quarta-feira, 9 de novembro de 2016

JK foi assassinado pela ditadura militar

Texto escrito por José de Souza Castro:

Durante os 15 anos que dirigiu o Memorial JK em Brasília, desde sua construção até 1995, o coronel Affonso Heliodoro ouviu de muitos dos mais de 400 visitantes por dia uma pergunta que não soube responder em seu livro “JK Exemplo e Desafio”, publicado há 11 anos. Amigo e auxiliar do ex-presidente, o autor afirma que não há resposta à grande questão: JK morreu num acidente de trânsito ou foi assassinado?
O ex-presidente foi assassinado. É o que garantem os autores do livro “O assassinato de JK pela ditadura” (804 páginas, em dois volumes, R$ 200,00), lançado em agosto passado na Faculdade de Direito da USP, na data em que se completavam os 40 anos do assassinato. Em entrevista a Paulo Henrique Amorim, divulgada nesta segunda-feira, 7 de novembro, com o título “(Quase) todos os assassinos de JK”, um dos coordenadores das pesquisas que resultaram no livro, Alessandro Octaviani, cita Affonso Heliodoro como uma de suas fontes.

Aos 100 anos de idade, desinteressado de quase tudo, segundo o filho Affonsinho – o compositor e cantor casado com uma de minhas filhas, Viviane –, o velho coronel da PM mineira que auxiliou o conterrâneo JK desde que ele era prefeito de Belo Horizonte talvez se interesse em saber, finalmente, a resposta à pergunta que todos queríamos ouvir.
“Não temos resposta”, escreveu Affonso Heliodoro em 2005, em seu livro. “Ninguém a tem. Em sã consciência, pessoa alguma pode hoje afirmar ou negar. São tantas as evidências e as não-evidências!…”, lamentou.
A Comissão Nacional da Verdade não se interessou em esclarecer tais evidências. “Não tinha agenda para isso”, ouviu Alessandro Octaviani, quando a procurou. Ele não desanimou. Com os colegas Lea Vidigal Medeiros e Marco Aurélio Braga, coordenou o Grupo de Trabalho, envolvendo cerca de 30 pesquisadores da USP e do Mackenzie, com um propósito bem definido: levantar a nuvem de obscurantismo que “bloqueou a verdade sobre a morte de JK, negando aos brasileiros seu direito à verdade e à memória nacional, que devem ser os fundamentos de nossa República, ainda por construir”, como se lê no resumo publicado pela editora. E conclui:

“O objetivo da ditadura militar sempre foi o de que o Brasil não soubesse de seus crimes ou de que deles não se falasse mais. (…) A vida e a morte de JK integram o patrimônio da Nação e pertencem a cada um de nós, cidadãos. Não pertence aos militares que o perseguiram, não pertence aos políticos e burocratas que se arvoraram em monopolistas das versões enviesadas, não pertence sequer a seus auxiliares fiéis ou queridos familiares. Pertence ao Brasil, seu povo. O povo amado por Juscelino, como qual sua identificação foi plena, integral. Ao qual deu esperança sem igual e no qual se reconfortou.”

Os autores planejam a continuidade do Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek (GT-JK), para que não restem dúvidas sobre o que levou a ditadura militar, em conluio, possivelmente, com a Operação Condor, a assassinar JK e todos os principais líderes dos que faziam oposição, na década de 1970, aos regimes ditatoriais na América do Sul.

(fonte: https://kikacastro.com.br/2016/11/08/jk-assassinado-ditadura/#more-13216)

Envolvimento com ditaduras volta a assombrar a Volkswagen


Empresa substitui historiador que investigava sua parceria com nazismo. No Brasil, múlti promete analisar participação nos “anos de chumbo” — mas boicota inquérito do Ministério Público sobre o tema
Pelo centro de Intercâmbio, Informações, Estudos e Pesquisas (IIEP)

