sábado, 18 de maio de 2013

Velhas ideias emperram a economia

O texto abaixo, do jornalista José de Castro, nosso antigo colaborador, corrobora o post anterior, em que se fazem críticas ao terrorismo econômico praticado por certa mídia.
A matéria foi extraída do blog da Kika Castro



Texto escrito por José de Souza Castro:
Em seus artigos nos jornais, o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto vem descrevendo a realidade econômica brasileira com opiniões divergentes daquelas manifestadas, em entrevistas no rádio e na televisão, por colegas economistas. Sobretudo, por profissionais conhecidos e dispostos a criticar na TV Globo, na CBN e na Globo News, linhas de frente da direita brasileira, o Banco Central do Brasil, o Ministério da Fazenda e todos os demais responsáveis pela política econômica do governo Dilma Rousseff.
Isso tem acontecido com mais garra desde que o governo começou a enfrentar o problema dos juros altos, numa tentativa de reativar a economia, mas se ampliou neste ano com a alta da inflação. Divergências em assuntos econômicos são naturais, pois a economia não é uma ciência exata. O questionável é quando se usa um dos lados da divergência para martelar opiniões, o dia todo, no noticiário e nos comentários econômicos, para fazer oposição. Fazer aquilo que Janio de Freitas chama de “terrorismos e eleitorismos”.
O respeitável jornalista sugeriu na última quinta-feira, na “Folha de S. Paulo”, a leitura de um artigo do economista Bráulio Borges, publicado dois dias antes no mesmo jornal. Nele, o economista-chefe da LCA Consultores afirma que ocorre um debate mundial que começa a reavaliar velhas ideias. (E que, é a minha opinião, vem sendo ignorado por aqueles economistas, por ignorância mesmo ou por má-fé.)
Essas “velhas ideias” são as mesmas que fundamentam as críticas à política econômica do governo brasileiro, por ele estar se despregando, a duras penas, da política macroeconômica estabelecida no Brasil na década de 1990. Até a crise financeira mundial de 2008, diz Bráulio Borges, os seguidores dessa política – que nasceu do chamado Consenso de Washington, no final da década de 1980 – acreditavam que manter a inflação baixa e estável, com o emprego de taxas de juros, era condição necessária e suficiente para alcançar a estabilidade macroeconômica no seu sentido mais amplo. No entanto, verifica-se hoje, segundo Borges, que “há cada vez mais consenso de que os Bancos Centrais não devem perseguir apenas uma meta (inflação), mas também se preocupar explicitamente com a atividade econômica e com a estabilidade financeira”.
É o que vem tentando fazer o Banco Central do Brasil, ao lançar mão de outros instrumentos – e não apenas elevar a taxa básica de juros. Sem abandonar o sistema de metas de inflação, estão sendo levadas em consideração outras metas. O novo consenso implica em mudanças na política cambial e adoção seletiva de alguns tipos de controles de capitais.
Conforme Bráulio Borges, muitos defensores das ideias antigas, como John Williamson, tido como um dos pais do Consenso de Washington, vêm mudando suas cabeças, ao menos parcialmente. O autor cita John Maynard Keynes, criador da macroeconomia: "A verdadeira dificuldade não está em aceitar novas ideias, mas escapar das antigas".
Cabe a nós, que não somos economistas, escapar dessas ideias que nos querem impingir. Não devemos deixar que os serviçais do grande capital façam a nossa cabeça, porque dificilmente o melhor para eles é o melhor para nós.
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Não assinantes da “Folha de S. Paulo” podem ler AQUI o artigo de Janio de Freitas e AQUI o de Bráulio Borges.


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jânio de Freitas e o terrorismo do noticiário econômico

O notório comuno-petralha Jânio de Freitas (kakakakaka...não resisti a gargalhar do que escrevi! perceberam a ironia do adjetivo, espero!) em mais um artigo lúcido, a contrariar o próprio jornal em que trabalha. Vale a pena ler!


