terça-feira, 27 de setembro de 2016

A terceira onda da recessão.


Ainda que pensávamos que a situação econômica havia melhorado e que os piores anos da crise haviam ficado para trás, é possível que o pior ainda esteja por vir. É o que sugere o demolidor novo relatório sobre comércio publicado pelo principal órgão da Assembleia Geral da ONU, que adverte sobre os perigos que pairam atrás da esquina. Assim como ocorreu em 2010, trata-se de uma crise da dívida, mas o alcance pode ser muito maior, uma vez que atinge um grande número de países em vias de desenvolvimento, cada vez mais economicamente vulneráveis.

A reportagem é de Héctor G. Barnés, publicada por El Confidencial, 23-09-2016. A tradução é do Cepat.

“Durante os últimos anos, houve uma preocupação com a fragilidade financeira nas economias emergentes, em razão de uma avalanche de fluxo financeiro e crédito barato a partir de 2009, alimentado até um ponto considerável por programas de expansão quantitativa nos países desenvolvidos”, destaca o relatório Trade and Development Report 2016. “Os sinais de alarma foram disparados há um tempo pela explosão da dívida corporativa nas economias emergentes do mercado”.

Este relatório chamou a atenção dos meios de comunicação globais. O editor de economia do jornal The Telegraph, Ambrose Evans-Pritchard, explicava que “a terceira onda desta depressão global sem remédio ainda está por vir”. A escala, desta vez, será muito maior que em ocasiões anteriores (o caso Lehman Brothers ou Grécia é uma piada ao seu lado): “Pode ser a crise definitiva do capitalismo globalizado, o decesso da ortodoxia do livre mercado liberal promovida durante os últimos 40 anos pelas instituições de Bretton Woods, a OCDE e a fraternidade de Davos”. Não é brincadeira.

O documento publicado pela UNCTAD, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, se submerge em um panorama global “frágil”, no qual as economias desenvolvidas se recuperam muito mais lentamente que o esperado e o comércio global se enfraqueceu, o que deteve o crescimento de muitos países pobres, excessivamente dependentes do capital estrangeiro. “Na medida em que o capital começa a minar, há um verdadeiro perigo de entrar em uma terceira fase da crise financeira que começou no mercado imobiliário americano, em fins do ano 2007”. Já começou no Brasil, Rússia e África do Sul, países à beira da recessão, nos quais pode se produzir “uma daninha espiral deflacionária”.

O relatório ressalta a armadilha econômica criada pela globalização, que acentuou na última década, como a culpada. As empresas privadas dos países em vias de desenvolvimento devem mais de 25 bilhões de dólares (em fins de 2008, o valor era de 9 bilhões), e a maior parte desta dívida provavelmente nunca se pague. “Não se pode descartar uma daninha espiral deflacionária”, acrescenta o documento.

“Nossa experiência passada nos mostra que se grande parte da dívida do setor privado é alta e está emitida em moeda estrangeira, como na América Latina, termina nas contas de balanço públicos, com o risco de uma crise de dívida externa soberana”.

O possível efeito contágio

Como ocorre em uma economia globalizada, um espirro em um lugar do mundo pode acabar contagiando o planeta de gripe. Só que neste caso, a julgar pelos termos empregados no relatório, pode se tratar de uma enfermidade mortal. “O medíocre rendimento dos países desenvolvidos, a partir da crise econômica de 2008-2009, e a crise financeira vão durar, com o risco adicionado que supõe a perda de estímulo aos países em vias de desenvolvimento, durante os últimos anos, que será maior do que se pensava”, explica o documento.

A ameaça é clara: “Sem uma mudança de direção neste aspecto, o ambiente externo enfrentado por estes países será pior, com consequências potencialmente daninhas para sua prosperidade e estabilidade a curto e médio prazo”. Não só para os países pobres e em desenvolvimento, mas também em escala global: “Não se pode descartar um contágio mais amplo pelos ‘choques’ imprevistos que golpeiam de maneira mais forte o crescimento global”. O documento se refere explicitamente ao ‘brexit’, que provoca maremotos em uma corrente já bastante turbulenta em si.

Como recorda Evans-Pritchard, este cenário é a consequência previsível em países em vias de desenvolvimento das medidas de estímulo nos Estados Unidos, Europa e Japão: “Uma inundação de crédito barato que decompõe sua química e os conduz a uma armadilha”. No entanto, apesar que se pensava que isso poderia ocorrer, não se suspeitava que os efeitos fossem tão devastadores. O relatório é um puxão de orelhas em “uma cultura de recompra de ações e uma incansável extração de benefícios” na qual os lucros obtidos pelas empresas não são reinvestidos em postos de trabalho ou crescimento sustentável.

Contra a economia ortodoxa

Se o relatório resulta relevante, destaca o economista, é porque contradiz muitas das visões populares sobre os benefícios da globalização, “aquelas que continuam sendo ensinadas em universidades e escolas de negócios, há duas gerações”. A justificativa moral a qual as nações desenvolvidas recorrem é que os investimentos estrangeiros “melhoraram o padrão de vida de milhares de milhões de pessoas na Ásia”. No entanto, o documento da ONU destaca que, na realidade, esta relação econômica não funcionou em muitos países, que enfrentam uma possível “desindustrialização prematura”.

Nos últimos anos, muitos países viram como seu setor industrial se estagnava e deixava de produzir postos de trabalho. É o que ocorreu na Índia, México e muitos países do sudeste asiático. Ainda pior foi na África subsaariana, onde o desenvolvimento das manufaturas parou inclusive antes da industrialização do país. Mas, ainda mais grave é a desindustrialização, acompanhada por uma queda da produtividade, em países como América do Sul ou do norte da África, desde os anos 1980. Em muitos casos, este processo está ligado a “drásticas mudanças para políticas macroeconômicas mais restritivas e uma redução do investimento dos Estado para apoiar as transformações estruturais”.

Nas economias mais pobres, os benefícios das iniciativas para o alívio da dívida dos anos 1990 e princípios dos anos 2000 e da rápida integração nos mercados financeiros, após 2008, estão se evaporando rapidamente”, adverte o relatório. A situação mudou em apenas alguns anos, quando a dívida emitida pelos países em vias de desenvolvimento em forma de bônus parecia infinita (de 2 bilhões em 2009 para 18 bilhões em 2011). No entanto, fatores como uma pior projeção de crescimento fizeram com que seu financiamento saia muito mais caro.