Em 2 de outubro, foi anunciado na imprensa o rompimento da Volks alemã com seu historiador corporativo, Manfred Grieger. Autor do livro de referência sobre o passado nazista da empresa, Das Volkswagenwerk und seine Arbeiter im Dritten Reich (A Volkswagen e os trabalhadores no Terceiro Reich, em tradução livre), juntamente com Hans Mommsen, Grieger foi descrito como um historiador independente que se insurgiu contra a empresa, omitindo suas ações recentes no Brasil e na Alemanha. O estranhamento pelo afastamento de Manfred e a solidariedade dos intelectuais alemães contra a brutalidade da empresa pautou o noticiário em diversos países.
No dia seguinte, foi anunciada a nomeação pela Volks alemã do reconhecido historiador, Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld, que será encarregado da apuração da responsabilidade corporativa nos casos de tortura, vigilância, repressão e perseguição aos trabalhadores ocorridos no interior da filial de São Bernardo do Campo. As notícias afirmam que Kopper terá um ano para produzir um relatório de suas pesquisas.Não é a primeira vez que a empresa anuncia uma postura à imprensa que não condiz com o seu comportamento diante da questão.
Elencamos alguns elementos sobre como a multinacional tem tratado as denúncias a respeito de seu envolvimento ativo com a repressão política aos trabalhadores durante a ditadura, num conjunto de ações que vão muito além das chamadas “listas negras” e das prisões dentro da fábrica.
A Volkswagen e mais cinco empresas do Estado de São Paulo foram formalmente convidadas a comparecer a duas audiências públicas da Comissão Estadual da Verdade – Rubens Paiva sobre o envolvimento das corporações com a ditadura. Em 27 de fevereiro de 2015, a montadora foi representada por seu gerente jurídico, Rogério Varga. Ali, foi acordado que toda a comunicação entre a empresa e os trabalhadores denunciantes seria feita através da própria Comissão Estadual da Verdade e, após sua extinção, pelo Ministério Público Federal (MPF).
A partir desse momento, a única pessoa que deu seguimento à relação com os trabalhadores atingidos foi o historiador Manfred Grieger.
Desrespeitando o combinado, em 24 de abril de 2015, os trabalhadores que estavam à frente das denúncias receberam carta em papel timbrado da empresa, convidando-os a comparecer a conversas individuais com o Sr. Grieger no Hotel Mercury, em Santo André, “a fim de ouvi-los sobre a sua experiência pessoal durante o período da ditadura militar no Brasil”. A Volkswagen enviou, inclusive, veículos para transportar os que moravam mais distante. Reunidos com os presidentes da Comissão Municipal da Verdade de São Bernardo do Campo, o Vereador José Ferreira, e da Comissão Estadual Rubens Paiva, o Deputado Adriano Diogo, os metalúrgicos decidiram não aceitar nenhuma conversa ou acordo individual.
A representação contra a Volkswagen aceita pelo MPF
Em 22 de setembro de 2015 o Ministério Público Federal recebeu representação do Fórum de trabalhadores e trabalhadoras por verdade, justiça e reparação – assinada pelas dez centrais sindicais brasileiras, presidentes de comissões da verdade e juristas – que resultaria na instauração de um Inquérito Civil Público para apurar a conduta da empresa, ainda em andamento.
Em outubro, Grieger buscou contato com o IIEP, que secretaria o Fórum de trabalhadores, para retomar o diálogo sobre a representação. No dia 13, compareceu, a título informal, na sede do MPF em São Paulo, acompanhado de Joerg Kother, da Conselho Mundial de Trabalhadores do Grupo Volkswagen. Ambos receberam cópia de toda a representação, inclusive seus anexos. Ouviram três ex-funcionários da empresa, Lucio Bellentani, Expedito Soares e Bras Sobrinho. Na ocasião, Grieger não teceu nenhum comentário sobre a continuidade de suas atividades nem expressou qualquer posição da empresa sobre o assunto. Nesse mesmo dia, outros trabalhadores receberam por e-mail novamente convites para conversas individuais com o historiador da empresa, às quais não compareceram.
Em 1º de novembro de 2015 o jornal O Estado de S. Paulo publicou matéria de capa com o título “Volkswagen busca reparar apoio à repressão na ditadura”. A manchete expressa posição exposta em e-mail do Sr. Manfred ao jornalista Marcelo Godoy, autor da matéria. Essa proposta, no entanto, nunca foi apresentada ao MPF pelo historiador ou pelos advogados que têm acompanhado o inquérito.
Novos procedimentos?
Pelas notícias publicadas, o novo historiador contratado pela empresa — Christopher Kopper, da Universidade de Bielefeld — limitou-se, ao assumir sua atividade, a citar o que consta da empresa no relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), entregue em dezembro de 2014.
Kopper afirmou que irá “checar novamente as críticas da Comissão à Volkswagen”, os “casos de repressão política que se tornaram públicos” e verificará “se a empresa, de forma geral, lucrou com a ditadura. Irei além do que os historiadores já pesquisaram sobre o tema”. Reforçou também que terá “toda a independência para pesquisar e sobre o conteúdo final deste trabalho”.
O historiador afirmou que fará buscas de documentação relativa à ditadura brasileira nos arquivos da matriz em Wolfsburg e que virá ao Brasil no próximo ano para continuar a pesquisa. Declarou que receberá “todo o apoio da Volkswagen para traduzir os documentos” encontrados, que “a pesquisa sobre o passado da companhia no Brasil deve durar cerca de um ano” e que “os resultados serão apresentados em um relatório que será distribuído pela Volkswagen”. Não houve referência ao Inquérito do MPF contra a Volkswagen do Brasil.
O historiador também anunciou que irá entrevistar ex-funcionários da fábrica, aparentemente repetindo o procedimento adotado pela empresa até agora.
O diálogo necessário
Como as notícias são muito recentes, aguardamos a manifestação da empresa para sabermos se haverá uma mudança de postura institucional, já que desde o dia 27 de fevereiro de 2015, quando da audiência da Comissão da Verdade Rubens Paiva, a Volkswagen do Brasil não emitiu nenhum tipo de comentário, opinião ou posicionamento sobre as denúncias ou o Inquérito instaurado.
O Conselho Mundial de Trabalhadores do Grupo Volkswagen tem cobrado da empresa matriz explicações sobre o caso.
Os passos para o avanço no campo da Memória, Verdade, Justiça, Reparação, no caso Volks, devem ser dados sob a mediação do MPF, dentro do Inquérito Civil conduzido pelos procuradores.
O Inquérito Civil é público está integralmente disponível a qualquer interessado no Ministério Público Federal em São Paulo.
Para acesso à denúncia apresentada ao MPF e os documentos anexos: https://goo.gl/vQv1ak

(fonte: http://outraspalavras.net/blog/2016/11/07/envolvimento-com-ditaduras-volta-a-assombrar-a-volkswagen/)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Novo número da revista Espaço Acadêmico

Revista Espaço Acadêmico
v. 16, n. 186 (2016): Revista Espaço Acadêmico, n. 186, novembro de 2016
Sumário
http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/issue/view/1171

DOSSIÊ: UTOPIAS - 500 ANOS (Org.: Antonio Ozaí da Silva)
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Utopia: roteiro de um conceito (01-07)
        Paulo Denisar Fraga
Utopia e intervenção na ordem política (08-16)
        Antonio José Romera Valverde
Os utópicos como pioneiros da concepção cooperativista (17-28)
        Elisa Zwick
A utopia de Thomas Morus, segundo Ernst Bloch (29-40)
        Francisco Antonio Marques Viana
A Utopia de Thomas More e o destino de sua leitura em seus 500 anos (41-51)
        Gleyton Trindade
Utopias de junho (52-60)
        Luís Antonio Groppo
Sobre a crítica dialética da Utopia de Thomas More: um livro proibido?
(61-70)
        Rafael Egidio Leal e Silva
Marxismo original e Utopia (71-83)
        Nildo Viana

arquitetura
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Fazer projeto: trabalho manual ou intelectual? (84-96)
        Glaucinei Rodrigues Corrêa,     Maria Luiza Almeida Cunha de Castro

convergências
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Temer e tremer ou a barbárie da destruição da educação pela política
filisteia (97-109)
        Renato Nunes Bittencourt

direito
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Como enfrentar as desigualdades raciais no Brasil? Uma análise jurídica e
social das relações raciais na perspectiva da teoria dos direitos humanos
e fundamentais (110-121)
        Fernanda da Silva Lima

educação libertária
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Avaliação educacional na Educação Anarquista (122-132)
        Gustavo Castanheira Borges de Oliveira

filosofia política
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Totalitarismo e a “fabricação de um novo homem” (133-140)
        José João Neves Barbosa Vicente

políticas públicas
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O campo do conhecimento em políticas públicas no Brasil: um mapeamento do
ensino e da pesquisa (141-154)
        João Pedro Tavares Damasceno

resenhas & livros
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A desordem mundial: o espectro da total dominação (155-156)
        Leonardo Boff
Ensaios sobre a escola politécnica (157-159)
        Alexandre Afranio Hokama Silva
Movimento de ocupação das escolas em São Paulo: lições da juventude
(160-163)
        Antonio Ozaí da Silva

Julian Assange: “Hillary é a candidata do 1%”

Emails vazados pelo Wikileaks revelam: todo o establishment está com ela – em especial a oligarquia financeira e o complexo industrial-militar. Veja por quê.
Entrevista a John Pilger

Julian Assange concedeu uma de suas entrevistas mais incendiárias, num encontro com John Pilger (John Pilger Special), cortesia de Dartmouth Films, na qual resume o que lhe parece mais crucialmente importante das dezenas de milhares de e-mails distribuídos por WikiLeaks esse ano.
Pilger, australiano como Assange, realizou a entrevista, de 25 minutos, na Embaixada do Equador em Londres, onde Assange está confinado desde 2012, por medida de segurança, para evitar ser extraditado para os EUA. Mês passado, a conexão de internet de Assange foi cortada, alegadamente por “interferência” na eleição presidencial dos EUA, pelo trabalho de seu website.