Jânio de Freitas e o terrorismo do noticiário econômico

Enviado por luisnassif, qui, 16/05/2013 - 07:49
Da Folha
Velhas ideias
O terrorismo do noticiário econômico martela; não sei dizer se o governo está aturdido com isso
JANIO DE FREITAS
Liguei o rádio no carro. Entrou de sola: "é crucial e não é bom!". Um susto. O que seria assim dramático? A caminho do almoço, o susto devorou o apetite. Claro, era mais um dado da realidade terrível que o Brasil vive. As vendas no comércio de varejo, no primeiro trimestre ou lá quando seja, caíram a barbaridade de 0,1%.
O comércio vendeu, no período, menos R$ 0,10 em cada R$ 100. Pois é, crucial e nada bom.
Os preços, como o seu e o meu bolso sabem, vêm subindo à vontade há tempos, o que fez com que o comércio precisasse vender muito menos produtos para completar cada R$ 99,90 do que, na comparação com o passado, precisara para vender R$ 100. Mas, na hora, não tive tempo de salvar o apetite com esse raciocínio, porque à primeira desgraça emendava-se a notícia de outra. A queda desanimadora nas vendas para o Dia das Mães, comparadas com 2012: queda de 1%.
É preciso lembrar o quanto os consumidores encararam em aumentos de preços de um ano para cá? O comércio brasileiro está lucrando formidavelmente, com o maior poder aquisitivo das classes C, D e E, aplicado na compra dos tênis aos eletrodomésticos, dos móveis às motos, quando não aos carros.
O terrorismo do noticiário e dos comentários econômicos martela o dia todo. Não sei dizer se o governo está aturdido com isso, como parece das tão repetidas quanto inconvincentes tranquilizações do ministro Guido Mantega. Ou se comete o erro, por soberba ou por ingenuidade, de enfrentar a campanha que está, sim, fazendo opinião.
Daí que me permito duas sugestões, se v. quer elementos para formar sua própria opinião. O primeiro é a leitura, disponível no site da Folha (folha.com/no1278158), de um artigo muito importante, publicado no caderno "Mercado" de terça-feira. Seu autor é Bráulio Borges, mais um economista que escreve em português (um dia chegaremos à primeira dúzia).
Em "Pós-crise de 2008, debate mundial começa a reavaliar velhas ideias'", Borges mostra que as cabeças mais relevantes da "ciência econômica" estão derrubando as teses de política econômica ainda predominantes e adotadas pelos economistas e outros contra as linhas básicas da política econômica no Brasil.
A outra sugestão é para que v. comece bem as quartas-feiras. Se lhe ficam ainda reservas vindas de longe, releve-as e leia os artigos em que Delfim Netto tem dito muito do que precisa ser dito para fazermos ideia de onde e como estamos, de fato. Descontados, pois, terrorismos e eleitorismos. Ou, no caso, são a mesma coisa?
E como crucial vem de cruz, não se esqueça: enquanto o papa Francisco não chega, reze pelos nossos comerciantes, para que recuperem suas perdas.

Os jovens finlandeses desejam ser professores!

Já postei algo a respeito, mas volto hoje com este texto e um video. Professores, vejam, reflitam, lutem para que algo parecido possa ser feito aqui no Brasil!


O que vem antes: a qualidade do serviço público ou o imposto mais alto?