Caso a economia global enfraqueça ainda mais, “uma grande parte da dívida dos países em vias de desenvolvimento, acumulada desde 2008, pode se tornar impagável e exercerá uma considerável pressão sobre o sistema financeiro”. Além disso, o relatório acrescenta que “caso isso ocorra, a comunidade internacional precisa se preparar para renegociar as dívidas de uma maneira mais rápida, mais justa e mais ordenada que a forma como fez até agora”.
(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/560476-a-terceira-onda-da-recessao-para-a-onu-esta-a-caminho-a-crise-definitiva)

domingo, 25 de setembro de 2016

É pior que 7 a 1. Na Justiça, a lei perde de 13 a 1.

 por Fernando Brito

Não é possível, e em escala muito mais grave, esconder o sentimento de vergonha ao ver um tribunal referendar, por 13 votos a um, a ação ilegal de um magistrado, como foi a de Sergio Moro ao divulgar as escutas ilegais que recebeu da Polícia Federal, onde não apenas extrapolou aquilo que tinha autorizado , mas coonestou a escuta ilegal do telefone da então Presidenta da república, Dilma Rousseff.
No entanto, foi o que fizeram os desembargadores federais do TRF-4, dando licença para que, a critério de Moro, este possa decidir agir ilegalmente quando achar que isso é para “o bem” da Lava Jato. Ou, melhor dizendo, para o bem dos seus inescondíveis desejos políticos.
Ao menos, embora de pouco consolo sirva, houve o “gol de honra” – honra, mesmo – de um único desembargador, que não se vergou à ditadura linchatória que parece ter se instalado no Judiciário. O desembargador federal Rogério Favreto,  único membro da Corte Especial daquele tribunal  a votar pela abertura de processo disciplinar contra o juiz Sergio Moro, merece, por isso, ter trechos do seu voto solitário transcritos, com grifos meus.
Para que, pelo menos, a gente possa achar que ainda há juízes no Brasil.

O magistrado [Sergio Moro], como se vê, defende posição contrária à proibição em abstrato da divulgação de dados colhidos em investigações. Todavia, essa tese, conquanto possa ser sustentada em sede doutrinária, não encontra respaldo no ordenamento jurídico pátrio no tocante a conversas telefônicas interceptadas, cuja publicização é vedada expressamente pelos arts. 8º e 9º da Lei 9.296/1996
O debate doutrinário é saudável. Todavia, não pode, porém, converter em decisão judicial, com todos os drásticos efeitos que dela decorrem, uma tese que não encontra fundamento na legislação nacional.
Ao assim agir deliberadamente, pode o magistrado ter transgredido o art. 35, I, da Lei Orgânica da Magistratura Nacional.
Outrossim, a tentativa de justificar os atos processuais com base na relevância excepcional do tema investigado na comentada operação, para submeter a atuação da Administração Pública e de seus agentes ao escrutínio público, também se afasta do objeto e objetivos da investigação criminal, mormente porque decisão judicial deve obediência aos preceitos legais, e não ao propósito de satisfazer a opinião pública.
Um segundo fator externo ao processo e estranho ao procedimento hermenêutico que pode ter motivado a decisão tem índole política. Mesmo sem juízo definitivo, posto que se está diante de elementos iniciais para abertura de procedimento disciplinar, entendo que seria precipitado descartar de plano a possibilidade de que o magistrado tenha agido instigado pelo contexto socio­político da época em que proferida a decisão de levantamento do sigilo de conversas telefônicas interceptadas.
São conhecidas as participações do magistrado em eventos públicos liderados pelo Sr. João Dória Junior, atual candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PSDB e opositor notável ao governo da ex-­Presidente Dilma Rousseff.
Vale rememorar, ainda, que a decisão foi prolatada no dia 16 de março, três dias após grandes mobilizações populares e no mesmo dia em que o ex­-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi nomeado para o cargo de Ministro da Casa Civil.
Além disso, a decisão, no quadro em que proferida, teve o condão de convulsionar a sociedade brasileira e suas disputas políticas. Aliás, no dia dos protestos contra o Governo da Ex-­Presidente Dilma (13/03/2016), o próprio magistrado enviou carta pessoal à Rede Globo e postou nota no seu blog, manifestando ter ficado “tocado” pelas manifestações da população e destacando ser “importante que as autoridades eleitas e os partidos ouçam a voz das ruas”.
Ora, esse comportamento denota parcialidade, na medida em que se posiciona politicamente em manifestações contrários ao Governo Federal e, ao mesmo tempo, capta e divulga ilegalmente conversas telefônicas de autoridades estranhas à sua competência jurisdicional. O Poder Judiciário, ao qual é própria a função de pacificar as relações sociais, converteu-­se em catalizador de conflitos.
Não é atributo do Poder Judiciário avaliar o relevo social e político de conversas captadas em interceptação e submetê-­las ao escrutínio popular. Ao fazê-­lo, o Judiciário abdica da imparcialidade, despe-­se da toga e veste-­se de militante político.
Com efeito, o resultado da divulgação dos diálogos ­ possibilitada sobretudo pela retirada do segredo de Justiça dos autos, ­ foi a submissão dos interlocutores a um escrutínio político e a uma indevida exposição da intimidade e privacidade. Mais ainda, quando em curso processo de impedimento da Presidenta da República, gerando efeitos políticos junto ao Legislativo que apreciava o seu afastamento.
Penso que não é esse o papel do Poder Judiciário, que deve, ao contrário, resguardar a intimidade e a dignidade das pessoas, velando pela imprescindível serenidade.

(fonte: 
http://www.tijolaco.com.br/blog/e-pior-que-7-1-na-justica-lei-perde-de-13-1-veja-o-voto-corajoso-contra-absurdos-de-moro/)