John Pilger: O que significa a intervenção do FBI nesses últimos dias da campanha eleitoral dos EUA, desta vez contra Hilary Clinton?
Julian Assange: O FBI tornou-se efetivamente a polícia política dos EUA. Demonstrou isso ao provocar a demissão do ex-diretor da CIA [general David Petraeus] porque passara informação secreta para a amante. Quase ninguém é intocável. O FBI está sempre tentando demonstrar que ninguém consegue resistir a ele. Mas Hillary Clinton resistiu muito acintosamente contra a investigação do FBI, o que gerou muita ira, porque fez com que a instituição aparecesse em posição de fraqueza aos olhos da opinião pública. Nós publicamos cerca de 33 mil emails de Hillary, de quando era secretária de Estado. São parte de mais de 60 mil emails, [dos quais] Hillary conservou cerca da metade, 30 mil. E nós publicamos a outra metade.
Depois, estamos publicando os “Podesta emails“. [John] Podesta é principal coordenador de campanha de Hillary Clinton, portanto há um fio que percorre todos esses emails; há muita “negociação” do tipo “pague para jogar”, pay-for-play, como eles dizem, muito acesso liberado a estados, indivíduos e empresas, em troca de dinheiro. [Esses emails] combinam-se com o encobrimento dos de Hillary Clinton, de quando foi secretária de Estado, que gerou um ambiente no qual aumenta a pressão sobre o FBI.


A campanha de Hillary disse que a Rússia está por trás dos vazamentos, que Moscou manipulou a campanha e que é fonte de onde WikiLeaks recebe seus emails.
O campo de Hillary conseguiu projetar esse tipo de histeria neo-macartista: a Rússia sempre é culpada por tudo. Hilary Clinton disse inúmeras vezes, mentindo, que 17 agências de inteligência dos EUA teriam concluído que a Rússia seria a fonte de nossas publicações. É mentira. Posso dizer, porque é absoluta verdade, que nossa fonte não é o governo russo.
WikiLeaks publica já há dez anos. Ppublicamos 10 milhões de documentos, vários milhares de publicações individuais, vários milhares de diferentes fontes, e ninguém jamais encontrou informes falsos no que publicamos.

Os emails que provam que se vendiam acessos [a autoridades], que se trocava acesso por dinheiro, e o modo como a própria Hillary Clinton beneficiou-se desse “mecanismo” e como ainda se beneficia politicamente. São documentos realmente extraordinários. Penso no representante do Qatar, que comprou e pagou com um cheque de 1 milhão de dólares, o “direito” de falar diretamente com Bill Clinton, por cinco minutos.
Do Marrocos, cobraram 12 milhões…

Exatamente, 12 milhões do Marrocos, é mesmo.
… para que Hillary Clinton comparecesse a uma festa.

Em termos da política externa dos EUA, e nesse setor os emails são especialmente reveladores, porque mostram a conexão direta entre Hillary Clinton e o surgimento do jihadismo, do Estado Islâmico (ISIS), no Oriente Médio. Você poderia comentar o modo como os e-mails demonstram essa conexão? Afinal, os que deveriam estar combatendo contra os jihadistas do ISIS, são, na verdade, os que ajudaram a criá-lo.
Há um email do início de 2014, de Hillary Clinton, pouco tempo depois de ela ter deixado o Departamento de Estado, dirigido ao coordenador geral de sua campanha, John Podesta. Hillary diz que o ISIS fora criado pelos governos de Arábia Saudita e Qatar. Esse é o email mais significativo de toda a coleção, e talvez seja o motivo pelo qual há dinheiro saudita e qatari em todos os cantos da Fundação Clinton. O governo dos EUA até admite que algumas figuras sauditas tenham apoiado o ISIS. Mas a fantasia que se criou sempre foi a de que seria dinheiro de alguns príncipes “do mal”, usando o dinheiro que lhes cabe do petróleo para fazer o que quisessem, mas que a ação seria desaprovada pelo governo saudita.
O que aquele email diz é que não. Quem pagava naquele momento para manter o ISIS eram os próprios governos saudita e qatari.

Os sauditas, qataris, marroquinos, bahrainis, particularmente os sauditas e os qataris, estão enchendo de dinheiro a Fundação Clinton, no exato momento em que Hilary Clinton é secretária de Estado, e o Departamento de Estado aprova negócios maciços de venda de armas, particularmente para a Arábia Saudita.
Aconteceu durante o mandato de Hillary Clinton o maior negócio de armas de toda a História, com a Arábia Saudita, [num total de] mais de 80 bilhões de dólares. De fato, durante o mandato dela como secretária de Estado, o valor total em dólares, das exportações de armas dos EUA, dobrou.

Claro, o outro lado dessa moeda é que o grupo terrorista conhecido como ISIS foi criado, em grande medida, com o dinheiro do mesmo pessoal que sustenta também a Fundação Clinton.
É.

É espantoso.
É verdade é que, no plano pessoal, Hillary Clinton me inspira muita pena, porque vejo uma pessoa que está sendo devorada ao longo da vida pelas próprias ambições, literalmente tão atormentada a ponto de adoecer. Ela desmaia, como resultado doentio das próprias ambições. Ela representa toda uma rede de pessoas e uma rele de relacionamentos com Estados determinados. A questão é determinar o modo como Hilary Clinton está encaixada nessa rede mais ampla. Ela é como um eixo de articulação que centraliza e distribui as “energias”. Há várias alavancas distintas em operação, desde os grandes bancos como Goldman Sachs e elementos importantes de Wall Street, e da inteligência, e pessoal no Departamento de Estado e os sauditas.
Ela é o eixo de articulação-distribuição que interconecta todos esses diferentes braços. É como a representação central de tudo isso; e “tudo isso” é mais ou menos o que se vê hoje na posição de mais poder nos EUA. É o que chamamos de establishment ou de “o consenso da capital” [ing. DC consensus]. Outro importante email de Podesta, que já distribuímos, foi sobre como se formou o gabinete de Obama; como mais da metade dos nomes que constituíram o gabinete Obama foram basicamente nomeados pelo CityBank. É impressionante.

CityBank é aquele que mandou uma lista…
Esse mesmo.

… com praticamente todo o gabinete Obama.
É.

Quer dizer que Wall Street decide quem fica e quem sai do gabinete do presidente dos EUA?
Se você acompanhava de perto a campanha de Obama naquela época, percebeu o quanto a campanha rapidamente se aproximou dos interesses dos bancos. Da mesma forma, ninguém pode compreender adequadamente a política externa de Hillary sem compreender a Arábia Saudita. As conexões com a Arábia Saudita são tão íntimas!

