


És formosa, oh terra encantada,  mas sua formosura ainda resistindo bravamente em suas tardes entre as serras do cipó, da piedade ou da moeda; vai velozmente sendo vilipendiada por empreendedores desses que loteiam zonas urbanas e destroem o passado e a natureza; desses que cavoucaram a terra atrás da serra do curral e continuam cavando, talvez para chegar ao fundo de seu útero e para retirar de lá – quem sabe?- o resto de sua alma, tudo aquilo que afinal, fez com que fostes o que és.



És orgulho da nossa nação... Será?

Sim, ainda és orgulho se pudermos nos orgulhar das altas taxas de uso do crack nas cidades do interior, na capital, no triângulo...
És orgulho, se olharmos as propagandas do governo mineiro e acreditarmos naquele festival de mentiras publicitárias  sobre como os índices da economia, da educação e da saúde são invejáveis em Minas...
És orgulho para quem viu aquela moça que canta naquela banda (ruim) e que emprestou a sua figura tão modernosa para ser porta voz dessas mentiras; os adeptos da arte desengajada, da arte pela arte, da arte alienada certamente aplaudiram e ficaram orgulhosos!
Oh! Minas Gerais

Oh! Minas Gerais
Quem te conhece
Não esquece jamais




Quem te conhece e ama de verdade, quem sabe olhar para suas ruas antigas e seus becos e vielas e enxerga o povo que está ali, subindo estas ruas, cansado e espremido em transportes públicos lotados, tentando encontrar um lugarzinho ao sol em meio à avalanche de vagas compradas em concursos públicos, se virando como pode para pagar as contas com salário de professor, enfrentando filas e descaso nos postos de saúde e nos hospitais da capital e do interior...
Quem olha pra’s Minas Gerais e vê de fato a gente dessa Minas Gerais sabe muito bem que não há mais motivo nenhum para se orgulhar do que quer seja em Minas Gerais!

Fonte: http://antijornalismo.blogspot.com.br/
 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O mundo perde Mandela, símbolo da luta pela liberdade e igualdade


O mundo perde Mandela, símbolo da luta pela liberdade e igualdade

publicado em 5 de dezembro de 2013 às 20:45 ( http://www.viomundo.com.br/politica/nelson-mandela.html