A escola do século 21 e a intuição de Clarice


por Lais Fontenelle Pereira



Acredito que educar é um ato político, o que nos leva ao entendimento de que a educação não deveria ser para a cidadania e sim da cidadania. A educação deveria ser percebida como uma relação de ensino-aprendizagem que se dá no vínculo do professor com o aluno (e dos pais com os filhos), e que o conduzirá num processo de autoconhecimento baseado em respeito, acolhimento e liberdade. O objetivo é que esse sujeito consiga, no seu tempo, aprender não somente conteúdos, mas principalmente a ser, a conviver, a cuidar e a respeitar.
Educar deveria ser estimular o surgimento da consciência crítica no aluno, fornecendo-lhe as ferramentas para que possa avaliar, ele próprio, os caminhos que se abrem para construir algo que valha a pena na vida. O papel do educador e da escola deveria ser, então, segundo a querida mestra Monique Augras, o de reencantamento do mundo – porque só assim será possível formarmos cidadãos mais conscientes.
Já é consenso que a escola do século 21 é aquela que prepara a vida, e isso requer uma formação integral de ser humano que passe pelas habilidades socioemocionais. Dentro de uma sociedade cada vez mais conectada e globalizada, é urgente formarmos cidadãos que saibam lidar com suas emoções. A famosa inteligência emocional é urgente e essencial para o desenvolvimento pessoal, profissional e acadêmico de nossos filhos. Porém, ainda se veem pais e escolas focados somente no rigor acadêmico.
Saber reconhecer e lidar com emoções, expressá-las de forma clara e respeitosa e trabalhar de maneira colaborativa e em equipe são competências essenciais para a vida em sociedade e para o sucesso nas profissões contemporâneas. Porém, essas ainda não são habilidades comumente valorizadas na escola. Portanto, devemos lembrar-nos que é na escola que o sujeito deve conhecer melhor sobre seu corpo e suas emoções, sobre os outros e suas diferenças e, principalmente, sobre como se relacionar no mundo de maneira mais respeitosa e sustentável. O valor de nossos filhos e alunos não deveria nunca ser medido, exclusivamente, pelas suas competências acadêmicas. Conteúdos afetivos são tão importantes quando os matemáticos, físicos ou linguísticos.
Vale destacar que já têm aparecido iniciativas bem bacanas. Na Dinamarca, por exemplo, há tempos já se ensina empatia nas escolas. Já no Brasil o projeto Escolas Transformadoras  (parceria da Ashoka com o Alana) tem feito um trabalho não só de identificar e mapear escolas que estão inovando ao redor do país, mas de conectar e apoiar iniciativas inspiradoras para fortalecer a visão de que todos podemos ser transformadores da realidade atual. Vale também conferir o programa Destino Educação: Escolas Inovadoras, parceria do Canal Futura com Inspirare, que tem trazido para a tela experiências transformadoras em Educação ao redor do mundo. E todas essas iniciativas concordam que devemos formar crianças e jovens mais empáticas e inclusivas, além de cada vez mais bem preparadas para lidar com as dificuldades da vida – porque elas virão mais rápido do que esperamos.
Essa semana mesmo minha filha de 4 anos me deixou sem respostas. Chegou da escola reclamando que um amigo mais velho a chamou novamente de bebê e que isso a deixou muito triste, porque ela estava crescendo e não era mais um bebê. Pediu ajuda, mas foi enfática ao dizer que não queria que eu fosse à escola conversar com o professor e muito menos com seu amigo. Então perguntei o que ela poderia fazer sozinha para resolver a situação e a resposta foi: “Colocar uma armadilha para meu amigo tropeçar, cair e ver como é ruim os outros rirem dele.” Respondi que essa, sem dúvida, não era a melhor solução, mas que tinha entendido que ela queria que seu amigo percebesse como ela se sentiu. Seguimos num diálogo, sem muitos avanços, até que, na hora de dormir, ao ler o belíssimo Caderno de Rimas do João, de Lázaro Ramos, ela viu o Kirikou do filme desenhado numa das páginas e rasgou um sorriso dizendo: “Descobri, mamãe! Vou falar para meu amigo assistir Kirikou e a Feiticeira e ver que ele é pequeno e valente, e quando eu cantar a música do filme ele vai entender que Kirikou é pequeno, mas é meu amigo e é bem valente!” E quem sabe o meu professor não passa o filme na escola e assim todo mundo entende junto…” A mensagem da tolerância. Minha pequena Clarice adormeceu tranquila e eu também, por achar que fiz escolhas certas nessa trajetória.
Fica então a reflexão de que, para garantirmos o bem-estar infantil e adolescente, é preciso fortalecer psicologicamente as crianças e prepará-las para encarar as dificuldades emocionais e interpessoais que acompanham, de maneira intrínseca, a vida cotidiana, e futuramente as frustrações e pressões profissionais.
Essa árdua tarefa começa em casa, claro, mas deve se desdobrar na escola. As crianças precisam cada vez mais trabalhar suas habilidades socioemocionais, desde pequenas, e isso deve acontecer também na escola. É nesse espaço que vão experimentar, pela primeira vez, regras de convivência comunitária: a compartilhar, a se inscrever no mundo, a trocar experiências e, principalmente, a ser mais empáticos e inclusivos.
Não existe aprendizagem sem relação e não existe relação sem afeto. A saída aos meus olhos é, sem dúvida, uma educação que respeita o aluno como um ser que sente, que se afeta, tem vontades, um tempo e uma expressão única. E que na relação com o professor mostra a cada pergunta, conflito e encantamento o quanto nós adultos, muitas vezes, nada sabemos.