Por que Hillary manifestou-se tão entusiasticamente deliciada com a destruição da Líbia? Você pode por favor falar um pouco sobre o que os emails informam – sobre o que dizem a vocês –, do que realmente aconteceu na Líbia? Porque a Líbia é quase diretamente a fonte de muito do que hoje se vê acontecer na Síria: o ISIS, o jihadismo e tudo mais. E foi praticamente a invasão construída por Hillary Clinton. O que os emails nos contam sobre isso?
A Líbia é a guerra de Hillary Clinton, sim, mais do que de qualquer outra pessoa. Barak Obama inicialmente se opôs. Quem promoveu, sempre incansavelmente, aquela guerra? Hillary Clinton. Está claramente documentado nos emails dela. Ela pôs seu agente preferido, Sidney Blumenthal, nessa tarefa. São mais de 1.700 emails dos 33 mil emails de Hillary Clinton que publicamos até agora, só sobre a Líbia. Não porque a Líbia significasse petróleo barato. Mas porque ela viu a importância de derrubar Gaddafi e destruir o Estado líbio –, importante para ela mesma, porque viria a servir-se desse “feito” para concorrer à eleição geral para presidente.
No final de 2011 apareceu um documento interno chamado Tick Tock On Libya que foi produzido para Hillary Clinton, e é a descrição cronológica do que ela fez como figura central na destruição do Estado líbio, que resultou em cerca de 40 mil mortos na Líbia; então os jihadistas mudaram-se para lá, o ISIS instalou-se lá, as populações residentes foram expulsas, o que gerou o fluxo de refugiados e a crise dos migrantes para a Europa.
Não apenas gerou-se ali um fluxo de pessoas obrigadas a deixar a Líbia, a deixar a Síria, e a desestabilização de outros países africanos, por efeito direto do fluxo de armas para a região, mas o próprio Estado líbio foi desmontado e perdeu a capacidade de controlar os fluxos de migrantes que passaram a cruzar o país. A Líbia está diante do Mediterrâneo e sempre funcionou como a rolha que continha a pressão do resto da África. Por isso, pode-se dizer que [a destruição do Estado líbio é a origem de] todos os problemas, problemas econômicos e a guerra civil na África. Porque antes, os problemas não eram canalizados diretamente para a Europa: a Líbia operava como guardiã do Mediterrâneo.
Exatamente o que, naquela época, início de 2011, dizia o coronel Gaddafi: “O que esses europeus pensam que estão fazendo, tentando bombardear e destruir o Estado líbio? Haverá inundação de migrantes e jihadistas saídos da África, que entrarão diretamente na Europa.” Foi precisamente o que aconteceu, efeito direto da guerra de Hillary Clinton.

Você ouve reclamações de pessoas que dizem “O que é isso que WikiLeaks está fazendo? Estarão tentando pôr Trump na Casa Branca?”
Minha resposta é que Trump não será “autorizado” a vencer. Não lhe permitirão vencer. Por que digo isso? Porque Trump tem contra ele todo establishment, todos os vários campos do establishment. Não há uma única área ou setor do establishment a favor de Trump. Talvez só, no máximo, os evangélicos, se se pode dizer que sejam um establishment. Bancos, inteligência, empresas fabricantes de armas, dinheiro de fora etc. todos esses apoiam Hillary Clinton. E a mídia-empresa comercial, claro. Os proprietários das empresas comerciais de mídia e, também, os próprios jornalistas seus empregados.

Há também a acusação de que WikiLeaks estaria associado com os russos. Há quem diga “Ora, por que WikiLeaks não investiga nem publica emails sobre a Rússia?”
Publicamos cerca de 800 mil documentos de vários tipos, relacionados à Rússia. Muitos deles são criticamente importantes; e a partir do que publicamos surgiram vários livros sobre a Rússia, muitos deles de crítica à Rússia. Nossos documentos [sobre a Rússia] já foram usados em inúmeros processos judiciais, dentre outros de refugiados, de pessoas que fogem de algum tipo de declarada perseguição política de que seriam vítimas na Rússia. Em vários desses casos, nossos documentos foram citados em tribunais, como prova.

Como você, pessoalmente, vê as eleições nos EUA? Tem alguma preferência? Clinton ou Trump?
[Falemos para começar, de] Donald Trump. O que ele representa na mente dos norte-americanos e europeus? Representa o lixo norte-americano branco [que Hillary Clinton chamou de] ‘deplorável e imperdoável’. De um ponto de vista de um establishment letrado cosmopolita urbano, são gente que eles classificam como “lixo norte-americano branco”; são intratáveis, é impossível confiar neles. Porque Trump representa muito claramente – por suas ações e palavras, e pelo tipo de gente que participa dos comícios dele – gente que não está “no meio”, que claramente não é a classe média alta educada. Por isso, há esse medo de se aproximarem daquelas pessoas, um medo social que degrada o status de classe de quem quer que seja “acusado”, seja como for, de ajudar Trump — inclusive criticando Hillary Clinton. Se você analisa o modo como a classe média obtém o poder econômico e social que tem, aquele medo que afasta de Trump faz absoluto sentido.

Queria falar sobre o Equador, o pequeno país que lhe deu abrigo [e asilo político] nessa embaixada em Londres. Agora, o Equador cortou a internet aqui, no prédio da embaixada, onde estamos fazendo essa entrevista, pela clara, óbvia razão de todos terem medo de que você intervenha na campanha eleitoral dos EUA. Você pode falar um pouco sobre por que tomaram essa medida e o que pensa do apoio que o Equador lhe dá?
Voltemos a quatro anos atrás. Pedi asilo ao Equador, nessa embaixada, por causa do processo de extradição dos EUA. Um mês depois recebi resposta favorável ao meu pedido. Desde então, a embaixada tem estado cercada pela polícia: é uma operação policial muito cara, na qual o governo britânico admite que esteja gastando mais de 12,6 milhões de libras. Admitiram, faz mais de um ano. Agora, há policiais disfarçados e vigilância por câmeras robôs de vários tipos. Significa que tem havido confusão grave bem aqui, no coração de Londres, entre o Equador, país com 16 milhões de habitantes, contra o Reino Unido e os EUA, que colaboram com os britânicos. A ação do Equador é ação de coragem, na defesa de princípios morais.
Agora, está aí a campanha eleitoral nos EUA. No Equador, haverá eleições em fevereiro do próximo ano. E a Casa Branca sente a pressão política resultante da informação verdadeira que estamos publicando.
O WikiLeaks nada publica de dentro de território ou jurisdição do Equador, nada publica de dentro dessa Embaixada; publicamos da França, da Alemanha, da Holanda e de vários outros países. Assim sendo, a tentativa de chantagear o Equador se faz em torno do meu status de refugiado; e isso, sim, é absolutamente intolerável. [Significa] que [EUA] estão tentando atacar uma organização de mídia, uma organização que publica documentos. Estão tentando impedir a publicação de informação verdadeira, de alto interesse para o povo dos EUA e outros povos, relacionada ao processo eleitoral.