Nelson Mandela (1918-2013)
O “Madiba”, cuja vida é inspiração de dias melhores, morreu aos 95 anos em sua casa, em Joanesburgo
por José Antonio Lima , em CartaCapital
“Durante a minha vida, me dediquei à luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu defendi o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal para o qual espero viver e conseguir realizar. Mas, se preciso for, é um ideal para o qual estou disposto a morrer.”
Nelson Mandela, na abertura de sua declaração de defesa no Julgamento de Rivonia, em Pretória, em 20 de abril de 1964
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Em 12 de fevereiro de 1990, quando Nelson Mandela foi solto, após 27 anos encarcerado, a África do Sul estava à beira de uma guerra civil entre brancos e negros. A libertação de Mandela era fruto de negociações entre o regime segregacionista do Apartheid e a resistência negra, mantidas em segredo para não estimular ainda mais violência por parte dos extremistas de ambos os lados. Havia uma imensa desconfiança a respeito das intenções de Mandela, mas mesmo após séculos de opressão e de seu sofrimento pessoal, Mandela tomou as decisões que fazem muitos considerá-lo o maior líder político de todos os tempos.
Ao levar a todo o país uma mensagem em defesa da democracia e da igualdade, o Madiba, como é conhecido no país, se tornou o artífice da reconciliação entre brancos e negros sul-africanos, evitando o que poderia ser uma sangrenta guerra civil. Foi esse homem que a humanidade perdeu decorrente de uma infecção pulmonar, nesta quinta-feira 5. O anúncio oficial foi feito em rede nacional pelo presidente da África do Sul, Jacob Zuma.
A morte de Mandela era a má notícia que os sul-africanos esperavam há anos, desde que a saúde debilitada do ex-presidente começou a preocupar. A cada internação, o país entrava em apreensão, inúmeros boatos circulavam, o governo divulgava notas oficiais, até que vinha a notícia da alta. Desta vez, foi diferente. A morte de Mandela deve jogar boa parte do país em depressão.
Violência e o fim do Apartheid
O luto não se dá à toa. Após anos lutando contra o regime da supremacia branca de forma institucional, Mandela ajudou a fundar, em 1961, o Umkhonto weSizwe, braço armado do Congresso Nacional Africano (CNA). Dois anos depois de entrar na luta armada, Mandela foi preso e condenado à prisão perpétua no famigerado Julgamento de Rivonia. Ele deixaria a prisão apenas nos anos 1990, quando se juntaria a algumas poucas figuras que tentariam colocar fim ao Apartheid.
Como o regime beneficiava diversos grupos, a resistência às mudanças seria ferrenha. Logo após a soltura de Mandela, uma onda de violência tomou conta da África do Sul. Chacinas foram cometidas várias vezes por dia em trens e outros locais públicos. Líderes comunitários e outras figuras públicas foram executados. Massacres nos guetos negros se tornaram comuns. A execução do “colar”, por meio da qual um pneu com gasolina era colocado no pescoço da vítima e incendiado, se tornou a horrenda face da violência no país. Isso sem contar a repressão violenta da polícia contra as manifestações de populações negras. Era uma época que os sul-africanos “morriam como moscas”, nas palavras do arcebispo anglicano Desmond Tutu, Nobel da Paz.
A violência daquele período era atribuída a uma guerra entre o Congresso Nacional Africano, grupo liderado por Mandela, que pregava a igualdade entre brancos e negros, e o Inkatha, movimento nacionalista zulu, um dos diversos povos sul-africanos. Essa era apenas parte da explicação. A violência generalizada era uma ação orquestrada pelas forças de seguranças do regime e pelos extremistas de direita do Inkatha. Milhares de membros da facção zulu foram treinados em campos secretos e receberam armas e dinheiro das forças de segurança do regime e de líderes brancos de extrema-direita. Alguns policiais, brancos e negros, chegavam a coordenar e participar dos massacres. Quando não havia gente do Inkatha, mercenários de países como Angola e Namíbia eram contratados. Em silêncio, para não serem identificados como estrangeiros pelo sotaque, matavam sul-africanos a esmo.
Para o Inkatha, aquela era uma luta para manter a autonomia da terra KwaZulu e buscar a independência. Para os extremistas brancos, era uma estratégia dupla: primeiro manter a argumentação de que os negros eram incapazes de se autogovernar. Caso isso não desse certo, o CNA, de Mandela, ao menos ficaria enfraquecido para a eleição presidencial que se seguiria, a primeira na qual brancos e negros poderiam votar e ser votados livremente.
A estratégia de desestabilização não deu resultados graças à força de caráter de inúmeras pessoas, entre elas o então presidente sul-africano, Frederik Willem de Klerk, e de Mandela. Entre 1990 e 1993, a África do Sul revogou leis que davam amparo jurídico ao Apartheid, desmantelou seu arsenal nuclear e convocou eleições livres para 1994. Ao contrário do que pensavam os extremistas, o CNA não estava enfraquecido por conta da violência. Nas urnas, o partido obteve uma vitória massacrante, e Mandela se tornou o primeiro presidente negro na história do país.
“Nação Arco-Íris”
No poder, Mandela operou um milagre político. O Madiba fez os sul-africanos acreditarem no seu sonho, o de que a África do Sul poderia ser mesmo uma “Nação Arco-Íris”, na qual todas as “cores” poderiam conviver de forma harmônica. Mandela conseguiu contemplar os anseios das minorias brancas e conter a ânsia por justiça de líderes negros, muitos dos quais desejavam vingança após décadas de abusos e arbitrariedade.
A face mais visível do esforço de reconciliação feita por Mandela foi o apoio à seleção de rúgbi da África do Sul, os Springboks, na Copa do Mundo de 1995. Mandela não permitiu a mudança de nome e uniforme da equipe e tornou a seleção, símbolo de orgulho dos brancos, em orgulho nacional. A empreitada teve um fim épico com a improvável vitória da África do Sul sobre a Nova Zelândia, no hoje mítico Ellis Park, em Johannesburgo. A história foi registrada de forma magistral no livro Conquistando o Inimigo, de John Carlin, e no filme Invictus, de Clint Eastwood.
O apoio aos Springboks era parte da estratégia de Mandela de liderar pelo exemplo. Para o sul-africano comum, branco ou negro, era inevitável se questionar: como pode um homem que ficou encarcerado por 28 anos deixar a prisão sem qualquer resquício de rancor e adotar um tom tão reconciliatório? Se Mandela podia, todos podiam.
O milagre da Nação Arco-Íris foi também institucionalizado. Sob Mandela, a África do Sul passou a ter programas de habitação, educação e desenvolvimento econômico para a população negra; instalou a Comissão da Verdade e da Reconciliação, que serviu como catarse coletiva para o país; e aprovou uma nova Constituição, vista até hoje como ponto central de estabilidade na África do Sul.
O legado de Mandela
Desde que assumiu a presidência, Mandela deixou claro que gostaria de ser apenas o responsável pela transição da África do Sul, e não o guia eterno do país. Ele fez isso pois desejava uma África do Sul independente, inclusive dele próprio. A África do Sul que Mandela imaginou, no entanto, não conseguiu completar o sonho do líder visionário durante sua vida. Contra a vontade de Mandela, e de sua família, sua imagem é usada persistentemente de forma política, às vezes por líderes que dilapidam seu legado. Esse processo foi agravado pelo silêncio ao qual Mandela foi obrigado a se recolher devido ao agravamento de sua doença.
Nos governos de Thabo Mbeki (1999-2007) e do atual presidente, Jacob Zuma, ambos do CNA, a África do Sul teve grande crescimento econômico, mas a desigualdade social é maior que a existente no fim do Apartheid. O CNA, por sua vez, deixou de ser o partido da liberdade para se tornar um amontoado de políticos acusados de corrupção e de agir em benefício próprio. A Liga Jovem do ANC, fundada por Mandela, passou a ser conhecida pelos atos e palavras de intolerância de seus líderes, um perigo para uma país onde a violência racial está contida, mas a tensão entre brancos e negros, não.
Apesar do uso político de sua imagem, Mandela continua sendo o bastião da democracia na África do Sul. Talvez, o distanciamento entre seu legado e a condição atual do país tenha servido para, nos últimos anos, tornar mais agudo o sofrimento da população a cada nova internação. Hoje, finalmente, chegou o dia de deixar Mandela descansar, e dos sul-africanos colocarem o país no rumo sem um exemplo vivo para guiá-los.

Muito boa esta charge

publicada no http://mariafro.com/