Acredito que educar é um ato político, o que nos leva ao entendimento de que a educação não deveria ser para a cidadania e sim da cidadania. A educação deveria ser percebida como uma relação de ensino-aprendizagem que se dá no vínculo do professor com o aluno (e dos pais com os filhos), e que o conduzirá num processo de autoconhecimento baseado em respeito, acolhimento e liberdade. O objetivo é que esse sujeito consiga, no seu tempo, aprender não somente conteúdos, mas principalmente a ser, a conviver, a cuidar e a respeitar.
Educar deveria ser estimular o surgimento da consciência crítica no aluno, fornecendo-lhe as ferramentas para que possa avaliar, ele próprio, os caminhos que se abrem para construir algo que valha a pena na vida. O papel do educador e da escola deveria ser, então, segundo a querida mestra Monique Augras, o de reencantamento do mundo – porque só assim será possível formarmos cidadãos mais conscientes.
Já é consenso que a escola do século 21 é aquela que prepara a vida, e isso requer uma formação integral de ser humano que passe pelas habilidades socioemocionais. Dentro de uma sociedade cada vez mais conectada e globalizada, é urgente formarmos cidadãos que saibam lidar com suas emoções. A famosa inteligência emocional é urgente e essencial para o desenvolvimento pessoal, profissional e acadêmico de nossos filhos. Porém, ainda se veem pais e escolas focados somente no rigor acadêmico.
Saber reconhecer e lidar com emoções, expressá-las de forma clara e respeitosa e trabalhar de maneira colaborativa e em equipe são competências essenciais para a vida em sociedade e para o sucesso nas profissões contemporâneas. Porém, essas ainda não são habilidades comumente valorizadas na escola. Portanto, devemos lembrar-nos que é na escola que o sujeito deve conhecer melhor sobre seu corpo e suas emoções, sobre os outros e suas diferenças e, principalmente, sobre como se relacionar no mundo de maneira mais respeitosa e sustentável. O valor de nossos filhos e alunos não deveria nunca ser medido, exclusivamente, pelas suas competências acadêmicas. Conteúdos afetivos são tão importantes quando os matemáticos, físicos ou linguísticos.
Vale destacar que já têm aparecido iniciativas bem bacanas. Na Dinamarca, por exemplo, há tempos já se ensina empatia nas escolas. Já no Brasil o projeto Escolas Transformadoras  (parceria da Ashoka com o Alana) tem feito um trabalho não só de identificar e mapear escolas que estão inovando ao redor do país, mas de conectar e apoiar iniciativas inspiradoras para fortalecer a visão de que todos podemos ser transformadores da realidade atual. Vale também conferir o programa Destino Educação: Escolas Inovadoras, parceria do Canal Futura com Inspirare, que tem trazido para a tela experiências transformadoras em Educação ao redor do mundo. E todas essas iniciativas concordam que devemos formar crianças e jovens mais empáticas e inclusivas, além de cada vez mais bem preparadas para lidar com as dificuldades da vida – porque elas virão mais rápido do que esperamos.
Essa semana mesmo minha filha de 4 anos me deixou sem respostas. Chegou da escola reclamando que um amigo mais velho a chamou novamente de bebê e que isso a deixou muito triste, porque ela estava crescendo e não era mais um bebê. Pediu ajuda, mas foi enfática ao dizer que não queria que eu fosse à escola conversar com o professor e muito menos com seu amigo. Então perguntei o que ela poderia fazer sozinha para resolver a situação e a resposta foi: “Colocar uma armadilha para meu amigo tropeçar, cair e ver como é ruim os outros rirem dele.” Respondi que essa, sem dúvida, não era a melhor solução, mas que tinha entendido que ela queria que seu amigo percebesse como ela se sentiu. Seguimos num diálogo, sem muitos avanços, até que, na hora de dormir, ao ler o belíssimo Caderno de Rimas do João, de Lázaro Ramos, ela viu o Kirikou do filme desenhado numa das páginas e rasgou um sorriso dizendo: “Descobri, mamãe! Vou falar para meu amigo assistir Kirikou e a Feiticeira e ver que ele é pequeno e valente, e quando eu cantar a música do filme ele vai entender que Kirikou é pequeno, mas é meu amigo e é bem valente!” E quem sabe o meu professor não passa o filme na escola e assim todo mundo entende junto…” A mensagem da tolerância. Minha pequena Clarice adormeceu tranquila e eu também, por achar que fiz escolhas certas nessa trajetória.
Fica então a reflexão de que, para garantirmos o bem-estar infantil e adolescente, é preciso fortalecer psicologicamente as crianças e prepará-las para encarar as dificuldades emocionais e interpessoais que acompanham, de maneira intrínseca, a vida cotidiana, e futuramente as frustrações e pressões profissionais.
Essa árdua tarefa começa em casa, claro, mas deve se desdobrar na escola. As crianças precisam cada vez mais trabalhar suas habilidades socioemocionais, desde pequenas, e isso deve acontecer também na escola. É nesse espaço que vão experimentar, pela primeira vez, regras de convivência comunitária: a compartilhar, a se inscrever no mundo, a trocar experiências e, principalmente, a ser mais empáticos e inclusivos.
Não existe aprendizagem sem relação e não existe relação sem afeto. A saída aos meus olhos é, sem dúvida, uma educação que respeita o aluno como um ser que sente, que se afeta, tem vontades, um tempo e uma expressão única. E que na relação com o professor mostra a cada pergunta, conflito e encantamento o quanto nós adultos, muitas vezes, nada sabemos.

(fonte: http://outraspalavras.net/cultura-2/a-escola-do-seculo-21-e-a-intuicao-de-clarice/)

Notícias do Café História

[1] Mural do historiador:
 Antiguidade e África
A Revista Hélade acaba de  publicar um novo número. O dossiê "Jogos, Desporto e Práticas Corporais na Antiguidade" traz artigos de Gilberto da Silva Francisco, Lilian de Angelo Laky e Anderson Martins Esteves. E mais: a edição 125 da RHBN chega às bancas com um tema clássico e desconhecido: as diversas tradições políticas da África.  [Confira]
[2] Notícias em destaque: 
Nazismo
Uma espécie de cápsula do tempo com relíquias do regime de Adolf Hitler foi descoberta enterrada próxima aos alicerces da caixa d’água de um prédio na cidade de Złocieniec, no noroeste da Polônia. Após a invasão, o município ganharia o nome alemão Falkenburg, que só seria alterado após o final da guerra, em 1945. [Confira]
[3] Dicas e lançamentos de livros:
 Hannah Arendt
Hannah Arendt, História da Alemanha e Criminosos Nazistas. Tudo isso em nossas dicas de livros. [Veja]
[4] Acadêmico:
 Anpuh
Já estão abertas as inscrições para coordenação de Simpósio Temático e de Minicursos no XXIX Simpósio Nacional de História, o prazo limite é dia 14/10/2016. Os interessados devem estar em dia com a anuidade de 2016 e ter a titulação de doutor(a). [Clique aqui]

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Prisão de Guido Mantega, um ponto fora da curva


Texto escrito por José de Souza Castro:

A prisão de Guido Mantega pela Polícia Federal, cumprindo ordens do juiz Sergio Moro, foi um ponto fora da curva. O juiz se viu obrigado a cancelar a prisão poucas horas depois. Motivo: a forte reação pelo fato de a PF ter ido ao Hospital Sírio-Libanês para buscar o ex-ministro da Fazenda dos governos Lula e Dilma, onde ele acompanhava a mulher para uma cirurgia que poderia livrá-la do câncer.

Foi um ato monstruoso, declarou o blogueiro Fernando Brito, logo repercutido em diversos blogs. Não havia urgência na prisão, pois a ordem de Moro fora assinada na manhã de 16 de agosto. Ou seja, 22 dias antes. Por que esperar, para que a prisão fosse feita exatamente dentro do Hospital Sírio-Libanês?

Se não é o produto de uma “fábrica de monstruosidade em curso, que repugnaria qualquer tribunal onde houvesse um mínimo de humanidade”, como escreveu Brito, foi um ato deliberado de sabotagem da Polícia Federal a Sérgio Moro.