Diga-nos o que aconteceria se você saísse a pé desse prédio onde estamos.
Seria imediatamente preso pela polícia britânica e seria imediatamente extraditado para os EUA ou para a Suécia. Na Suécia nada há contra mim, já fui liberado [pela Procuradora Geral de Estocolmo, Eva Finne]. Não temos muita clareza sobre o que poderia acontecer na Suécia, mas sabemos que o governo sueco recusou-se a garantir que não me extraditaria para os EUA. Sabe-se que os suecos extraditaram 100% das pessoas cuja extradição foi requerida algum dia pelos EUA, desde no mínimo 2000.  Nos últimos 15 anos, todos que os EUA quiseram extraditar da Suécia foram extraditados. Os suecos recusam-se a garantir que não me extraditarão.

Muitas pessoas me perguntam como você consegue superar o isolamento, dentro desse prédio.
Ora… uma das melhores qualidades dos seres humanos é que são adaptáveis; uma das piores qualidades dos seres humanos é que são adaptáveis. Pessoas adaptam-se e passam a tolerar todos os tipos de violência e abuso, adaptam-se e começam a se envolver, elas mesmas, nos abusos, adaptam-se à diversidade e seguem adiante. Quanto à minha situação, sinceramente, já praticamente me institucionalizei – aqui [a embaixada] é o mundo. Visualmente, é o mundo para mim.

Mundo sem luz do sol, para ficarmos só nisso, não é?
É o mundo sem sol, mas faz tanto tempo que não vejo o sol, que já nem me lembro.

É.
É. Você se adapta. Para mim o que realmente me irrita é que meus filhos pequenos também se adaptam. Adaptam-se à vida sem o pai deles. É adaptação muito terrível, que eles nada fizeram para ter de suportar.

Você está preocupado com eles?
Sim. Preocupo-me com eles, preocupo-me com a mãe deles.

Alguns diriam “Ok, nesse caso por que não põe fim a isso tudo, sai pela porta desse prédio e se deixa extraditar para a Suécia?”
A ONU [o Grupo de Trabalho da ONU contra Detenção Arbitrária]  examinou detidamente toda essa situação. Passaram 18 meses em discussão, fizeram minha defesa formal, nos tribunais formais. Hoje, somos a ONU e eu, contra a Suécia e o Reino Unido. Quem está certo? A ONU concluiu que estou sob detenção arbitrária ilegal, privado de liberdade e que o que ocorreu não foi feito segundo as leis que Reino Unido e Suécia são obrigados a respeitar. Sou vítima de abuso e de prática ilegal. Quem pergunta formalmente é a ONU: “O que está acontecendo aqui?” “Qual a explicação legal pra o que está acontecendo aqui?” “[Assange] já requereu que todos reconheçam sua situação de asilado.” [E o que se vê é]
A Suécia já respondeu formalmente aos EUA para dizer que “Não reconheceremos [o que a ONU determina]”. Essa reação deixa sempre ativa a capacidade da Suécia para promover minha extradição.
Estranho muito que a narrativa real de toda essa situação não seja exposta na mídia. Mas sei que esses fatos não combinam com a narrativa do establishment ocidental. A verdade é que, sim, há presos políticos no Ocidente. Existem. Essa é a realidade, e não sou só eu, há muitos outros.
Prisioneiros políticos no Ocidente. Pois é. Há. Mas nenhum Estado ocidental aceita chamar de prisioneiros políticos as pessoas que esses estados prendem ou detêm por motivos políticos. O Estado chinês não fala de prisioneiros políticos na China, o Estado do Azerbaijão não fala de prisioneiros políticos no Azerbaijão, e o Estado norte-americano, o Estado no Reino Unido, o Estado sueco tampouco admitem que também mantêm prisioneiros políticos. São absolutamente incapazes de se verem como realmente são.
Temos aí o caso da Suécia, país no qual jamais fui condenado por qualquer crime, onde fui processado [pela Procuradora Geral em Estocolmo] e absolvido, onde a suposta “vítima” declarou que tudo não passou de encenação criada pela Polícia; onde a ONU declarou formalmente que todo o processo é nulo, porque é ilegal. O Estado do Equador também examinou exaustivamente o caso e concluiu que devia me conceder asilo. OK, os fatos são esses. Mas… e a retórica, qual é?

Sim, é diferente.
A retórica só faz mentir e repetir a mentira segundo a qual eu teria sido acusado de praticar um crime… sem jamais esclarecer que já fui absolvido naquele processo. Sem jamais dizer que a suposta vítima, naquele caso, já confessou que toda aquela ação foi urdida na e pela Polícia sueca.
[A retórica] tenta encobrir a verdade evidente de que a própria ONU já reconheceu formalmente que toda essa história é ilegal. Sem jamais esclarecer, sem sequer mencionar, que o Equador avaliou formalmente todo o processo e concluiu que, sim, sou vítima de perseguição política pelo Estado norte-americano.

(fonte: http://outraspalavras.net/capa/julian-assange-hillary-e-a-candidata-do-1/)

"As revoluções fracassam porque pedem liberdade, igualdade... mas se esquecem da fraternidade”, diz Manuela Carmena

Esta senhora tocou no ponto chave: Liberdade e Igualdade já demonstraram a que vieram. Mas a Fraternidade... ainda não!


Manuela Carmena pensa em voz alta, lança ideias, convida à reflexão. Alguém diria que a prefeita de Madri sobe pelos galhos, e outros que não desce deles. O certo é que, após a palestra, fica-se com vontade de continuar a conversa com um café, sem relógio, sem tempo, e sonhar uma cidade, uma sociedade nova, assim como convidou à noite a plataforma jesuíta EntreParéntesis, que abriu na Universidade de Comillas a série de conferências-diálogo “Sonhamos a cidade, a construímos juntos”.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 21-10-2016. A tradução é de André Langer.


Carmena conseguiu lotar o auditório da universidade jesuíta, com jovens – e não tão jovens – que se encostavam às paredes e ficavam sentados no chão. O ato foi introduzido pelo jesuíta Raúl González Fabre, que convidou a todos para “falar com a cidade com ‘C’ para fazer política com ‘P’, que é uma política diferente”.

As boas-vindas à prefeita de Madri ficaram por conta do reitor da Comillas, Julio J. Martínez SJ, que convidou para o “diálogo e a concórdia”. “Diálogo que é troca honesta e sincera de palavra e discurso, para discernir, para conhecer melhor a realidade e para servir melhor. Concórdia, que é união de afetos, que não dissolve as diferenças nem acaba em sincretismo, mas que constrói a partir das identidades diversas”.