Duvido que no Brasil a elite aceitaria tais condições. Aliás, nossos compatriotas detestam pagar impostos (fazem de tudo para sonegá-los), mandam 1/3 do PIB para paraísos fiscais para gastarem nas férias, quando estão no exterior. E não vão à Escandinávia porque acham que lá é muito frio e terra de vikings, mas bem que podiam ao menos se informar um pouco melhor sobre o porquê do sucesso deles.
Acaba de sair um levantamento sobre educação no mundo feito pela editora britânica que publica a revista Economist, a Pearson.
É um comparativo no qual foram incluídos países com dados confiáveis suficientes para que se pudesse fazer o estudo.
Você pode adivinhar em que lugar o Brasil ficou. Seria rebaixado, caso fosse um campeonato de futebol. Disputou a última colocação com o México e a Indonésia.
Surpresa? Dificilmente.
Assim como não existe surpresa no vencedor. De onde vem? Da Escandinávia, naturalmente – uma região quase utópica que vai se tornando um modelo para o mundo moderno.
Foi a Finlândia a vencedora. A Finlândia costuma ficar em primeiro ou segundo lugar nas competições internacionais de estudantes, nas quais as disciplinas testadas são compreensão e redação, matemática e ciências.
A mídia internacional tem coberto o assim chamado “fenômeno finlandês” com encanto e empenho. Educadores de todas as partes têm ido para lá para aprender o segredo.
Se alguém leu alguma reportagem na imprensa brasileira, ou soube de alguma autoridade da educação que tenha ido à Finlândia, favor notificar. Nada vi, e também aí não tenho o direito de me surpreender.
Algumas coisas básicas no sistema finlandês:
1)Todas as crianças têm direito ao mesmo ensino. Não importa se é o filho do premiê ou do porteiro.
2)Todas as escolas são públicas, e oferecem, além do ensino, serviços médicos e dentários, e também comida.
3) Os professores são extraídos dos 10% mais bem colocados entre os graduados.
4) As crianças têm um professor particular disponível para casos em que necessitem de reforço.
5) Nos primeiros anos de aprendizado, as crianças não são submetidas a nenhum teste.
6) Os alunos são instados a falar mais que os professores nas salas de aula. (Nos Estados Unidos, uma pesquisa mostrou que 85% do tempo numa sala é o professor que fala.)
sto é uma amostra, apenas.
Claro que, para fazer isso, são necessários recursos. A carga tributária na Finlândia é de cerca de 50% do PIB. (No México, é 20%. No Brasil, 35%.)
Já escrevi várias vezes: os escandinavos formaram um consenso segundo o qual pagar impostos é o preço – módico – para ter uma sociedade harmoniosa.
Não é à toa que, também nas listas internacionais de satisfação, os escandinavos apareçam sistematicamente como as pessoas mais felizes do mundo.
Para ver de perto o jeito finlandês de educar crianças, basta ver um fascinante documentário de 2011 feito por americanos.
Comecei a ver, e não consegui parar, como se estivesse assistindo a um suspense. Achei no YouTube uma cópia com legendas em espanhol. Está no pé deste texto.
Todos os educadores, todas as escolas, todas as pessoas interessadas na educação, no Brasil, deveriam ver e discutir o documentário.
Veja o documentário aqui:
 
 
 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Pela milésima vez, não sou o garçom

No blog da KikaCastro de hoje, a referência a esta matéria publicada no blog Autofricção, do blogueiro Vinicius Luiz. Muito apropriada para o dia de ontem, quando se comemorou a Lei Aurea. E que mostra que é coisa difícil a mudança de mentalidade de uma sociedade...

 

Pela milésima vez, não sou o garçom

Cena 1: festinha na casa de amiga na zona sul. Na portaria, favor se identificar ao porteiro: “Oi, vim pra festa da fulana” “Você é o garçom da festa?” “Não moço, vim festejar mesmo”. Aaah…okay.

Cena 2: aniversário de amiga em famoso bar da Savassi. Chego, cumprimento metade da turma, quando sou interrompido por um rapaz meio afoito. “Traz um copo pra mim” “Hein?” “Um copo, uma cadeira, faz alguma coisa” “Moço, eu não sou o garçom” “Ah, desculpa”.

Essas duas cenas ilustram situações que acontecem comigo volta e meia. O caso do prédio já ocorreu em outras duas ocasiões, já dos bares, perdi a conta. Não teria o menor problema em ser garçom, inclusive esse foi meu primeiro emprego. O que me ofende é ser interpelado no meio da hora feliz com cobranças e, mais, por saber que esse tipo de confusão ou gafe encobre certo racismo.

Certamente, essas cenas não se repetem porque uso o uniforme dos bares que eu frequento,mas sim porque sou negro. Parece que parte da sociedade ainda não consegue dissociar a imagem do negro de profissões tidas como subalternas (ênfase no “tidas”). Quando essas pessoas captam um preto na órbita do seu mundinho feliz, logo pensam: opa, aquele ali vai me servir.