Se sabotagem, o responsável será punido, mas dificilmente o distinto público ficará sabendo.



Eu me lembro de “Absolute Friends”, um bestseller escrito pelo britânico John Le Carré e publicado pela primeira vez em 2003, ano da invasão do Iraque por tropas dos Estados Unidos e Grã-Bretanha, com o apoio de pequenos contingentes da Austrália, Dinamarca e Polônia e oposição das Nações Unidas, em especial dos governos da França, Alemanha e Rússia.

Dois anos antes, em 11 de setembro de 2001, as Torres Gêmeas do World Trade Center, em Nova York, tinham sido derrubadas e o presidente George W. Bush declarou guerra ao terror em qualquer parte do mundo. Precisava, porém, convencer países e populações de que era uma guerra justa e não apenas a tentativa de ocupar países ricos em petróleo.

Não vou contar o final do livro, para não prejudicar leitores que ainda não leram uma das melhores obras de Le Carré e queiram ler. Mas posso dizer que essa operação de nossa Polícia Federal foi, no que respeita a estratégia americana de domínio do mundo – e em especial do Brasil – um ponto fora da curva.

A invasão do hospital para prender um ex-ministro da Fazenda sob a justificativa de apurar suspeitas de corrupção envergonharia os estrategistas dos serviços de segurança dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha – que, no livro, foram bem sucedidos em convencer a maioria de que sua causa era justa.

E que no Brasil tiveram, até agora, sucesso em substituir um governo eleito por um não testado nas urnas, mas disposto a fazer tudo que seu mestre mandar. Para começar, mudando as regras de exploração do pré-sal estabelecidas pelos governos anteriores ao de Michel Temer e, de sobra, privatizando outras riquezas brasileiras e alterando as leis de proteção aos trabalhadores e aposentados.

No livro de Le Carré, a imprensa mundial teve papel importante no convencimento de que a farsa de Heidelberg não era uma farsa. Deixou-se ser gostosamente enganada. No desfecho da trama, quando os “terroristas” foram massacrados por forças especiais americanas naquela cidade alemã, não se permitiu a presença de fotógrafos e de repórteres de jornais e revistas ou de televisão. Só puderam fazer seu trabalho dias depois, quando a cena do crime já havia sido convenientemente preparada.

As últimas páginas do livro são dedicadas a mostrar como a imprensa pode ser manipulada ou ludibriada, mundo afora.
Quem acompanha a imprensa brasileira não se surpreende.

Mais um pouco do Tijolaço de Fernando Brito, com o curioso título de “Moro, o açougueiro da mídia”.
(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/09/23/prisao-guido-mantega/#more-13030)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Difícil de acreditar, mas Trump pode ganhar

Robert Kuttner, Huffington Post

Como pode ser que Donald Trump esteja no limite de superar Hillary Clinton? Mesmo com todas as maneiras em que Trump demonstrou sua total inadequação para liderar os Estados Unidos, quase metade dos eleitores norte-americanos parece disposta a dar uma colher de chá para ele o suficiente para elegê-lo.

Um fator é que as elites políticas subestimaram o desafeto profundo da classe média e trabalhadora. Os brancos da classe trabalhadora podem estar melhor de vida em comparação com a maioria dos negros, latinos e imigrantes, mas eles não vêem desse modo, e não sem razão.

Por décadas, duas tendências estiveram convergindo: o aumento da insegurança econômica e a queda do ganho entre homens brancos, e as tardias, inteiramente legítimas reclamações de grupos isolados.

O Partido Democrata abraçou essas demandas – das mulheres, negros, gays, lésbicas e transsexuais, imigrantes e refugiados. Isso é um crédito aos Democratas.

Essa eleição seria uma história totalmente diferente se também defendessem as pessoas da classe trabalhadora contra as elites econômicas, mas ele fizeram isso de maneira hesitante. Ao contrário, para a maioria da classe trabalhadora branca, os Democratas parecem estar nos bolsos dos banqueiros igual aos Republicanos.

Há um grupo para o qual as reclamações deveriam ser direcionadas - magnatas corporativos e outros membros do Um Porcento. Mas a coalizão de todo mundo contra contra o um porcento não se realizou. Política identitária está em contradição com política de classe. Trump, enquanto isso, faz um bom trabalho em fingir indignação em nome do norte-americano comum, mesmo com seu próprio histórico de ferrar com quem puder.

A mais jovem de todas as raças enfrenta futuros desoladores, e não estão ansiosos co nenhum candidato. Normalmente, o voto iria para o Democrata. O que aconteceu fortemente para Bernie Sanders e Barack Obama. Mas eles representavam mudança.

O que nos leva a um segundo fator na ascensão de Trump, chamada Hillary Clinton. Ela é bem liberal na maioria das questões sociais. Mas é difícil vendê-la como uma candidata da mudança.

Os eleitores estão em um clima populista e em um clima de se virar a um forasteiro. Isso ajuda a explicar tanto a atração de Trump quanto a 'quase vitória' de Bernie Sanders.

Mas vamos encarar – entre os Democratas, seria difícil pensar em um candidato que seja menos populista e mais informante do que Clinton. Até o fato de ela ser uma mulher não causou a ansiedade que se esperaria desse tipo de avanço. As taxas para oradores da Goldman Sachs e as ainda secretas transcrições desses discursos, são coisas bem mansas comparadas às mentiras e furtos de Trump, mas em um nível simbólico, em uma campanha, acabam se equivalendo.

Em um ano comum, contra um oponente comum, o histórico de Clinton de experiência excepcional seria algo a mais. Esse ano, é um sinal de que é uma informante.

Barack Obama foi capaz de conquistar uma vitória surpreendente, como um jovem quase desconhecido senador e como um afro-americano, precisamente por não ser um infiltrado. Ele gerou grande entusiasmo entre os jovens que Clinton tem sido incapaz de incitar.

Então a eleição vai se resumir em três fatores: se os Democratas podem motivar sua base para ir votar – se não pelo entusiasmo então por tarefa, dado os atos riscos; como os dois candidatos se sairão nos debates; e o papel da sorte.

Barack e Michelle Obama irão trabalhar cada vez mais para conseguir o voto Democrata. Isso é um plus, mas também tem um risco. Com seu carisma, eles podem ofuscar o candidato.

Os debates irão se resumir em alguns pontos. O hábito do Trump de dominar o palco virá como especialidade ou bullying? A longa experiência de Hillary nos debates virá como evidência de sua expertise superior, ou irá fazer com que ela pareça fechada?