Este tipo de ato, destacou o reitor, aborda a “cultura do encontro, que é o que estão pedindo a tempo e fora do tempo o Papa Francisco e o nosso bispo Carlos Osoro. Construir pontes, e não muros, físicos e mentais”. Martínez encerrou sua intervenção lamentando os fatos ocorridos na Universidade Autônoma e mostrou-se “triste, porque não possível realizar um ato onde se ia utilizar a palavra”.

Carmena não teve este problema. Ela se mostrou feliz com o fato de que haja pessoas “com vontade para pensar e refletir sobre nós mesmos”, e abordou a sua proposta para “governar para todos, e estar sempre disposta a refletir com todos, a ouvir a todos e a construir”.

“Procuro aprender muito de Madri. Quero conhecer todos os seus cantos e explicar-me como é”, destacou a prefeita, que destacou como “as cidades são como um termômetro de como o mundo evolui”.

“Estamos em um momento histórico muito particular, em que pela primeira vez o único continente que parecia entre sombras (África), levantou-se e começou a tomar um protagonismo que vai emergir sobre o mundo em geral”, destacou Carmena. “Todo o mundo está despertando, quer seu protagonismo, e isso vai provocar uma série de convulsões”.

Em sua opinião, a globalização traiu, de um lado, o auge das coletividades, e de outro, o empoderamento dos indivíduos, que “está rompendo os moldes das estruturas que até agora conhecemos”. “Estamos vivendo momentos absolutamente apaixonantes e cheios de convulsões e sofrimento”, destacou.

Para Carmena, “Madri é uma cidade dolorosamente desigual”, que é preciso combater, nivelando distritos e formas de vida. Sem entrar em políticas concretas – todo o encontro girou em torno de grandes ideias, desses “sonhos de cidade”, pois este é, e era não outro, o objeto do debate –, defendeu que “só podemos mudar as coisas se os madrilenses decidirem fazê-lo. A cidade é construída pelos cidadãos, a chave é contar com os cidadãos, e como se incorporam na governança”.

Neste ponto, Carmena incidiu em que “não basta existir um poder local” e reclamou a existência de “governos transparentes, participativos, onde não exista corrupção alguma. Porque a corrupção e o caciquismo impossibilitam o avanço de qualquer proposta”. Um convencimento que fez em uma recente reunião com prefeitos de todo o mundo. “E não encontrei muito apoio”.

Para a prefeita de Madri, “é preciso redefinir os governos e a nova política, que é o emblema das cidades”, e entender que a função do prefeito “não consiste apenas em gerir os assuntos de todos. A função do prefeito é cuidar dos moradores, dos cidadãos, querê-los. E cuidar significa permitir que as pessoas às quais são dedicados os programas se satisfaçam”.

Algo que, ainda hoje, não se consegue. “As revoluções fracassam porque se esquecem da fraternidade; falam muito de liberdade, de igualdade, mas hoje não é possível fazer um trabalho de progresso se não recuperamos um humanismo, ou recuperamos a fraternidade. As políticas não podem ser pensadas em abstrato”.

Manuela Carmena, além disso, defendeu que os políticos “sejam boa gente e amem os seus. Costumam atacar os meus discursos bondosos, mas temos dificuldades para aceitar que a bondade é um elemento absolutamente imprescindível para o público”.

Sobre o seu “sonho de cidade”, Manuela Carmena defendeu que “a cidade com que sonhamos tem que ser a cidade dos cuidados”. Com três eixos: políticas com pontos de saída e de chegada claros: o cidadão. “Trabalhar para pessoas concretas”; em segundo lugar, uma perspectiva transversal; finalmente, “permitir que todos participem. A sociedade civil são todos: as ONGs, as universidades, as empresas...”.

E tudo isso desde a tolerância. “Devemos entender que alguns gostam de usar lenço, outros fazer festa, outros gostam dos touros e outros não. somos diversos, e temos que ser absolutamente tolerantes e dar espaço a cada um”, pediu. “Ser cidades do ‘Sim’, do ‘por que não?’”, defendeu Carmena, que insistiu em seu desejo de que “queremos que Madri seja a capital da paz”.

Uma cidade que lute contra todo tipo de violência. “A estrutura das grandes cidades permite o anonimato, a impunidade da violência”, desde as quadrilhas à violência do esporte, das máfias, do assédio ou do terrorismo. “É imprescindível que na cidade estejamos atentos à violência”. Também os políticos. “Que as pessoas insultem o Parlamento, no diálogo político... são elementos do vírus que gera essa violência”.

“Devemos controlar a violência para evitá-la. É insuportável ver os bombardeios de Aleppo, o que está acontecendo. Essa atuação cainita entre seres humanos. O desafio das cidades é ser protagonista dos grandes assentamentos humanos, e temos que estar conscientes de seus inimigos”, concluiu a prefeita.

Houve pouco tempo para as perguntas, mas nas mesmas Carmena defendeu “sair do comum” para construir uma sociedade da inclusão, na qual também encontrem um espaço os imigrantes e os refugiados, com outra palavra chave, “sensibilidade”. “O elemento sentimental é essencial, somos sentimentos”.

Sobre si mesma, definiu-se como “uma política ocasional, e me parece um bom modelo. Por que deve haver políticos profissionais?” Neste ponto, defendeu uma política transversal, mais representativa, na qual “possamos nos cruzar muito, coincidir em algumas coisas e divergir em outras e sair desses enormes redutos do sectarismo”. Uma das razões da violência, disse, “é que nos sentimos tão órfãos que necessitamos criar os ‘nossos’”.

Finalmente, e sobre a presença do religioso no âmbito público, a prefeita de Madri disse que “será o que os cidadãos quiserem”. “Nosso modelo é que não deve haver nenhuma vinculação entre o religioso e o público, para evitar uma religião dominante. Esse modelo pode completar-se com um respeito ao fato religioso completo, que permita alternativas de vinculação entre o público e o religioso. Vale mais apostar na integração”.

“Eu não sou crente, e, no entanto, aceitei participar de atos religiosos, porque creio que há muitos cidadãos de Madri que gostariam que sua prefeita estivesse em um ato religioso. Se, com a minha atitude, não falto ao respeito, faço-o com gosto, mas sempre sem hipocrisia”, disse.