Não tenho estatísticas de quantos garçons ou entregadores são negros, mas conhecendo o Brasil de vista, a impressão que dá é que são a maioria. Portanto, gostaria que ao chegar em um bar, as pessoas fizessem a seguinte operação:

Ainda que a realidade brasileira dê material pra que todos associem negros a posições mais baixas na escala de prestígio das profissões, pense que qualquer pessoa pode trabalhar com qualquer coisa. Em seguida, verifique se o sujeito que você avistou com “pinta de garçom” está uniformizado ou com um abridor de garrafas na mão. Vá em frente e seja atendido. E no caso de o local não ter uniforme? Imagine assim “tá ali um cara que vai me atender, aqui ou no hospital, já que além de garçom ele pode ser médico também” (fui no extremo do politicamente correto pra facilitar a ilustração). Nesse caso, levante a mão até que o verdadeiro garçom, que pode ter feições negras, nórdicas ou nordestinas venha te atender. Em ambas situações, trate bem o atendente, você não é melhor que ninguém. Obrigado.

P.S: recomendo o artigo “O novo racismo”, publicado na Folha de domingo.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Desventuras com o prefeito Márcio Lacerda

Texto escrito por José de Souza Castro: (do blog da KikaCastro)
A prefeitura de Belo Horizonte tem pela frente um grande desafio: acabar com o descrédito em que se encontra. Sobretudo em relação a obras, que no ano passado serviram de pano de fundo para a campanha de reeleição de Marcio Lacerda. A foto publicada no dia 10 deste mês pelo jornal "Hoje em Dia", mostrando uma máquina demolindo uma plataforma recém-construída para o embarque de passageiros no BRT da avenida Cristiano Machado, é mais que chocante. É um exemplo do que parece ocorrer, em geral, com as obras da prefeitura.
E não se pode jogar a culpa, nesse caso, à greve dos funcionários iniciada 11 dias antes, pois o fato gerador da demolição é anterior. Quem quer que seja o culpado, a conta será deixada, certamente, para que a população pagadora de impostos arque com o prejuízo. Não é o que afirma o prefeito, claro. “Isso não vai sair do nosso imposto de cada dia”, disse. Como acreditar, porém?
A demolição se deve a um erro grosseiro de engenharia: a plataforma ficou mais baixa do que as portas dos ônibus, algo inadmissível nesse tipo de transporte coletivo. O custo da obra demolida foi estimado pelo jornal em mais de R$ 1,8 milhão.
Outros erros têm ocasionado atrasos irrecuperáveis na execução das obras do BRT. No site da prefeitura, lê-se que Belo Horizonte foi a primeira, entre as cidades que vão sediar jogos da Copa do Mundo em 2014, a assinar com o governo federal contratos de financiamento do PAC da Mobilidade, totalizando mais de R$ 1 bilhão para a capital mineira. A grande maioria, acrescenta a informação oficial, “com término previsto para antes da Copa das Confederações” – que começa dentro de um mês. As obras do corredor da BRT na Cristiano Machado, iniciadas em setembro de 2011, deveriam ter ficado prontas há dois meses. Elas prosseguem ali e noutros dois corredores sem tempo certo para terminar.
Tais fatos explicam o descrédito que recai sobre programa apresentado há duas semanas pelo prefeito aos vereadores. (Só aos membros da Mesa Diretora, deve ter tido vergonha de uma apresentação pública, em plenário.) Nesse documento está escrito que serão construídos, até 2016, mais dois corredores de ônibus rápidos – os BRTs –, na área central da cidade e na avenida Amazonas. A previsão mais ambiciosa é o término, em 2017, da Linha 3 do metrô – um trecho subterrâneo entre Savassi e Lagoinha –, um ano depois da conclusão da Linha 2 e da modernização da Linha 1. Pelo andar da carruagem, planos de mobilidade urbana como esses não passam de obra de ficção, embora as obras previstas sejam extremamente necessáriaos.
Mas o programa do prefeito vai muito além. Chegam a 40 as metas a serem perseguidas nos próximos três anos. Curiosamente, não consta dele a construção do Centro Administrativo da prefeitura que Márcio Lacerda, segundo confirmou na última terça-feira, pretende construir num terreno próximo das Torres Gêmeas, prédios inacabados localizados no bairro Santa Tereza. Prédios inacabados... E Lacerda querendo nos deixar mais um!