Trump irá, fora do roteiro, realizar um de seus equívocos padrões ? – inventar fatos e ser pego, depreciar algum grupo – e o eleitorado ao menos prestará atenção?

Se eu tivesse que apostar, apostaria que os debates serão um plus para Clinton contra o impetuoso Trump. Mas as habilidades de Trump como exibicionista têm sido constantemente subestimadas.

É difícil aprimorar a prévia dos debates de James Fallow, que você deveria ler.

As semanas finais, que Deus nos ajude, irão se resumir à pura sorte. Haverá mais um episódio terrorista, outra estagnada na saúde de Clinton, revelações por email ou da Fundação Clinton? Trump, o impulsivo falhará em se manter no roteiro? E os eleitores irão, ao menos, enxergar o quão ameaçadora seria uma presidência Trump?

Um amigo sugeriu uma festa na noite da eleição, em Montreal. Muitos canadenses já brincaram que se Trump ganhar, irão erguer um muro – e fazer com que os norte-americanos paguem por ele.

Isso não é engraçado.
(fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Dificil-de-acreditar-mas-Trump-pode-ganhar/6/36872)

Argentina, o Brasil de amanhã?

Por Cauê Ameni e Hugo Albuquerque

Era para ter sido só mais uma sexta-feira de inverno em Mar del Plata. Tudo se resolveria com um discurso simples, recheado de lugares comuns e uma partida tranquila. Contudo, Maurício Macri, presidente da Argentina, não conseguiu discursar mais do que dez minutos. Ele não resistiu às – nada metafóricas – pedradas desferidas pela multidão aos gritos de “Macri, basura [lixo], vos sos la ditadura”. O líder argentino encerrou seu breve discurso e entrou rapidamente no carro oficial, cercado pelos manifestantes.
Qualquer semelhança com o sumiço do então “presidente” Michel Temer, que quebrou o protocolo ao pedir que seu nome não fosse anunciado na abertura das Olimpíadas e seu desaparecimento no encerramento, além das vaias ensurdecedoras na abertura das Paraolimpíadas, não são meras coincidências. Macri chegou ao poder prometendo reduzir a inflação, a pobreza e o desemprego, além de tentar acalmar os ânimos na polarização política. Entretanto, os primeiros efeitos são exatamente o contrário. Embora esteja no poder em virtude do voto, representa setores com agendas políticas parecidas às que aqui sustentam Temer. Como chegou ao poder um pouco antes, a Argentina já sente o peso, das medidas de austeridade mais claramente.
Enquanto os manifestantes brasileiros tiveram seus cartazes de protesto caçados dentro dos estádios e são recebidos com cassetetes nas ruas por se oporem ao processo de impeachment, os manifestantes argentinos reagem a repressão. Organizações em defesa de perseguidos e desaparecidos políticos na ditadura, conduzem atos enormes de resistência na esteira do rumoroso caso da tentativa de prisão de Hebe de Bonafini, líder das mães da praça de maio – em 4 de agosto último, resultando em um rotundo fracasso e consequente desmoralização das forças da repressão locais. Além disso, para colocar mais gasolina na fogueira, aliados de Macri estão relativizando a cifra de mortos da última ditadura e tribunais agora começam a liberar repressores da ditadura.
Várias perguntas se insurgem sobre a atual conjuntura: o que significa a presença de Macri no poder para a Argentina e para a América Latina? O que explicaria tamanha fúria contra um jovem presidente, eleito como novidade, com apenas nove meses de mandato? As suas políticas econômicas estão sendo mal compreendidas? Qual a real situação argentina? Seria a Argentina a imagem do Brasil e da América Latina de amanhã?
Macri: a “novidade” contra atípica estabilidade da Era Kirchner
Eleito em 2015, Macri conseguiu a “proeza” de se tornar o primeiro candidato neoliberal a presidir a Argentina depois da catástrofe social, econômica e política que explodiu naquele país em 2001, quando cinco presidentes passaram pela Casa Rosada, sede do poder argentino, em poucas semanas – consequência deflagrada diretamente pelas políticas neoliberais que afundaram o país naquela ocasião.
Dali em diante, e com a prosperidade socioeconômica iniciada nos doze anos de governos do casal Néstor e Cristina Kirchner (2003-2015), parecia ser muito difícil que a direita neoliberal voltasse ao poder. Sobretudo por não ter havido nenhuma crise relevante, mesmo nos maus momentos do Kirchnerismo – levando em consideração que a grande crise argentina de 2001 contudo, não foi nem a única, nem a mais trágica dos últimos cem anos naquele país.
A era kirchnerista (2003-2015) foi um dos períodos de maior estabilidade – política, mas também econômica – da história argentina. Quase uma ilha pacifica em meio a um mar turbulento. Desde que o sufrágio universal foi instituído naquele país, pela Lei Sáenz Peña,em 1912, não demorou muito para que os problemas aparecessem: já em 1930 os argentinos se viram diante do primeiro dos cinco golpes militares – totalizando vinte e cinco anos de regimes militares de corte fascista.
Filho da elite argentina, ex-presidente do Boca Juniors, ex-prefeito de Buenos Aires, Macri pode ser tudo, menos um elemento novo na política de seu país ou da América Latina. Contudo ele conseguiu ser vendido com ares de novo, eleitoralmente, por uma razão episódica: sem nunca ter sido militar e não vir de nenhum dos dois principais partidos da Argentina moderna, seus marqueteiros conseguiram maquiar sua biografia.
Vitorioso em segundo turno contra o moderado Daniel Scioli – candidato peronista apoiado, de maneira não muito animada, por Cristina Kirchner – Macri teve um êxito eleitoral apertadíssimo (51,34% contra 48,66% do rival) o exato mesmo placar com o qual Dilma Rousseff bateu seu rival Aécio Neves em 2014 – e um pouco mais do que Maduro bateu Henrique Capriles em 2013 na Venezuela (na ocasião, 50,61% a 49,12%). Nos casos brasileiro e venezuelano, o ponteiro das urnas continuo inclinado para o campo popular, mas no caso argentino ele pendulou a favor das elites.
Depois de anos de constituição de direitos, como a legalização do casamento homoafetivo, o enfrentamento do legado militar, uma lei que *regulamentou* o setor midiático e a realização de eleições regulares, o discurso de Macri explorou o esgotamento do ciclo progressista e um suposto mau momento econômico.
Sem registrar a ocorrência de nenhum desastre político à moda Argentina, a tese do desgaste de Cristina em virtude da situação econômica poderia ser uma explicação plausível. Mas a pergunta de facto é: até que ponto Macri teria razão nisso, qual a real gravidade da situação econômica argentina em 2015?
A economia argentina sob kircherinismo desestabilizou o país? Plano Macri seria a solução?
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O gráfico acima é um resumo do crescimento do PIB argentino desde 1961. Os altos e os baixos lembram a melancolia de um tango: da ribalta à sarjeta em uma mesma vida. Não foram poucas as vezes que a economia argentina foi do céu ao inferno em um curtíssimo espaço de tempo. Na era kirchnerista, contudo, o PIB jamais caiu, em que pesem os últimos anos de Cristina serem marcados por uma desaceleração do crescimento – movido, sobretudo, pela queda nos preços internacionais das commodities.
A mídia, que viu seu monopólio ameaçado com a Ley de Medios, e Macri, contudo, conseguiram convencer os argentinos da suposta gravidade da situação econômica do país e, não só, sutilmente deixar no ar que seriam necessários ajustes. Scioli, o candidato peronista, tampouco parecia ter desenvoltura para explicar a queda do ritmo de crescimento ou, quem sabe, defender o modelo socioeconômico que, por sinal, não era exatamente o seu – Scioli é uma cria do menemismo, vertente neoliberal do peronismo, referente ao ex-presidente Carlos Menem (1989-1999).
Visto em conjunto o período kirchnerista sob a ótica econômica, registrou-se uma média de crescimento anual de 5,2% – tendo uma sequência em torno de 9% nos mandatos de Néstor; a taxa de desemprego despencou de 20% no fim de 2002 para 6% no final de 2015 – com queda de 87% na desigualdade salarial e uma valorização salarial, em termos reais, de mais de 70%.
A balança comercial se manteve superavitária, a exportação chegou a quadruplicar em 2011 – indo de 25 bilhões de dólares em 2002 para 84 bilhões dólares. Ano em que o PIB per capita atingiu 17.376 dólares, o maior na América Latina. Em 2015, o país teve seu primeiro défict na balança comercial depois de 15 anos, mas, mesmo assim, manteve o crescimento do PIB em 2,4%.
Do ponto de vista social, a pobreza recuou severamente: de 57,8% nos anos da crise para apenas 29% no último ano de Cristina Kirchner no poder. A desigualdade social seguiu um rumo de queda muito acentuado depois de ter atingido seu auge, não por caso, em virtude da crise de 2001 – na qual os mais pobres, evidentemente, sofreram mais do que os mais ricos.
Ponto polêmico, a inflação foi controlada, despencou de 40% em 2002 para metade, chegando a 8% no último ano do mandato de Nestor. Embora tenha se elevado posteriormente, tendo uma média de 13,3% nos governos da Cristina, criou-se uma celeuma entre o governo Kirchner e a oposição, que acusava o governo de maquiar dados – muito embora a legislação e a atuação governamental, inclusive nas articulações junto aos sindicatos, sempre garantissem reposições salariais.
Concretamente, a economia argentina passou a crescer menos nos últimos anos de Cristina. Macri tinha esse flanco e a inflação, ainda que com seus efeitos contidos pelas políticas de Cristina. A crise foi desenhada, vendida e, ao final do processo eleitoral, comprado pelo eleitorado argentino, ainda que por uma pequena vantagem. Agora, era hora da nova etapa, quando o discurso de Macri iria encontrar a realidade prática.