(fonte: http://www.ihu.unisinos.br/561466-manuela-carmena-as-revolucoes-fracassam-porque-pedem-liberdade-igualdade-mas-se-esquecem-da-fraternidade)

domingo, 6 de novembro de 2016

Papa condena “internacional do dinheiro”; para ele há o “projeto-ponte dos povos” e o “projeto-muro do dinheiro”

O Papa e participantes do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares

No encerramento do III Encontro Mundial dos Movimentos Populares, na tarde deste sábado (5) na sala Paulo VI, no Vaticano, o Papa Francisco fez um ataque assertivo ao capitalismo, e disse que o mundo está dividido entre dois projetos: “Um projeto-ponte dos povos diante do projeto-muro do dinheiro.” Leia a íntegra do discurso de Francisco aqui.
Ele defendeu “a destinação universal dos bens” e convocou os movimentos sociais para um projeto de “refundar as democracias” e a não se conformarem a serem “atores secundários, ou pior, a meros administradores da miséria existente”.
Francisco denunciou a “internacional do dinheiro”, usando uma expressão de 1931 de Pio XI, afirmou que os ricos governam o mundo com “o chicote do medo” e que existe um “terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade”, acrescentando que “o sistema é terrorista”.
O Papa comparou o tratamento que o sistema capitalista destina aos bancos daquele que é dispensado aos refugiados, que são uma emergência planetária: “O que acontece no mundo de hoje que, quando ocorre a bancarrota de um banco: imediatamente aparecem somas escandalosas para salvá-lo. Mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não existe sequer uma milésima parte para salvar estes irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo transformou-se em um cemitério e não somente o Mediterrâneo…muitos cemitérios próximos aos muros, muros manchados de sangue inocente.”
Francisco retomou uma formulação de sua Exortação Apostólica Evangelii gaudium (Alegria do Evangelho), de 2013, e afirmou que “enquanto não se resolverem radicalmente os problemas dos pobres, renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira e atacando as causas estruturais da iniquidade, não se resolverão os problemas do mundo e definitivamente, nenhum problema. A iniquidade é a raiz dos males sociais”.
Ao final do discurso, Francisco advertiu os movimentos sociais quanto aos riscos da corrupção, mas não tratou do tema de acordo com a lógica conservadora da mídia, do sistema judiciário, empresarial e político brasileiro. Ao contrário chamou a atenção para a instrumentalização das notícias em torno da corrupção. O Papa afirmou que “como a política não é uma questão dos “políticos”, a corrupção não é um vício exclusivo da política. Existe corrupção na política, existe corrupção nas empresas, existe corrupção nos meios de comunicação, existe corrupção nas Igrejas e existe corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares. É justo dizer que existe uma corrupção radicada em alguns âmbitos da vida econômica, em particular na atividade financeira, e que é menos notícia do que a corrupção diretamente e ligada ao âmbito político e social. É justo dizer que muito vezes se utilizam os casos de corrupção com más intenções.”
Além disso, o Papa indicou a obrigação dos que “escolheram uma vida de serviço” quanto à necessidade de “viver a vocação de servir com um forte sentido de austeridade e a humildade. Isto vale para os políticos, mas vale também para os dirigentes sociais e para nós pastores.” Francisco apontou que a necessidade de uma vida austera para os líderes dos movimentos sociais não pode se confundir nunca com as políticas de supressão de direitos sociais, como acontece no Brasil hoje: “Disse ‘austeridade’. Gostaria de esclarecer a que me refiro com a palavra austeridade. Pode ser uma palavra equivocada. Austeridade moral, austeridade no modo de viver, austeridade em como levo em frente a minha vida, minha família. Austeridade moral e humana. Porque no campo mais científico, científico-econômico se quiserem, ou das ciências do mercado, austeridade é sinônimo de ajuste. E não é a isto que me refiro. Não estou falando disto.”


Participaram do encontro em Roma, delegados de movimentos populares de mais de 60 países dos cinco continentes, entre eles o ex-presidente do Uruguai Pepe Mujica e a líder ambientalista indiana Vandana Shiva. João Pedro Stédile, líder histórico do MST, foi um dos integrantes do grupo brasileiro.
Em sua conferência no encontro, Mujica chamou a atenção para o fato de que que apenas 32 pessoas detêm tanta riqueza quanto 300 milhões na América Latina e que a esta situação uma “concentração do poder político”  com decisões dos governos “que favorecem os que acumulam”, num procasso que “desacredita os sistemas políticos e faz o povo começar a dar as costas aos sistemas políticos representativos”. O ex-presidente uruguaio afirmou que sem uma mudança cultura profunda não haverá mudanças: Não se pode construir uma cultura solidária a partir de valores capitalistas”. Veja aqui mais detalhes do discurso de Mujica ou ouça-o na íntegra.
O documento final do encontro afirma que “o sistema capitalista que governa o mundo” é o causador da crise ambiental do planeta, por não respeitar “a dignidade humana”. Um momento emocionante da leitura do documento por Edilma Mendes foi a menção a Berta Cárceres, líder ambiental hondurenha assassinada em março passado: “Queremos recordar Berta Cárceres, porta-voz de nosso primeiro encontro, assassinada por promover processos de mudanças”. Ela leu o documento final do primeiro encontro, realizado em 2014 também em Roma –o segundo, em 2015, foi em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia).
Os movimentos populares apresentaram a proposta de “um salário social universal para os trabalhadores”, propuseram que a inviolabilidade da residência familiar seja um direito também universal, condenaram a privatização da água, os transgênicos e as patentes de sementes. Os movimentos populares querem “mecanismos institucionais” que garantam sua participação nas decisões políticas e econômicas e manifestaram o desejo de “construir uma cidadania universal que derrube os muros da exclusão e da xenofobia”.
Ao final do texto com as conclusões, os líderes dos movimentos sociais de boa parte do planeta afirmaram querer “trabalhar junto com Francisco, para que estas propostas transformem-se em direitos” e incentivaram “as igrejas locais a fazerem realidade as mensagens do Papa”.  Se quiser, clique aqui para ler a reportagem do site católico espanhol Religion Digital sobre o último dia do encontro. Veja aqui o site oficial do encontro, com muitos detalhes sobre tudo o que aconteceu.
Stedile apresentou  um bom resumo de como o diálogo e as formulações evoluíram desde o primeiro encontro, em 20014, até o de 2016. Assista clicando aqui.