domingo, 12 de maio de 2013

Por que os médicos cubanos assustam

PEDRO PORFÍRIO*

Elite corporativista teme que mudança do foco no atendimento abale o nosso sistema mercantil de saúde
FIG 1
Só em 2011, médicos cubanos recuperaram a visão gratuitamente de 2 milhões de pessoas em 35 países
A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.
Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós. Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.
A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero. Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.
No Brasil, o apego às grandes cidades
FIG 2
Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste
Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.
E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.
Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.
Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.
Sem compromisso em retribuir os cursos públicos
Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.
Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.
Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.
Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.
Concentrados no Sudeste, Sul e grandes cidades
Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades. Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.
Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho, se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.
A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.
Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536. Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.
A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.
A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença. Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical nos seus índices de saúde.
Cuba é reconhecida por seus êxitos na medicina e na biotecnologia
Em sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.
Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.
FIG 3
Quando esteve em Cuba, em 2003, a deputada Lilian Sá foi conhecer com outros parlamentares o médico de família, uma equipe residente no próprio conjunto habitacional
Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.
Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuído por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.
Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.
O Brasil forma 13 mil médicos por ano em 200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.
Formando médicos de 69 países
FIG 4
Estudantes estrangeiros na Escola Latino-Americana de Medicina
Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.
Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.
Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.
Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.
Presença de médicos cubanos no exterior
Desde 1963, com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.
No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.
No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.
Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o regime de Havana, segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

* PEDRO PORFÍRIO é Jornalista desde 1961, quando foi repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Já aos 18 anos, no início do governo revolucionário (1961-62) trabalhou em Cuba como editor de língua portuguesa da Rádio Havana.Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social. Publicado em http://www.blogdoporfirio.com/2013/05/por-que-os-medicos-cubanos-assustam.html

sábado, 11 de maio de 2013

Boas leituras para o fim de semana

Mesmo com o dia das mães pela frente, você, com certeza, vai achar um tempinho para ler algumas coisas bem interessantes que selecionei.
Aproveitando a deixa, Parabéns para as mães e futuras mães!

Quem vai cortar o melão?

Keila Grinberg trata em sua coluna do emprego doméstico no Brasil e das recentes mudanças nas leis que o regulamentam. Para a historiadora, esse tipo de trabalho, que traz resquícios da escravidão, será aos poucos incorporado à nossa rotina, a exemplo do que já ocorre no primeiro mundo. 


O mercado está para mestre

Estudo mostra o aumento do número de títulos de mestrado concedidos no Brasil entre 1996 e 2009. Dados apontam demanda do mercado de trabalho por profissionais com essa formação.


Elas contra a ditadura

Durante o regime militar, três brasileiras usaram o cinema para exaltar a liberdade das mulheres. A produção dessas cineastas foi objeto de estudo de uma historiadora de Santa Catarina.


A vida dos outros

FÁBIO VIANA RIBEIRO
“A vida dos outros” é um bom filme e uma boa história. Dificilmente seria por alguém considerado um dos grandes filmes que assistiu na vida; mas também está longe de ser apenas uma interpretação do regime político que existiu na Alemanha Oriental. Os detalhes sobre o funcionamento dos sistemas de vigilância política nesta última são mostrados por meio da vida de um dramaturgo, até então alinhado ao governo, e sua namorada, que de um momento para outro passam a ser objeto de investigação da Stasi, a pedido de um ministro (por sua vez interessado na última)... LEIA NA ÍNTEGRA: http://espacoacademico.wordpress.com/2013/05/08/a-vida-dos-outros/