A “solução” macriana

As primeiras atitudes de Macri no governo foram surpreendentes para muitos argentinos: ao contrário de resolver pragmática e gradualmente os problemas, da “grande crise” que ele e seus marqueteiros criaram, ele construiu um cavalo de troia para mudar o modelo econômico; apostou todas as fichas em uma mudança completa do modelo econômico do país, dando um enorme cavalo de pau, independentemente do custo que isso tivesse.
Noves meses depois das promessas, Macri, que propagandeava a retomada da economia e o crescimento de 1% em 2016, vai ter de se contentar com a queda de 1%. Basicamente, algumas das mudanças radicais que ele promoveu foram a violenta e abrupta desvalorização do peso argentino (30% já em dezembro) e os cortes nos subsídios implantados durante o kircherismo. Em outras palavras, promoveu um verdadeiro tarifaço: 400% nas contas do gás; na tarifas de energia houve um aumento de 300%, chegando em alguns casos a 700%; o aumento na água oscilou de 216% e 375%; o combustível aumentou 35% acumulados desde dezembro; e o preço do transporte público teve um aumento de 100%. A sanha de cortar sem anestesia para “reduzir o estado” foi tanta, que o governo chegou ao ponto de cortar 160 remédios distribuídos para aposentados e pensionistas.

 Ambas as medidas, com fulcro em aumentar os ganhos de concessionários e grandes detentores de dólares, fizeram, irônica e justamente, inflação disparar, alcançando a casa de 46%, a mais alta desde 1991 – ao fim do governo Cristina, a mesma taxa estava em 25% há oito meses. Ironicamente, o governo Macri insiste em dizer que a inflação é menor do que a acusada pelos órgãos independentes, a mesma prática que ele condenava na antecessora. Por outro lado, o governo tem sido duro nas negociações salariais, não repondo as perdas com a inflação – o que torna o problema inflacionário muitíssimo maior.
Ainda, com a retração do consumo interno (o gasto médio de compra caiu 26,5%) e o baixo preço das commodities – sejam os derivados de gás e petróleo ou mesmo os produtos agrícolas –, além da incerteza sobre qual será o novo desenho da economia argentina, que está bem no meio de um cavalo de pau, fez com que o crescimento desacelerasse: nos três primeiros trimestres de 2016 a economia caiu em um ritmo cada vez mais acelerado,sugerindo um desempenho negativo no final do ano, o primeiro desde 2001. Segundo a consultora Scentia, alguns setores da economia foram fortemente golpeados pelo aprofundamento da recessão: a atividade na construção civil caiu 19,6% e a indústria recuou 6,5%. Segundo os sindicatos, até junho foram demitidos 200 mil assalariados. E para piorar, Macri vetou uma lei antidemissões.
Como consequência, com o avanço da inflação afetando os trabalhadores – duplamente, pelo avanço objetivo das tarifas de serviços públicos e como isso aumenta o preço de outras mercadorias por irradiação – e a desvalorização do peso favorecendo os mais ricos – que detinham reservas em dólares – verifica-se um desaquecimento geral que fez o desemprego saltar de 5,9% para 9,3% sob Macri!Ademais, estudos comprovam que neste curto período mais de um milhão de argentinos entraram na linha de pobreza – que agora chega a 34,5% da população.
A popularidade do novo governo também despencou. Ao tomar posse, em 10 de dezembro, Macri contava com 63%. Hoje, segundo a pesquisa da M&F de agosto, apenas 43,1% dos argentinos o aprovam, contra 42,6% que desaprovam e 43% que esperam uma situação econômica pior nos próximos meses.
A política neoliberal ortodoxa de Macri conseguiu destruir até hábitos arraigados entre os argentinos: os churrascos se tornaram vaga lembrança quando preço da carne dobrou. A combinação dos efeitos cruzados da restauração da economia neoliberal e a repressão – necessária para garantir a implementação dessa Doutrina de Choque, mas também dissuasória – não estão isoladas de um contexto internacional turbulento, o qual também está conectado com fenômenos paralelos na América Latina – mas o que representaria, do ponto de vista institucional, a volta da arte de governo neoliberal no cenário pós-inclusão social dos últimos anos?
Até lá, a economia deixa o governo sob pressão e com popularidade em queda. Pesquisa da M&F de agosto indica que 42,6% dos argentinos desaprovam a forma como Macri conduz o governo, contra 43,1% que aprovam. E 43% esperam uma situação econômica pior nos próximos meses, contra 34,7% que esperam melhora e 18,2% que não veem mudanças.