Todo o discurso do Papa foi vazado em termos duros contra o capitalismo e os ricos de incentivo aos movimentos populares para que tomem o destino do mundo em suas mãos.
Francisco apresentou um verdadeiro programa mínimo comum que poderia unificar os movimentos populares em todo o planeta “para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença”: “1. Colocar a economia a serviço dos povos; 2. Construir a paz e a justiça; 3. Defender a Mãe Terra.”
A seguir, detalhou este programa que deveria se nortear pela seguinte plataforma: “trabalho digno para aqueles que são excluídos do mercado de trabalho; terra para os agricultores e as populações indígenas; moradia para as famílias sem-teto; integração humana para os bairros populares; eliminação da discriminação, da violência contra as mulheres e das novas formas de escravidão; o fim de todas as guerras, do crime organizado e da repressão; liberdade de expressão e de comunicação democrática; ciência e tecnologia a serviço dos povos.”
O Papa escutou os consensos articulados nos trabalhos durante a semana e que foram reunidos pelo projeto surgido nos últimos anos na América Latina sob o desejo do “bem viver”: “Ouvimos também como vocês se comprometeram em abraçar um projeto de vida que rejeite o consumismo e recupere a solidariedade, o amor entre nós e o respeito pela natureza como valores essenciais. É a felicidade de ‘bem viver’ aquilo que vocês reclamam, a ‘vida boa’, e não aquele ideal egoísta que enganosamente inverte as palavras e propõe a ‘bela vida’.”
O Papa fez um vínculo direto entre o governo do dinheiro e o terrorismo: “Quem governa então? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência em uma espiral descendente que parece não acabar nunca. Quanta dor, quanto medo! Existe – disse recentemente – existe um terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade. Deste terrorismo de base se alimentam os terroristas derivados como o narcoterrorismo, o terrorismo de Estado e aquele que alguns erroneamente chamam terrorismo étnico ou religioso. Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas de todas as partes. Mas o terrorismo inicia quando ‘é expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher, e colocado ali o dinheiro’ (Coletiva de imprensa no voo de retorno da Viagem Apostólica à Polônia, 31 de julho de 2016). Tal sistema é terrorista.”
O Papa animou os movimentos sociais do planeta a não se deixarem paralisar pelo medo: “Nenhuma tirania, nenhuma tirania se sustenta sem explorar os nossos medos. Isso é chave. Disto o fato de que toda a tirania seja terrorista. E quando este terror, que foi semeado nas periferias são com massacres, saques, opressão e injustiça, explode nos centros com diversas formas de violência, até mesmo com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que fecham alguns e exilam outros. Cidadãos murados, aterrorizados, de um lado; excluídos, exilados, ainda mais aterrorizados de outro. É esta a vida que Deus nosso Pai quer para os seus filhos? O medo é alimentado, manipulado… Porque o medo, além de ser um bom negócio para os mercadores das armas e da morte, nos enfraquece, nos desestabiliza, destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, nos anestesia diante do sofrimento dos outros e no final nos torna cruéis. Quando ouvimos que se festeja a morte de um jovem que talvez tenha errado o caminho, quando vemos que se prefere a guerra à paz, quando vemos que se difunde a xenofobia, quando constatamos que ganham terreno as propostas intolerantes; por trás desta crueldade que parece massificar-se existe o frio sopro do medo.”
E incentivou os líderes e protagonistas destes movimentos a atuarem na política em seus países, pois a ausência deles deixa terreno aberto para que “os grupos econômicos e midiáticos” dominem a cena –uma descrição quase literal do processo em curso no Brasil. “Os movimentos populares, o sei, não são partidos políticos e deixem que eu vos diga que, em grande parte, aqui está a vossa riqueza, porque vocês expressam uma forma diversa, dinâmica, e vital de participação social na vida pública. Mas não tenham medo de entrar nas grandes discussões, na Política com maiúscula”.
Também num trecho que pareceu talhado ao contexto brasileiro o Papa alertou os movimentos sociais para “o risco de deixar-se formatar e o risco de deixar-se corromper.” Para Francisco , esta “formatação” significaria os movimentos sociais relegarem-se a agendas assistencialistas nas quais “vocês são tolerados.” Quando os movimentos populares colocam-se “no terreno das grandes decisões que alguns pretendem monopolizar em pequenas castas” deixam de ser tolerados: “Assim a democracia se atrofia, torna-se um nominalismo, uma formalidade, perde representatividade, vai desencarnando-se porque deixa fora o povo na sua luta cotidiana pela dignidade, na construção de seu destino.”
O Papa convocou os movimentos sociais “a refundar as democracias que estão passando por uma verdadeira crise” e não se bastarem a “a atores secundários, ou pior, a meros administradores da miséria existente. Nestes tempos de paralisias, desorientação e propostas destrutivas, a participação como protagonistas dos povos que buscam o bem comum pode vencer, com a ajuda de Deus, os falsos profetas que exploram o medo e o desespero, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade ou de um bem-estar egoístico e uma segurança ilusória.”
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MAIS:
Leia na íntegra a fala do Papa Francisco aos movimentos populares, em Roma (5/11); o a palestra de Pepe Mujica, também presente ao encontro; a análise de João Pedro Stédile do MST sobre sua importância no cenário atual; a cobertura no site oficial do Encontro Mundial de Movimentos Populares.

(fonte: http://outraspalavras.net/maurolopes/2016/11/05/papa-condena-a-internacional-do-dinheiro-e-diz-que-ha-no-mundo-o-projeto-ponte-dos-povos-e-o-projeto-muro-do-dinheiro/)

Não estudamos para manter o mundo estático

ROGÉRIO DE CASTRO*

Determinados a conseguir a atenção da sociedade para suas demandas, os estudantes do Colégio Pedro II, assim como outros discentes brasileiros, resolveram ocupar nossa querida instituição de ensino. Tal decisão, alcançada através do diálogo assente nas assembleias estudantis, demonstra a percepção de que a autoinstituição requer um conjunto de reflexões e ações que ultrapassam os limites das aulas formais, obrigando-nos ao esforço de compreensão acerca das necessidades e desejos dos nossos jovens.

Além disso, ao restituírem o protagonismo na educação aos seus maiores interessados, nossos estudantes tanto transformam o apoio mútuo num fator de resistência, quanto adotam a autogestão como instrumento adequado para a solução de dissensos e demandas coletivas. Portanto, sem deixar de considerar as opiniões dos outros segmentos que compõem a comunidade escolar, assumem uma postura crítica diante das questões que os alcançam e ensaiam, sob o olhar atento dos pais e servidores da escola, o autopertencimento.

Através do efetivo exercício do pensar (consenso conseguido nas assembleias) e do fazer (execução das demandas comuns), transformam-se nos principais mestres de si, construindo coletivamente uma nova dinâmica social que enriquece o espaço da escola. Ao fim e ao cabo, esse fenômeno libertário coloca, no centro das decisões, aqueles que nem sempre conseguem espaço para opinar sobre sua própria condição, lembrando-nos a urgência de inseri-los, efetivamente, no processo de condução do colégio.

É evidente que os momentos de transformação sempre foram difíceis. Desde os primeiros esforços para laicizar o ensino, passando pela defesa da coeducação dos sexos e da extensão do direito à instrução para estudantes negros, vozes conservadoras reagiram sem compreender a verdadeira vocação da educação: oferecer os cabedais necessários à vida. Malgrado tais adversidades, os estudantes do Colégio Pedro II seguem adiante, insistindo na construção de uma sociedade justa e fraterna enquanto grande tradição dessa casa. Sem temer, aprendem, uns com os outros, “a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”, enchendo seus servidores de orgulho e confiança ao demonstrarem que não existe cidadania passiva e por isso a luta pelo direito consta no currículo dessa escola.
* ROGÉRIO DE CASTRO é Doutor em Educação (UERJ) e professor do Colégio Pedro II.
(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2016/11/05/nao-estudamos-para-manter-o-mundo-estatico/)