domingo, 26 de fevereiro de 2017

O turbante da discórdia

por Marcelo Gruman

Na semana passada, causou rebuliço o depoimento de uma mulher branca que, para esconder a calvície involuntária decorrente do câncer, decidiu usar um turbante na cabeça. Foi acusada, por um grupo de mulheres negras que estava no mesmo vagão do metrô, de indevida “apropriação cultural”, afinal, o turbante seria um objeto de uso exclusivo de indivíduos cuja pigmentação da pele cruza determinada barreira cromática, critério peculiar, talvez inspirado na criminologia de Cesare Lombroso, a vanguarda do atraso. Houve quem duvidasse da veracidade do depoimento, da própria existência da doença da moça. Sinceramente, acho irrelevante se o depoimento é verdadeiro ou fruto da imaginação de alguém louco para os cinco minutos de fama. Importa, sim, a reação dos “ofendidos”, esta sim real e lamentável.
O respeito à diferença está sendo aniquilado por falsos profetas que reduzem suas identidades a certos fetiches. Cabelo assim ou assado, música assim ou assada, linguagem assim ou assada, roupa assim ou assada, comida assim ou assada, sexo assim ou assado, religião assim ou assada, cor assim ou assada. É branquinha, tá com câncer e quer usar um lenço que achou bonitinho pra esconder a careca? Cuidado, este objeto, devidamente registrado pelos tribunais da cultura legítima/legitimada, apropriado (roubado) indevidamente, não te pertence. Olha só, galera pra frentex: cultura é dinâmica, e o significado que damos a certos fenômenos/manifestações/objetos varia de indivíduo para indivíduo, de grupo para grupo, de tempo em tempos. As fronteiras culturais são movediças. Como dizia Sartre sobre a “inteligência” dos antissemitas: possuem a “constância e impenetrabilidade da pedra”. Essa frase lapidar cai como uma luva para os artífices de uma sociedade cada vez mais embrutecida, mal-humorada e intolerante em nome dá tolerância.
A estupidez conceitual dessa tal de “apropriação cultural”, se levada a sério e posta em prática pela patrulha ideológica, exterminará iniciativas como a da Orquestra Sinfônica Heliópolis, cujos integrantes, não brancos, traem a causa submetendo-se ao jugo de um maestro branco e tocando instrumentos opressivos, como o violino e o oboé. E tem mais: o rapaz que toca Luiz Gonzaga no surrado violino lá perto de casa e cujo sonho é tocar numa orquestra qualquer, longe de ser um legítimo representante da raça ariana de fina cepa, será educadamente convidado a largar o instrumento em troca de outros mais apropriados à sua identidade, de “raiz”, como um berimbau, um pandeiro ou uma bola. Haja alfafa.
A diferença entre os cruzados tupiniquins que guerreiam contra a “apropriação cultural” e, digamos, a Frente Nacional capitaneada por Marine Le Pen, é que aqueles se apresentam com um discurso envernizado de tolerância e respeito à diferença, ao passo que estes não têm vergonha de afirmar sua intolerância e sentimento de superioridade em relação ao “outro”. Ambos sonham com identidades congeladas porque dá menos trabalho intelectual, adoram estereótipos e a ideia de cultura “pura”, asséptica. Cada um no seu quadrado. Constroem muros e destroem pontes.
O ideal de multiculturalismo destes Humilhados e Ofendidos é, na verdade, uma ideologia da anti-assimilação – assimilação no sentido de incorporação à sociedade, trocas simbólicas, fluxos de identidade, e não submissão à “cultura” alheia -, ignorando ou fingindo ignorar que toda cultura é inventada e reinventada. Não lhes convém o diálogo. Combatem o racismo e o preconceito com mais racismo e preconceito, fechamento ao diferente. Ou não é racismo e preconceito criticar um amigo negro que gosta de dar/comer um (a) branco (a)? Ou pior, que namora ou pretende casar-se com um branquelo? Ora, ora, pau que dá em Chico também dá em Francisco. Criaram até um verbo para a traição sexual à identidade ancestral: palmitar. Eu palmito, tu palmitas, ele palmita.
Diz-se (os próprios guias turísticos gostam de contar) que, durante o regime do Apartheid, na África do Sul, quando a polícia não conseguia flagrar dois indivíduos “racialmente incompatíveis” mantendo intercurso sexual (sexo entre raças distintas equivalia a sexo entre espécies distintas), o jeito era verificar a temperatura da cama, qualquer variação para cima provava incontestavelmente que os pombinhos transgrediram as normas da pureza racial, infectando quem não podia ser infectado e limpando quem não deveria ser limpo. Tenho a sensação de que há gente saudosa deste tempo, e não são os discípulos de Pieter Botha.
Como bem diz a Mariliz Pereira Jorge, colunista da Folha de S. Paulo (“branquela, branquela, branquela”), num artigo recente a respeito desta falsa problemática do turbante:
Patrulhar o que os brancos vestem, comem ou cantam não resolverá o problema crítico de desigualdade no Brasil, a quantidade de negros mortos pela polícia, o desequilíbrio da presença nas universidades, em cargos de chefia, a representatividade política. O Brasil é um país racista. Mas não deixaremos de ser apenas porque de agora em diante um grupo pequeno de pessoas decidiu que branco não pode usar turbante, dreadlocks, ser sambista.
Para terminar, um depoimento fictício de um fulano qualquer em futuro longínquo, mas nem tanto, se continuarmos nessa toada da “apropriação cultural”:
“Ontem, presenciei uma cena dantesca. Numa roda de capoeira, um branquelo de olhos verdes com cabelo dreadlock se esgueirava no meio do pessoal. Os demais componentes não pareciam constrangidos, mas eu sei que algo estava “fora do lugar”. O cara resolveu jogar, e não é que fazia bonito? Que petulância! E mais. Batia um papo animado com uma menina, “de raiz”, que soube depois ser sua namorada. Não satisfeito em apropriar-se do cabelo alheio e da manifestação artística alheia, ainda dava uns malhos na mulher alheia. No final, se lambuzou com um acarajé surgido sabe-se lá de onde. Meu mundo caiu. E, de novo, todos pareciam agir como se nada de anormal estivesse acontecendo. Eu não. Chamei a polícia e denunciei a pouca vergonha, cada um no seu lugar, ora essa. O indivíduo prestou depoimento na delegacia e assinou um termo de ajustamento de conduta em que se comprometia a manter distância razoável dos “outros”, comer a comida (com duplo sentido, por favor) que lhe correspondia, usar a calça jeans que lhe correspondia, o penteado que lhe correspondia e tudo o mais que lhe correspondia. Fiz meu papel de cidadão na construção de uma sociedade mais justa e respeitosa das diferenças inerentes e inescapáveis que cada um de nós leva no sangue. Ainda bem que o maluco não estava de turbante, porque aí não haveria solução que não a prisão em razão de ameaça à paz social”.
E a galera do Apartheid que trancafiou Mandela por anos a fio dá risada e vaticina: nós somos vocês amanhã…

* MARCELO GRUMAN é Doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ). Atualmente é administrador cultural da Fundação Nacional de Arte (Funarte). Blog: https://desconstruindomarcelo.blogspot.com.br/

(fonte: https://espacoacademico.wordpress.com/2017/02/18/o-turbante-da-discordia/)

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