Restauração neoliberal na América Latina, com as bençãos de Washington

Macri, é verdade, veio num momento no qual as experiências de esquerda popular da América Latina estavam em fase de declínio – do radical Chavismo ao brando Lulismo, as quais nasceram da resposta ao neoliberalismo dos anos 1990. Nesse sentido, Macri é o marco de uma indisfarçável restauração construída sob um véu clean e moderado de mudança.
Não que os governos populares, em que pesem suas inúmeras e relevantes conquistas, não tenham igualmente falhado: fiaram seus planos e projetos nos altos preços das commodities – sobretudo, do petróleo – enquanto supuseram que grandes economias “nacionais” poderiam dar conta de superar ou mesmo enterrar definitivamente o neoliberalismo ou, de maneira ambiciosa, as contradições entre as classes.
A economia extrativista, pouco preocupada com a natureza e pouco centrada na criação e inovação, indispôs os governos populares com suas bases, mas também encontrou seu limiar econômico com a queda do preço do petróleo, em grande medida pela política americana no Oriente Médio: daí, surgiu um verdadeiro efeito dominó que, a priori, pôs as elites em desespero pela perspectiva de arcarem com algum custo dessa crise.
Como se sabe, a oportunidade é a mãe da invenção. As oligarquias tradicionais sul-americanas, nesse contexto, fabricaram e implementaram um plano arriscado: remover a todo custo os governos populares para, assim, empossar governos dispostos a implementar políticas de “ajuste” que se apliquem apenas sobre os trabalhadores e os mais pobres.
De maneira coordenada, se viu na Venezuela, no Brasil e na Argentina o surgimento de candidaturas dessa nova direita quase idênticas: Capriles, Aécio e Macri – embora só o último tenha vencido uma eleição para dar mostras do que poderiam ser os dois outros.
A novíssima direita sul-americana apresenta líderes que contrastam sua estética moderada com, ironicamente, um marxismo às avessas na prática: a defesa de políticas radicais assentadas em um sujeito político classista – não os trabalhadores, mas a oligarquia –, a ação antagônica e nenhuma disposição à conciliação.
Na Venezuela e no Brasil, o jogo eleitoral agressivo foi continuado, após a derrota da direita, com uma pressão para deslegitimar a qualquer custo os líderes democraticamente eleitos. No Brasil, esse movimento chegou ao golpe branco implementado contra Dilma Rousseff. Na Venezuela, a polarização nas ruas e a busca pela revogação do mandato de Maduro não difere em nada.
A aparente normalidade institucional da chegada ao poder de Macri é, portanto, episódica e não uma questão de princípio. Materialmente, a política de Macri é a de Capriles e a de Aécio – e agora a de Temer, vice de Dilma que chega ao poder após uma manobra parlamentar para aplicar, tragicamente, o programa chumbado nas urnas pelos eleitores brasileiros em 2014.
Ainda, o arranjo de direita na América do Sul marca a volta da velha aliança à geopolítica dos Estados Unidos – como sugere a nada inocente visita de Obama à Argentina, durante o processo de impeachment de Dilma, para acordar a abertura de duas bases norte-americanas com Macri. Essa recentíssima investida neoliberal, por sinal, reforça a histórica aliança entre as oligarquias latino-americanas e a ação militar burocrática dos Estados Unidos.
Os discursos assentados na correção técnica dos erros dos governos populares, desse modo, logo se desmontam ao se defrontarem com os dados, assim que os neoliberais voltam ao poder: no caso argentino, os indicadores pioraram com Macri, mas isso pouca importa, visto que o objetivo desde o começo sempre foi uma mudança do modelo socioeconômico.
Nesse sentido, uma escalada repressiva passa a fazer todo sentido – como no caso de Hebe de Bonafini, mas também na ameaça inquisitória contra Cristina Kirchner –, pois isso não é apenas uma forma de conter a contestação social, mas também de literalmente desviar o foco da opinião pública sobre os efeitos desastrosos dessa restauração.
Por ora, Macri passa a usar uma blindagem também nos seus carros oficiais – em virtude da celeuma de Mar del Plata, que deu início a este ensaio – a qual se somar a todas as demais blindagens simbólicas e midiáticas que lhe protegem – mesmo assim, sua popularidade chegou em agosto ao mais baixo ponto de sua breve presidência, lançando dúvidas até onde ele poderá e terá coragem de ir. A única certeza, além do derretimento dos indicadores sociais e econômicos argentinos, é que aquele país é a imagem do futuro próximo que assombra a América do Sul – o Brasil de Temer sobretudo.
Cauê Seignemartin Ameni é sociólogo formado pela PUC-SP. Editor de Outras Palavras, subeditor no De Olho Nos Ruralistas e editor da editora Autonomia Literária.
Hugo Albuquerque é jurista, mestre em Direito Constitucional pela PUC-SP, sócio da Saccomani, Albuquerque & Biral Sociedade de Advogados e editor da editora Autonomia Literária.

(fonte: http://outraspalavras.net/mundo/america-latina/argentina-o-brasil-de-amanha/)